OPINIÃO

Meritocracia vs tempo de casa: a falsa dicotomia

12/08/2014 11:02 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02
Bernd Leitner via Getty Images

Em uma reunião de diretoria, surgiu a pauta de premiar todos os colaboradores que tinham completado mais de 1 ano de trabalho. Para uma empresa que havia sido formada há somente 2 anos, este "tempo de casa" era um marco importante. Como num piscar de olhos, veio uma resposta direta recusando a proposta, que de tão simples e lógica e, por ter sido 1.000 vezes repetida, parecia ser 100% verdade: "não premiamos tempo de casa, premiamos performance". Depois de reflexão mais profunda, à revelia da impressão inicial, aprovamos a premiação e a empresa deu mais um passo em fortalecer a cultura que estamos trabalhando tão fortemente para criar.

Acho que há pouca disputa em dizer que a meritocracia, ou a "aristocracia de talentos", é o modelo cultural e de gestão de pessoas que tem o DNA mais forte para empresas. Todo o fundamento está em definir e incentivar os padrões corretos de conduta, recompensando as pessoas que seguem estes padrões e mostrando aos outros quais os padrões deveriam ser seguidos. Uma empresa meritocrática retém os melhores talentos, pois os premia e também provoca uma mudança em quem não performa tão bem ou os faz deixar a empresa.

Do outro lado, o "tempo de casa" é constantemente demonizado no meio profissional. Meus professores na faculdade cegamente pregavam: fique no máximo 2 anos em uma empresa, aprenda tudo que puder e vá buscar novos desafios. No começo da minha carreira, trabalhando na consultoria McKinsey & Company, tive a oportunidade de trabalhar com mais de 6 empresas diferentes e, pelo ranço ou imagens erradamente preconcebidas do funcionalismo público, eu somente valorizava o que era moderno e o que me havia sido ensinado. Ao ouvir dizer que alguém trabalhava a mais de 10 ou 15 anos na empresa, eu imediatamente traduzia o orgulho em acomodação. Imaginava que a empresa era antiquada, pouco dinâmica e que não era lugar para novos talentos, pois estes não teriam espaço junto a tantos "pratas da casa".

No entanto, a lógica que opõe meritocracia e tempo de casa está longe de ser verdade. Empresas decidem por ser meritocráticas para garantir que talentos sejam premiados para que estes fiquem na empresa e adicionem anos ao seu tempo de casa. Por isso, o Carlos Brito, por exemplo, está na Ambev há 25 anos. Por isso Carlos Ghosn está há 18 anos na Renault e Jack Welch ficou mais de 20 anos como CEO da General Eletric. Como talentos apropriadamente incentivados tendem a se manter entre os high performers, os bons acabam sendo os que ficam e somente os "ruins" deixam as empresas verdadeiramente meritocráticas (vou ressalvar que isto nem sempre acontece - algumas vezes há outros motivos ideológicos ou exógenos que causam este churn).

Empresas verdadeiramente meritocráticas, portanto, deveriam premiar o tempo de casa, como a minha empresa começou a fazer. De fato, ao olhar as pessoas que continuaram conosco e que foram premiados no aniversário de trabalho, são somente os melhores e os que mais se destacaram em suas áreas. O fato de que um talento conseguiu longevidade por tanto tempo numa estrutura onde somente os melhores se destacam é motivo de orgulho, tanto para o profissional quanto para a empresa. O turnover dos ruins em empresas verdadeiramente meritocráticas é um resultado do sucesso desta política e não efeito colateral. Poucas empresas podem dar-se ao luxo de premiar tempo de casa, de celebrar o turnover. Estas são as empresas onde todos os verdadeiros talentos irão querer trabalhar.

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