OPINIÃO

A constituição do Brasil e a escassez de galãs negros nas telenovelas

Os atores negros eram reiteradamente relegados a personagens como o malandro ou o bandido, de trajetória plana, carecendo de papéis complexos e fomentando estereótipos.

24/08/2017 11:00 -03
Divulgação
Aílton Graça, Marcello Melo Jr. e Lázaro Ramos têm ocupado cada vez mais espaço na teledramaturgia, mas o protagonismo dos negros ainda é raro.

*Escrito por Maria Immacolata Vassallo de Lopes, Daniela Ortega e Mariana Lima

Nas discussões levantadas acerca o papel do negro nas telenovelas brasileiras, um dos pontos centrais corresponde ao protagonismo negro nessas produções. Ou, mais precisamente, à falta desse protagonismo. O que é ainda mais proeminente quando pensamos na figura do galã.

Conceitualmente, galãs são protagonistas masculinos, mas não apenas isso. É necessário que preencha alguns requisitos, como ser um personagem que se destaque pela beleza - seus atributos físicos - e ter um viés amoroso (podendo ser o da relação romântica ou um perfil conquistador).

O galã é, em geral, o mocinho, mas pode ser também o bandido ou vilão. São figuras que habitam o imaginário feminino há muitos séculos, como os heróis românticos da literatura, por exemplo. Porém, foi nos anos 1920 que o galã de ficção audiovisual surgiu pela primeira vez, ainda nos filmes mudos, personificado pelo ator ítalo-americano Rudolph Valentino.

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A partir do advento da telenovela no Brasil, na década de 1960, tivemos diversos tipos masculinos que desempenharam esse papel, representado por atores como Francisco Cuoco, Tarcísio Meira, Antônio Fagundes, Fábio Assunção, Reynaldo Gianecchini e Cauã Reymond, entre outros.

Todavia, numa sociedade de maioria negra (54% da população da população, segundo o IBGE), a pergunta que fica é: por que não há atores negros nessa lista? E não é simples dar essa resposta.

No Brasil, a telenovela é um produto cultural marcado pelo espelhamento de comportamentos correntes e pela modulação de imagens, tendo papel enfático no combate a preconceitos e na proposição de causas. Em suma, ocupa papel importante na construção do imaginário social, possibilitando o tratamento de diferentes assuntos que permeiam o contexto social do País.

Como idealização feminina do homem, o galã é uma figura central da teleficção, refletindo o tipo masculino comum de cada época, seja o rebelde, o playboy, o surfista, o herdeiro, o descamisado, o sensível ou o valentão protetor.

As telenovelas turcas mostram, na atualidade, como a escolha de um galã e a definição de suas características pode impactar uma sociedade. Ao chegarem a países árabes e alcançarem sucesso, desencadearam uma onda de crises matrimoniais, de acordo com a imprensa local, com mulheres demandando que seus maridos fossem mais românticos e respeitosos, tais como os protagonistas da TV.

A falta de galãs negros nos revela que a representação feita no Brasil ainda é baseada em um imaginário marcado por estereótipos. Isso se dá, em grande parte, por resquícios da colonização. Após a abolição, os negros não foram inseridos na sociedade brasileira de forma apropriada. Substituídos por imigrantes europeus no trabalho da lavoura, passaram a formar a base da pirâmide social brasileira. Surgiram as teorias de branqueamento da população e o reforço do ideal de beleza europeu, até hoje propagado.

Portanto, em vista de todo esse processo histórico-social, os atores negros eram reiteradamente relegados a personagens como o malandro ou o bandido, de trajetória plana, carecendo de papéis complexos e fomentando estereótipos.

Nas primeiras décadas da novela brasileira, nossa hipótese é que a beleza não era a principal marca dos personagens negros, enquanto o talento de seus atores seria o fator predominante para sua escalação. Ainda assim, o preconceito latente causava escassez da presença de negros nas tramas.

Milton Gonçalves, Antonio Pitanga, Tony Tornado, Nelson Xavier, Grande Otelo e Gésio Amadeu são alguns dos atores negros que venceram a barreira e deram grandes interpretações a muitos escravos, pais de santo, malandros e indigentes. Entre as atrizes, destacavam-se Ruth de Souza, Neuza Borges, Cléa Simões, Yara Marques, entre outras.

Corroborando essa hipótese, o fato é que o primeiro personagem negro a ocupar a posição central de uma narrativa apareceu bem cedo, em 1969 (apenas seis anos após a exibição da primeira telenovela diária), em "A Cabana do Pai Tomás" (Globo). Entretanto, foi interpretado por Sérgio Cardoso, ator branco que pintava o rosto para fazer o papel, o chamado blackface.

A técnica era popular no teatro americano no século 19, quando os negros não podiam participar das peças. Assim, contribuiu para a proliferação de estereótipos e se alastrou para outros países, caindo em desuso a partir dos anos 1960 por ser uma forma expressa de racismo.

Foi apenas nos anos 1980, quando o País vivia o crescimento econômico e a mobilidade social, que apareceram personagens negros afastados daquele quadro, em condições de classe média ou em busca de ascensão. Mas ainda sem muita relevância na evolução da narrativa.

Norton Nascimento foi o primeiro ator negro a representar um personagem masculino cuja beleza física fosse evidenciada (o Wotan de Fera Ferida, em 1993). Porém, tratava-se de papel secundário da trama e ainda um empregado.

Verificamos, desde os anos 1990, que a presença dos negros nas telenovelas vem se modificando. As mulheres merecem ênfase nessa ascensão. Vivendo a primeira protagonista negra da televisão brasileira, em Xica da Silva (Rede Manchete, 1996), Taís Araújo também foi destaque ao estrelar A Cor do Pecado (Globo, 2004) e Viver a Vida (Globo, 2009). Com estas produções, se estabeleceu como a primeira atriz negra a fazer o papel principal das novelas das 19h e das 21h, respectivamente.

Também ressaltamos o protagonismo de Camila Pitanga em Cama de Gato (Globo, 2009), Lado a Lado (Globo, 2012), Babilônia (2015) e Velho Chico (2016). A partir dos anos 2000, houve ainda a redução da hipersexualização da mulher negra, uma das principais características atribuídas a essas personagens no histórico da telenovela do País, a par de seu constante papel de subalternidade.

Do lado dos atores negros, o grande destaque, sem dúvida, é Lázaro Ramos, por implantar o que chamamos de processo de permanência e visibilidade do negro na teleficção, nos anos 2000. Permanência porque esse processo não foi mais descontinuado, e visibilização porque outros galãs negros têm se incorporado e, portanto, fortalecido o processo em questão.

Chamaram a atenção dois papéis importantes. Em Cobras e Lagartos (Globo, 2006), na pele de Foguinho, ocupou o lugar de anti-herói, antagonista do personagem de Daniel de Oliveira, o galã da trama. E em Insensato Coração (Globo, 2011) deu vida a André Gurgel, personagem do núcleo de protagonistas, apresentado como um designer importante, "sucesso na profissão e na sedução". Tal descrição se encaixa perfeitamente na ideia de galã, porém, o personagem enfrentou resistência do público e foi alvo de críticas e comentários preconceituosos em redes sociais. Ao fazer isso, a novela promoveu discussões, enfatizando seu papel em propor novas representações e de espelhar a realidade, revelando suas modificações sociais.

Na atual seara, diversos jovens atores despontam com talento e beleza para ocupar o papel de galã, como Marcello Melo Jr., Rafael Zulu e Ícaro Silva. Observamos, ainda, narrativas que trazem discussões acerca do racismo e da denúncia ao preconceito, tendo personagens negros em posições econômicas e sociais importantes, como médicos, advogados, políticos e empresários. A mudança tem sido lenta e gradual, porém cada vez mais visível.

*Maria Immacolata Vassallo de Lopes é professora e coordenadora do Centro de Estudos de Telenovela da USP;

*Daniela Ortega é jornalista e pesquisadora do Centro de Estudos de Telenovela da USP;

*Mariana Lima é jornalista e pesquisadora do Centro de Estudos de Telenovela da USP.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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