OPINIÃO

Como ter barriga negativa? Ou seja: como ter anorexia nervosa

07/02/2014 16:44 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02
Reprodução/Daily Mail

Há algum tempo, li uma matéria no site da VOGUE falando sobre conseguir alcançar a inalcançável barriga negativa de Candice Swanepoel, modelo famosa por ser angel da Victoria's Secret. Para uma ex aluna (e viciada) de moda, é quase ofensivo declarar o que vem em seguida: desculpa, VOGUE, mas aqui você errou. E muito. A frase que dá título à matéria foi a reação esclarecida de uma amiga a esse texto da VOGUE.

É engraçado como padrões de beleza geram rebuliço assim que são trazidos para a discussão e como, mesmo assim, eles se mantêm indiscutíveis -- e nós, conscientes ou não, em maioria, continuamos vítimas.

Com 15 anos, eu apenas planejava estudar moda, mas já queria fazer parte desse mundo. Mesmo sempre estando abaixo do peso por questões genéticas, busquei por bastante tempo um ponto em que considerava o ideal para me sentir magra de verdade. A primeira vez que percebi o quão sério era isso foi em 2006, quando, com meu próprio IMC forçadamente em torno dos 16, assisti à morte de Ana Carolina Reston, modelo brasileira, que morreu com o IMC inferior a 14. De lá para cá, perdi a conta da quantidade de notícias sobre o assunto que li. A modelo Isabelle Caro estampou uma campanha de conscientização sobre a doença em 2007: idealizada por Oliviero Toscani e trazendo fotos chocantes, pode ter ajudado várias meninas, só não ela própria, que morreu em 2010 -- com 28 anos, 1,65m de altura e 25kg, o peso normal de uma criança de 7 anos.

Campanhas sobre o assunto sempre existiram -- agora há pouco, à época da matéria na VOGUE, a agência brasileira Star Models criou uma ação para combater a anorexia chamada "You Are Not A Sketch". Nas imagens, fotos de modelos foram manipuladas para as proporções dos croquis de moda, gerando resultados horrorizantes. Li mais de uma matéria criticando a iniciativa com o argumento de que ilustrações de moda são apenas isso: ilustrações, servindo apenas como guia de construção da roupa, nada tendo a ver com o corpo da figura.

Quando Sabrina Sato foi à televisão exigir que os homens se depilassem, a revolta masculina pela determinação ditatorial rendeu textos e textos na Internet. A repercussão negativa da publicidade e a indignação masculina foram lindas de se ver: o difícil é assistir a isso da primeira fila de um desfile de opressões a mulheres, desde a comentada na situação -- a depilação -- até a exigência de uma figura física.

A dominação social do corpo feminino em geral atravessa a história, desde a obrigação a ter filhos até nosso querido espartilho do século 19. Hoje, grande parte dessa opressão se dá através do número indicado pela balança. É lógico para qualquer pessoa o quão doentio o padrão estabelecido é; o que não é tão claro, entretanto, é o quão fundo ele é capaz de chegar. Foucault, em "A Microfísica do Poder", quando fala sobre o saber-poder e sobre os jogos de verdade, explica que o poder disciplinar é um método que permite o controle minucioso das operações do corpo e que assegura a sujeição constante de suas forças, impondo uma relação de docilidade-utilidade. Esse poder disciplinar acontece através de efeitos de verdade produzidos a todo instante pela sociedade ocidental: são verdades invisíveis com efeitos de poder que nos atam, induzidas pelos mecanismos de poder e servindo-os de substrato.

Bourdieu, quando discute poder e dominação simbólica, percebe que os dominados contribuem para a reprodução da opressão pois incorporam suas regras: assim, nós, mulheres, também somos instrumentos da perpetuação desse padrão. "Para que a dominação simbólica funcione, é preciso que os dominados tenham incorporado as estruturas segundo as quais os dominantes percebem que a submissão não é um ato da consciência, suscetível de ser compreendido dentro de uma lógica das limitações ou dentro da lógica do consentimento, alternativa "cartesiana" que só existe quando a gente se situa dentro da lógica da consciência", Bourdieu fala em "Novas reflexões sobre a dominação masculina", de 1996.

Os padrões de beleza são indiscutíveis há décadas porque quebrá-los, começando por nós mesmos, é de uma dificuldade imensa. A cegueira ocasional quanto à opressão feminina da atualidade ocorre porque muitas vezes essa dominação se dá através de verdades invisíveis e de poder simbólico: é preciso entender o processo e as formas de sujeição para que se pense em estratégias de resistência possíveis. Porém, somos nossos próprios carrascos treinados para a punição do que transcende a lei invisível em vigor e, caso tenhamos o esclarecimento e a coragem suficiente de quebrar essa prisão, a represália é, muitas vezes, mais forte do que poderíamos aguentar.

Na minha época, a VOGUE costumava ser a Bíblia das estudantes de moda -- e, tal qual uma religião pregando dogmas, continua vomitando regras de como devemos usar nosso próprio corpo. Para mim, é inaceitável que uma publicação desse calibre e com tanto poder simbólico (oi, Bourdieu, de novo) não apenas sugestione suas leitoras a esse tipo de comportamento como ofereça dicas práticas que envolvem jejum de 24h (capa da edição especial de 38 anos) e outras insanidades que vão muito contra a saúde física e mental.

Sempre tive de vontade de trabalhar na VOGUE, porque amo moda, arte, beleza. Adoro esse universo inteiro e acredito que a moda é uma ferramenta de expressão pessoal e empoderamento feminino. É com essa VOGUE, com essa moda que eu me identifico.

Se a revolução pela independência dessa dominação deve começar de dentro, também precisa ser apoiada pelos meios em que nossas mulheres encontram expressão. A moda é um espaço de arte e, assim, de libertação, mais potente do que a gente imagina, porque costumamos pensar moda como tendência e consumismo. Porém, quando essa forma de expressão cai na armadilha de servir como coleira e não como arte, ela perde sua nobreza. Em relação à moda, especificamente, o paradoxo é claro: servindo como processo artístico libertário, a indústria abre mão da imposições de padrões aspiracionais que rodam bilhões de dólares o ano inteiro.

Na minha opinião, não são os croquis os culpados pelo padrão que nos oprime, mas tampouco era a eles a crítica que a campanha citada nos primeiros parágrafos fazia: croquis são os símbolos da criação, que deve ser arte, e não processo maquiavélico de geração de lucros a um custo humano altíssimo, que toca até mesmo quem nós, meros mortais, olhamos com admiração. As próprias atrizes de Hollywood e modelos, inclusive da Victoria's Secret, competem com um fantasma que as assombra: sua própria versão retocada pelo Photoshop. Não é difícil perceber o erro em um mundo em que a mulher ideal só existe via edição de imagem no computador, e não é feita de carne e osso, mas sim de pixels.

(Texto originalmente publicado no blog Catárticos)