OPINIÃO

Quando o discurso da meritocracia ignora a desigualdade

14/04/2016 11:49 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

O esforço é algo extremamente importante no tipo de sociedade em que vivemos, e a meritocracia tem se tornado um conceito defendido por muitos. Mas precisamos questionar a ideia de que tudo o que as pessoas conseguem ou têm decorre de tal esforço. É comum veículos de imprensa divulgarem casos de pessoas que conseguiram "subir na vida" devido a um grande empenho pessoal. Esses casos podem nos levar a pensar que, se alguém não consegue um bom emprego ou não passa no vestibular de uma universidade de prestígio, é porque não se esforçou o suficiente. Mas será que isso é verdade?

Até a Idade Média, o nascimento determinava o lugar social de cada pessoa. Um filho de nobre tinha posições sociais (como cargos na estrutura do Estado ou títulos de nobreza) garantidas pelo simples fato de ter nascido em uma família nobre. O filho de um trabalhador do campo jamais conseguiria tais títulos ou cargos. A ascensão social era algo que nem estava no imaginário das pessoas.

meritocracia


Com o fim desse sistema social, a ascensão da burguesia e o surgimento da democracia moderna, garantiu-se legalmente o direito de qualquer um, independente da posição social de seus familiares, poder obter um status elevado. Uma filha de um trabalhador rural pode, por direito, chegar a ser Presidente da República, juíza ou professora universitária. Desta noção consolidou-se a crença de que, para ascender socialmente, basta que nos esforcemos.

Há, porém, fortes evidências científicas, detectadas por meio de pesquisas, como as do sociólogo francês Pierre Bourdieu, que permitem questionar esse pensamento tão arraigado entre nós. No tipo de sociedade em que vivemos, qualquer pessoa pode, teoricamente, alcançar qualquer posição social. Mas, na prática, o peso da origem social ainda é muito mais determinante do que gostaríamos de acreditar.

Para começar, nas sociedades democráticas não há posições vantajosas em número suficiente para todos. Se a totalidade dos indivíduos recorressem à mesma quantidade de esforço pessoal, não haveria como cumprir a máxima do "se esforce e então conseguirá o que deseja". Portanto, esse pensamento expressa uma profecia que jamais poderia ser cumprida.

Crianças de famílias mais pobres ou de posições sociais menos vantajosas têm menor rendimento nos estudos, reprovam mais e possuem índices de abandono escolar maiores. Isso independe do quanto se esforcem. Devido aos avanços das pesquisas no campo social, já sabemos que até mesmo as expectativas dos jovens com relação às suas profissões futuras são influenciadas pelo nível socioeconômico da família. Ter ou não acesso desde cedo à educação infantil, por exemplo, exerce grande impacto na trajetória escolar das crianças.

O peso das origens do nascimento sobre as posições sociais que os indivíduos alcançam é muito forte. Isso é verdadeiro para todos os países ditos democráticos, e ainda mais determinante naqueles em que o Estado age pouco para coibir o acúmulo de privilégios. No Brasil, por exemplo, se você é de família rica terá mais chances de frequentar a educação infantil, tenderá a ser alfabetizado sem grandes dificuldades, será menos reprovado durante a educação básica, terá uma escola com aulas todos os dias e que acompanhe o ensino e a aprendizagem de cada estudante. Mas o mesmo não ocorre com aqueles alunos que estão em escolas de regiões periféricas.

Sabe-se também que as redes de contatos, o conhecimento acumulado ao longo da vida e a capacidade de falar outras línguas são importantes para se galgar uma posição vantajosa na vida adulta. Mesmo que o filho de um industrial não tenha estudado tanto quanto o filho de uma faxineira, por exemplo, sem dúvida ele terá mais portas abertas para oportunidades interessantes.

A repercussão disso na escola pode ser terrível, e perpetuar as desigualdades. Diante da injustiça de ser tratado como incapaz, alguns especialistas como François Dubet afirmam que, com o tempo, alunos que "fracassam" tendem a tornar-se inertes ao ambiente escolar. Eles podem abandonar mentalmente os estudos, ou tornar-se indisciplinados ou mesmo violentos.

Para manter o senso comum de que o esforço é o que justifica o alcance de posições vantajosas, teríamos que negar todo um corpo de estudos acadêmicos que evidenciam o peso das origens sobre as escolhas e as possibilidades de um indivíduo.

Ao invés de recusar estas evidências, pensadores têm se dedicado a propor estratégias para uma escola mais justa, como a adoção de outros critérios que não o meritocrático na educação básica. Uma dessas propostas, que tem sido muito discutida recentemente, é o princípio de que todas as crianças devem aprender o que o Estado define como necessário nessa etapa da escolaridade. A educação básica seria, desse modo, um momento de acumular conhecimentos, de dotar a todos das mesmas condições de base, de nivelar o que foi muito diferente desde o nascimento, deixando o critério meritocrático para ser utilizado apenas posteriormente, a partir do ensino superior.

É evidente que não podemos abandonar completamente o mérito, pois isso nos levaria de volta a uma sociedade com a determinação total do nascimento, da posição social original dos indivíduos. Devemos garantir que os adultos sejam livres para fazer uso de seus esforços para transitar socialmente, abrindo possibilidades para a mobilidade social de todo e qualquer um. Mas não podemos fazer uso de um discurso de meritocracia que justifica e reproduz as desigualdades, muitas vezes diminuindo aqueles com posições sociais menos valorizadas, fazendo vista grossa às desigualdades estruturais do pais.

É preciso que ampliemos a capacidade de nossas instituições gerarem igualdade de oportunidades. Isso é extremamente necessário na Educação Básica, um momento da vida em que a sociedade determina que todos temos os mesmos direitos educacionais. O período da escolaridade obrigatória não combina com a ideia de que os resultados de aprendizagem e a trajetória escolar devam depender do esforço individual. Deve, sim, depender do esforço institucional, do Estado. Quando todos os jovens, ao deixarem a Educação Básica, tiverem galgado um patamar considerado adequado, aí então será mais justo falar em mérito para tratar do acesso às suas futuras oportunidades.

Por Vanda Mendes Ribeiro - Doutora em Educação pela Feusp, Pesquisadora do Cenpec e Professora da Pós-Graduação em Educação da Unicid

LEIA MAIS:

- Meritocracia? #meuprimeiroemprego ironiza salário de filho de Eduardo Campos

- Duas noções de Justiça para entender a tirinha sobre meritocracia

Também no HuffPost Brasil:

A desigualdade de gênero no mercado de trabalho