OPINIÃO

Porque podemos ser tão diferentes quando nos expressamos em grupo?

07/07/2014 10:23 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02
WILLIAM VOLCOV/BRAZIL PHOTO PRESS/ESTADAO CONTEUDO

Quem nunca se impressionou com as próprias atitudes em defesa de uma ideia ou interesse de um grupo ao qual pertence certamente já se surpreendeu com atitudes ostensivas de pessoas das quais jamais poderíamos esperar uma atitude agressiva ou desmedida.

Quando estamos agindo em grupo é possível que soframos efeitos que nos movem e nos estimulam a atuar fora de nossas consciências cotidianas e responsáveis por filhos, contas a pagar, emprego...

Os processos pelos quais uma pessoa é influenciada pelo grupo passam pelo desejo de aceitação, pelo senso de pertencimento, pela necessidade de desempenhar um papel ou missão, pelo desejo em seguir o grupo ou mesmo por pressão de seus membros.

Para reflexão do efeito do grupo em um indivíduo precisamos compreender alguns pontos que elevam o poder da multidão sobre o indivíduo e a primeira e mais óbvia delas é a perda da identidade. Em um grupo, um indivíduo não é mais uma pessoa em sua plenitude, ela perde parte de sua identidade (faceless), para adequar-se ao grupo, e pode sentir menor responsabilidade por seus atos individuais.

Um segundo processo relevante é o de identificação, no qual o indivíduo encontra algumas características do grupo que o interessam com intensidade, fazendo com que essa pessoa passe a assumir atitudes a despeito de não crer com veemência em todas as posturas do grupo. A importância e a força da identificação pode ser vista em adolescentes que adotam roupas, expressões, gostos musicais e gestos de seus pares.

Um terceiro passo ou processo pode ser chamado de internalização. Essa etapa é particularmente importante porque pode ser decisiva em fazer um indivíduo mergulhar profundamente nas crenças do grupo, surgindo grandes barreiras à mudança após sua vivência, com atitudes e pensamentos tornando-se permanentes em traços da personalidade da pessoa. Apesar da imensa consequência decorrente desta etapa, sua concretização depende apenas de indivíduos já integrados ao grupo que já assumiram atitudes ou tomaram partido a seu favor e que finalmente foram expostos a fatos ou pessoas do grupo que são plausíveis. Assim, teorias logicamente bem estruturadas, consolidam os indivíduos no processo de internalização ou pertencimento em um caminho de difícil retorno.

O processo de internalização também pode ocorrer sob a ótica de uma teoria chamada dissonância cognitiva, segundo a qual indivíduos do grupo podem cometer atitudes violentas baseadas no código do grupo mentalizando um processo que as leva a entender que suas vítimas mereciam o que lhes ocorreu. Nesse momento, preconceitos ainda não firmados podem ser solidificados em uma etapa avançada e também de difícil retorno...

A quarta etapa ou o quarto processo, descrito como groupthink em 1972, é aquela na qual o grupo dispende uma grande energia para manter o consenso e repelir com feridade pensamentos críticos ou dissidentes, confundindo o pensamento individual e tornando imperativa decisões pouco coerentes com atitudes individuais fora de grupos.

Finalmente, o grande motor para a ação dos membros de um grupo seja individualmente ou em conjunto, é a existência de líderes carismáticos. São os líderes carismáticos que pensam pelo grupo. Grupos com ações articuladas não existem sem a presença dessas pessoas, que muitas vezes tem sua voz camuflada reverberada por uma cadeia de líderes menores, mas que atingem a massa de pessoas dispostas a agirem publicamente pelo grupo.

Assim, sempre que grupos ferozes ou não, pequenos ou grandes e mesmo compostos por minorias, organizadamente reivindicarem direitos, ações ou políticas de forma controversa ou violenta, devemos nos recordar desses processos, entender por que eles surgiram, devemos procurar resgatar os ainda dispostos a deixar de agir de modo tão dissonante a suas vidas fora do grupo e, finalmente, entender quem são seus líderes em potencial, por que eles também existem...

Acompanhe mais artigos do Brasil Post na nossa página no Facebook.


Para ver as atualizações mais rápido ainda, clique aqui.


MAIS COMPORTAMENTO NO BRASIL POST:

12 coisas que perdemos ao parar de ouvir CDs