OPINIÃO

Suspeita relação: Pessoas, embalagens e tampinhas

A inacessibilidade das embalagens de água, se não chega a matar, pode isolar, humilhar e excluir...

13/02/2017 12:08 -02 | Atualizado 15/02/2017 21:21 -02
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Embalagens de água são o pesadelo de nossa blogueira.

Há um pavor se acumulando em mim com o passar dos anos. Receio não conseguir abrir as embalagens de água quando estou sozinha, especialmente nos quartos de hotel.

No copinho ou na garrafa, não há diferença. Tento várias vezes, copos involucrados e garrafas. Nada. Meus dedos estão vermelhos, amassados e doídos. A sede aumenta. O pânico vem. E agora?

Lembro que eu tenho dois braços que se movimentam para todos os lados, mãos com 10 dedos - cinco em cada - pulsos que nunca foram quebrados, não têm pinos ou próteses, e ombros e costas sempre dispostos a participar, com músculos em razoável estado. A inacessibilidade das embalagens de água, se não chega a matar, pode isolar, humilhar e excluir.

Na pequena geladeira, as embalagens de líquidos parecem amigas e inofensivas. Algumas vezes o hotel coloca até uma garrafinha de água na mesa com uma tarja de boas-vindas. É brinde. É mesmo? Pois tente abrir essa garrafinha e depois me diga. Ela está ali para mostrar que você é alguém sem forças, sem recursos e sem habilidade. Nem mais de água - e de graça! - você consegue usufruir com autonomia e independência.

Também acontece com as toalhas brancas, cheirosas e fofas, fofíssimas, colocadas no alto do box em banheiros de hotéis. Eu não consigo pegá-las com meus 1,53 metros. Tenho duas opções. Na primeira, arrisco a vida; subo na borda do vaso sanitário, da banheira, do que der para levar pra dentro do banheiro, como a cadeira do quarto, e assim, magnânima e vitoriosa, tomo o meu banho, me achando o máximo. Na segunda, ligo para a recepção do hotel pedindo ajuda. E aí, quando a pessoa chega, eu a surpreendo, vingativa, com dezenas de pedidos. Quero que me ajude a desfrutar de tudo que o hotel finge que me oferece, mas que jamais foi feito pra mim.

Exijo: revele-me onde estão as tomadas secretas, preciosamente localizadas para jamais serem encontradas. E além dessas, me aponte àquelas que só serão descobertas após penitências como agachamentos associados a movimentos rotatórios em diagonal da coluna. Não encontrou? Tente ficar de quatro e fareje como um cão que busca drogas; a diferença é que você fareja uma tomada de três pinos.

Peço ajuda para trocar os móveis do quarto de lugar porque preciso me conectar sem correr o risco de tropeçar no fio do celular. O final da vistoria é dedicado ao desafio máximo. Hora de abrir as embalagens de xampu, condicionador, hidratante e até os sabonetes, as batatas fritas, as castanhas e os chocolates. É um hotel criterioso, que só compra de fornecedores/as premiados/as no "Congresso Anual de Embalagens Inacessíveis". No evento têm sido tomadas decisões que colaboram na segregação de pessoas. E não é que está dando certo?

Parece que as embalagens caminham na direção contrária ao conceito de Desenho Universal, assumido internacionalmente no ano de 2001 como uma das estruturas que promovem de sociedades inclusivas. O Desenho Universal foi pensado por arquitetos/as, urbanistas, engenheiros/as e designers para que pessoas de algum modo excluídas pudessem acessar serviços, bens e direitos com um esforço mínimo, de forma intuitiva e em segurança.

São beneficiárias principais do Desenho Universal pessoas pobres, com deficiência, idosas, encarceradas, marginalizadas por sua condição cultural, religiosa ou racial, obesas, grávidas, que amamentam, com crianças de colo, muito altas ou baixas, crianças, adolescentes cumprindo medidas socioeducativas, entre outras situações. O conceito de Desenho Universal vem sendo aprimorado na direção de estimular a formulação e execução de produtos, ambientes, programas e serviços a serem usados na maior medida possível por todas as pessoas sem necessidade de adaptação ou projeto específico, como a oferta de comunicação e informação. O desenho universal é pra mim e pra você também. Daí o "universal".

O pânico voltou. Universal é o conceito. Mas "desuniversal", e desumano, tem sido o desinteresse em implementá-lo. Será que estamos fadados/as a dedicar horas e mais horas de nossa vida a encontrar modos cada vez mais originais de pedir ajuda para nos alimentarmos e bebermos água? Até que não haverá mais ninguém para pedir ajuda. Daí, morreremos de fome e sede - e será essa morte chamada de natural?

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública. Se você deseja fazer parte do nosso time de blogueiros, entre em contato por meio de editor@huffpostbrasil.com.