OPINIÃO

O sentido de pertencimento e representatividade das pessoas transgênero na ficção televisiva brasileira

Mais uma vez uma telenovela terá contribuído para as políticas de gênero destinadas à mudança no âmbito social.

04/08/2017 16:49 -03 | Atualizado 04/08/2017 17:23 -03
Divulgação
O país que mais mata transgêneros no mundo acompanha diariamente o drama de Ivana.

*Escrito por Maria Immacolata Vassallo de Lopes, Lucas Martins Néia e Daniela Ortega.

Ao longo de sua história, a telenovela brasileira se caracterizou por incorporar temas em pauta na agenda social do País sob as regras do melodrama. Nessa dinâmica, o gênero melodramático se configurou como articulador do imaginário da nação.

Sua função pedagógica estimulou o desenvolvimento do que se convencionou chamar de merchandising social – expediente que opera como verdadeiro recurso comunicativo. A ficção televisiva se faz capaz, inclusive, de atuar como meio de transformação social.

Casos paradigmáticos ocorreram com as telenovelas Mulheres Apaixonadas (Globo, 2003) e Cheias de Charme (Globo, 2012), cujas discussões em torno dos direitos dos idosos e das domésticas, respectivamente, fomentaram o debate público e culminaram na aceleração da aprovação de leis que beneficiavam essas partes sociais.

Formato televisivo preponderante na América Latina, a telenovela adquiriu uma natureza própria no Brasil. Está integrada em uma indústria televisiva de grande capacidade produtiva e criativa, principalmente devido às produções da Globo. Estas continuam a tematizar a nação, tanto sua formação histórica – casos de Novo Mundo e Os Dias Eram Assim – quanto sua atualidade.

A Força do Querer, atual trama das nove, realiza uma verdadeira síntese do Brasil contemporâneo. Tradição e modernidade, binômio-motriz de nosso processo sócio-histórico, permeiam forma e conteúdo da atração. Folhetim de narrativa ágil, dominado por personagens femininas fortes, ao mesmo tempo em que alguns artifícios da trama carregam traços da moralidade melodramática com o contraponto entre ricos e pobres, entre os que incorrem em pequenos delitos morais e os que caem nos desvãos da criminalidade.

No que tange à temática social, a trama apresenta discussões ligadas à identidade de gênero.

A priori, percebemos aí mais uma contradição. Na contemporaneidade, a defesa das chamadas minorias culturais tem subsidiado grande parte da discussão em torno da impossibilidade da afirmação de uma cultura nacional homogênea. E as políticas de identidade se esforçam pela promoção das diferenças, ao contrário da "supressão das diferenças" atribuída a uma noção essencialista de cultura.

No caso de A Força do Querer, a questão das minorias culturais é apresentada justamente por uma narrativa catalisadora da nação, tanto tematicamente quanto em termos de recepção. A trama recuperou o fôlego do formato telenovela junto ao público: em torno de seu centésimo capítulo, já atingiu índices de audiência superiores a 40 pontos. Esta marca foi vista somente nos últimos capítulos de A Regra do Jogo, em março de 2016.

O país que mais mata transgêneros no mundo, de acordo com a Transgender Europe (TGEU), acompanha diariamente o drama de Ivana (Carol Duarte), garota confusa que, desde o início da trama, está em conflito com o próprio corpo e não entende o que a perturba.

Sua história é desenvolvida de forma sutil e gradual, envolvendo pouco a pouco o amplo espectro de telespectadores que compõe o público de uma novela das nove. E seguindo a máxima de que a reiteração de informações e situações essenciais à narrativa é fundamental à telenovela. Diversas foram as vezes em que Ivana, em frente ao espelho, questionava-se acerca do que via.

A Força do Querer destaca, ainda, a trajetória de Nonato (Silvero Pereira), travesti que se reconhece como Elis Miranda. Mas, para se sustentar, trabalha como motorista para um empresário conservador. Tanto nesse núcleo como na história de Ivana, os diálogos são construídos de forma a informar o telespectador não apenas sobre os personagens, mas a esclarecê-lo acerca de questões referentes a identidade de gênero e à luta da comunidade transgênera por seus direitos.

A novela também dá um passo à frente no âmbito do elenco: a atriz transexual Maria Clara Spinelli, que só havia representado personagens transgênero nas ficções televisivas das quais participou, interpreta a cisgênero Mira.

Acompanhamos há pouco o momento de esclarecimento de Ivana (e do público), no qual, por meio de uma série de sequências notavelmente pedagógicas acerca do que é ser transgênero, ela se reconheceu como homem.

Isso aconteceu após ter conhecido Tê, personagem interpretado por Tarso Brant – o transexual que inspirou Glória Perez a criar a história de um transgênero na novela. Agora, a trama caminha para a transformação de Ivana, e os próximos capítulos devem ampliar o debate sobre o preconceito que cerca as pessoas transgênero.

A história de Ivana terá servido para explorar o sentido de pertencimento trans e sua representatividade, atuando, no dizer de Horace Newcomb, como fórum cultural. Ou seja, promovendo o debate por intermédio de uma pluralidade de interpretações e de pontos de vista sobre a questão.

Desse modo – e mais uma vez –, uma telenovela terá contribuído para as políticas de gênero destinadas à mudança no âmbito social, envolvendo, em suas estratégias de interpretação, público, produtores, autores, diretores, atores e outros agentes do campo da ficção televisiva.

*Maria Immacolata Vassallo de Lopes é professora e coordenadora do Centro de Estudos de Telenovela da USP

*Lucas Martins Néia é roteirista e pesquisador do Centro de Estudos de Telenovela da USP

*Daniela Ortega é jornalista e pesquisadora do Centro de Estudos de Telenovela da USP

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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