OPINIÃO

Uma outra Ludmilla

24/01/2017 18:13 -02
Divulgação

Artista pop carismática, Ludmilla é cantora e celebridade. Foi rotulada de "macaca" e "pobre" por um apresentador da Rede Record. As ONGs ANDI e Intervozes acionaram o Ministério Público Federal porque a emissora de TV desrespeitou as "normas em vigor para a radiodifusão brasileira" quando seu apresentador cometeu injúria racial. Entendo que o caso envolvia também discriminação por gênero e desigualdade econômica e social. Pobre não é palavrão. Mas virou; ao expressar força de opressão e desejo de humilhação. Um profissional da mídia que não deu mais conta de disfarçar seu ódio e/ou frustração diante de mulheres negras criadas em territórios de baixíssima renda usufruírem de sucesso profissional e enriquecerem com seu trabalho.

Quero propor um exercício de pensamento a partir da mesma história. E se Ludmilla fosse artista igualmente bem sucedida, negra, e com deficiência? Seria rotulada pelo apresentador como "macaca portadora de necessidades especiais"? Ou "macaca especial"? Talvez ele desistisse de praticar o ato criminoso de injuria por extrema dó dessa outra Ludmilla, com deficiência. A cantora poderia ser cega ou não ter parte da perna.

Não se sabe qual deficiência "tocaria" mais o opressor. A Ludmilla "especial" seria injuriada? Ou quem sabe diante da deficiência o discriminador decidisse que era melhor deixar quieto, em sinal de "respeito"? E esse respeito caridoso também seria uma discriminação - embrulhada pra presente.

Criminosa não é apenas a prática da discriminação, é sua origem

"É criminoso discriminar".

Era no ano de 2006, quando Escola de Gente - Comunicação em Inclusão criou essa campanha de âmbito mundial, com foco na América Latina, em parceria com o Ministério Público da União. Continua sendo. Nem todas as formas de discriminação são crimes pela legislação brasileira. Imagino que uma injuria envolvendo deficiência como xingamento seria ainda mais grave. Há legislação específica, mas será que consideram a injúria por deficiência como crime, a exemplo da injúria racial?

Criminosa não é apenas a prática da discriminação, é sua origem. Quanto mais elaborada a discriminação menos percebível será. Como registrar em um boletim de ocorrência a chama que alimenta o injuriador quando a discriminação é embrulhada pra presente? Por isso, a discriminação por desigualdades e diferenças de quaisquer naturezas, infelizmente, é prática social cada vez mais aceita. Caso Ludmilla fosse mulher negra, famosa, rica, talentosa, aplaudida e... com deficiência, o apresentador da Record teria resumidamente dois caminhos para discriminar.

No primeiro, ainda que considerada "macaca" e inferior, a Ludmilla "especial" seria poupada da injúria. No segundo, não, porque o agressor não teria "compaixão" pela deficiência. As duas decisões são discriminatórias. No entanto, como a primeira se dá em um processo íntimo, apenas a segunda seria passível de reflexão pública e contestação. Acontece todo dia. Há vezes que a insignificância da deficiência na valoração da pessoa perante a sociedade é tão grande que nem vale a discriminação. Ou: a significância da deficiência na desvalorização da pessoa é tão grande que nem vale a discriminação.

Discriminar pode até dá prazer. Hábitos dão prazer. O cérebro gosta daquilo que já sabe fazer bem

O século está sombrio para os direitos humanos. Há terreno fértil para que o ímpeto de discriminar exploda atavicamente e destrua pessoas, famílias e instituições. O ataque a Ludmilla é apenas a fagulha de um processo sistêmico, mas imperceptível na sua dimensão mais íntima. Quem confessa? Discriminar pode até dá prazer. Hábitos dão prazer. O cérebro gosta daquilo que já sabe fazer bem. Expressões como "especial" e derivações servem para ocultar o desejo secular de excluir.

Lágrimas, arrepios e elogios exacerbados de superação são um modo seguro de se dizer o quanto se deseja excluir determinado grupo, pelo menos da convivência diária. E então, como denunciar um ato de "amor"? Até pais e mães sinceramente amorosos/as discriminam a prole. Amam e discriminam. Será que percebem? Será que percebemos? Nem sempre. Exceto por um insistente incômodo no peito, de indecifrável natureza.Especial para excluir.

O sistema da discriminação por deficiência não tem dialogado com os demais sistemas de discriminação. Nas militâncias, raramente se ultrapassa a distância regulamentar. É preciso gerar uma incidência mútua e ampla entre todos os sistemas de discriminação - dos quais Ludmilla foi mais uma vítima - porque fato é que são um só. A relação gênero x raça x deficiência x desigualdade social é a minha pauta - de inclusão - expandida e urgente.

Que preço vocês e eu estamos dispostos a pagar para se jogar nela?

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