OPINIÃO

O que você tem a ver com a maior catástrofe ambiental do século?

03/11/2015 19:28 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Bloomberg via Getty Images
Smoke rises from a forest fire in this aerial photograph taken in Ogan Komering Ilir, South Sumatra, Indonesia, on Friday, Oct. 30, 2015. Indonesia's forest fires have catapulted the southeast Asian nation to the top of the rankings of the world's worst global warming offenders, with daily emissions exceeding those of China on at least 14 days in the past two months. Photographer: Dimas Ardian/Bloomberg via Getty Images

O sol finalmente voltou a aparecer aqui em Cingapura, após meses de poluição extrema que cobriu o céu da ilha e isolou as pessoas dentro de casa, de shoppings e escritórios. No último fim de semana, era só o que se ouvia nas ruas: o prazer de poder voltar a respirar ar puro e se bronzear na piscina. Aqui, como no resto do mundo, também se ignora aquilo que, de fato, deveria ser o centro das conversas: as queimadas na Indonésia que deram início a toda essa história.

Desde junho desse ano, milhares de quilômetros de florestas tropicais nas ilhas de Sumatra, Java, Borneo e Papua estão em chamas, espalhando sua fumaça tóxica por muitos países do sudeste asiático, inclusive Cingapura, onde vivemos. Basta a direção do vento mudar para a paisagem - e a qualidade do ar - se transformare radicalmente, mesmo com o oceano nos separando dos focos de incêndio. E então, escolas fecham, parques ficam desérticos e máscaras desaparecem das prateleiras dos supermercados.

Especialistas já consideram esta a pior catástrofe ambiental do século XXI, mas a mídia internacional parece não se importar muito com a notícia. A fumaça proveniente dos incêndios pode ser avistada do espaço, mas aí no Brasil, minha família e meus amigos não têm ideia do que esteja acontecendo aqui na Ásia. Durante o Grande Prêmio de F1 de Cingapura, em setembro, li algumas notícias em portais brasileiros sobre a nuvem de poluição que ameaçava a corrida, mas muito pouco sobre o que a causou em primeiro lugar.

Anualmente, quilômetros de floresta são intencionalmente incendiados para dar lugar à plantações que vão abastecer a insaciável demanda de óleo de palma da indústria de alimentos. Com os grandes conglomerados internacionais utilizando em grande escala o óleo vegetal proveniente das florestas tropicais da Indonésia em sua cadeia de produção, não é de se espantar que esse conflito de interesses silencie jornais e governos. As denúncias, infelizmente, ficam nas mãos de ativistas, cientistas e ONGs como a WWF, que divulgou uma lista completa de produtos que contém óleo de palma e explica porque seu consumo está destruindo habitats sensíveis em países tropicais. Já o site Rainforest Action Network, cita nominalmente as empresas que continuam financiando a destruição das florestas e também as que já começaram a mudar suas cadeias de produção em nome da preservação ambiental. Uma visita ao site mostra que gigantes como Unilever, Kraft e PepsiCo estão muito, mas muito mal na fita.

Enquanto o mundo inteiro ignora, florestas tropicais desaparecem do mapa. Apenas em Borneo, mais de 20 mil orangotangos estão ameaçados, assim como milhares de outras espécies de plantas e animais emblemáticos da região como tigres, rinocerontes e leopardos. Crianças e adultos sofrem com graves problemas respiratórios causados pela fumaça negra e mortes já estão sendo contabilizadas. Aqui em Cingapura, o céu está azul e os parques seguem verdes como sempre. Mas nas ilhas vizinhas da Indonésia, a natureza segue ardendo em nome de uma economia global feroz e do suposto desenvolvimento do país.

E você aí no Brasil, que, ao ler este post, já começou a ajudar a causa se interessando e se informando sobre o assunto, espalhe esta notícia. Mas também preste atenção ao que vai parar no seu carrinho do supermercado. Você pode estar, sem saber, financiando a pior catástrofe ambiental do século.

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