OPINIÃO

As esquinas como linha de base do urbanismo

30/05/2014 19:33 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02
Bitch Cakes/Flickr

A esquina é o espaço central da vida urbana. Mais ainda que as praças públicas, que requerem um trabalho consciente de reservar espaço montado, as esquinas são frutos naturais das encruzilhadas, o elemento fundamental das viagens entre diferentes lugares.

As cidades militares da antiguidade romana, ou castra, que seguiam um modelo de grade, eram planejadas em torno das encruzilhadas e suas esquinas. A "esquina 100%" é uma forma resumida usada historicamente para descrever pontos de destaque no centro da cidade. Até hoje, comerciantes e moradores, em seus processos decisórios, discutem os prós e contras da exposição em mais de uma rua.

A esquina já inspirou autores e poetas:

Albert Camus considerou a esquina um dos lugares mais inventivos de uma cidade. "Todos os grandes feitos e todos os grandes pensamentos têm origens absurdas. Grandes obras muitas vezes nascem numa esquina ou na porta giratória de um restaurante."

A poesia de J.R.R. Tolkien trouxe inspiração fantástica: "Virando a esquina podem estar à espera, Um novo caminho ou um portão secreto".

Conforme ilustram as imagens exploratórias vistas aqui, as esquinas são por sua própria natureza interdisciplinares, independentemente do ambiente cultural que as cerca.

Numa encruzilhada, seja ela pavimentada e reta ou de terra e mal definida, os destinos encontram formas de transporte com rodas e outras, enquanto os sistemas naturais encontram o espaço reconstruído. Enquanto os modos de transporte se fundem, as pessoas observam e aguardam. Com frequência, esgotos, eletricidade e outros serviços públicos se encontram nesses pontos centrais, acima ou abaixo da terra. As esquinas são lugares de segurança e intimidação, homogeneidade e contrastes.

Dadas essas ironias de foco e ambiguidade, as esquinas tornam-se oportunidade de unificar o design e as utilizações da terra. Abordagens regulatórias associadas procuram adotar mistos defensáveis de utilizações públicas e privadas em escala que supera a de construções isoladas.

Alguns exemplos cada vez mais populares incluem entidades comerciais pequenas em zonas tradicionalmente residenciais; unidades residenciais situadas em pisos superiores, quando o térreo é ocupado por empreendimentos varejistas; utilizações privadas de direitos de passagem de outro modo públicos, e presença humana maior no domínio veicular tradicional.

Mais além da observação irônica de Camus e da alegoria traçada por Tolkien, as esquinas urbanas podem representar a melhor, mais visível e mais pragmática oportunidade de reorientar nossas cidades, convertendo-se em nada menos que a linha de base - os elementos fundamentais - da reinvenção dos bairros da cidade no novo milênio.