OPINIÃO

O abandono dos anos finais do Ensino Fundamental

Mudanças no Ensino Médio não enfrentam os problemas da etapa anterior.

27/06/2017 16:39 -03 | Atualizado 27/06/2017 16:39 -03
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O abandono e o desinteresse nos últimos anos do Ensino Fundamental são problemas urgentes para a educação do País.

Sem amplo debate com a sociedade, a reforma do Ensino Médio foi aprovada e agora é lei. Sua implementação, no entanto, tem sido alvo de uma série de críticas e suscitado preocupações entre educadores, sindicatos e pesquisadores. Pela forma aligeirada como a mudança foi realizada, pela ausência de condições para que a nova proposta se concretize de fato nas diferentes redes de ensino de todo o país e pelos riscos de aumentar as desigualdades educacionais já existentes.

Outra questão também merece destaque, mas por sua ausência: falta à reforma uma visão mais abrangente sobre nosso sistema educacional, em especial para um sério gargalo que precede o Ensino Médio: os anos finais do Ensino Fundamental.

Essa etapa compreende do 6º ao 9º anos e é frequentada por 12 milhões de alunos – dos quais 10 milhões em escolas públicas. Ela enfrenta os mesmos graves problemas do Ensino Médio, como baixo aprendizado, altos índices de reprovação, distorção idade-série, abandono e o crescente desinteresse dos adolescentes pela escola.

Esses índices revelam desigualdades produzidas pelos sistemas escolares e mostram alunos excluídos do direito à educação, ainda que matriculados em escolas. Muitas medidas para enfrentar a situação já foram anunciadas, mas sofrem com a descontinuidade e têm se revelado muito tímidas frente à magnitude do problema.

O currículo escolar e os processos pedagógicos, que exigem adequação de conteúdos e metodologias; a limitação das avaliações externas, que analisam apenas a aprendizagem em língua portuguesa e matemática; além do pouco uso de tecnologias digitais nas escolas são alguns dos fatores que contribuem para ese panorama.

Menos lembrada, a estrutura e a organização dos anos finais do Ensino Fundamental (a divisão de disciplinas, duração de horários das aulas e intervalos, composição de turmas e ocupação das salas de aula) também são determinantes dos problemas apontados.

Mesmo sendo vistas como ultrapassadas e rígidas, elas têm se perpetuado, impondo uma cultura escolar que desconsidera idades, experiências de vida e ritmos de aprendizagem dos alunos e os obriga a seguir uma lógica distante de suas próprias formas de pensar. A difícil construção de vínculos relacionais entre professores e adolescentes, bem como a ausência de protagonismo efetivo dos alunos nas decisões que afetam a vida escolar também acirram os problemas apontados.

Cenpec
Diante desse quadro, como reverter a situação de abandono em que se encontram os anos finais do Ensino Fundamental? É preciso compreendê-la em toda sua complexidade, ter vontade, ousadia e recursos financeiros e humanos. É preciso formular políticas públicas que considerem a diversidade dos problemas e atendam a cada aluno.

Para isso, não existe solução única: a diversidade e a complexidade desses desafios impõem adotar soluções diversas, que considerem fatores como regionalidade, raça, gênero, vulnerabilidades econômica e social.

Iniciativas inspiradoras

Mesmo em um cenário tão desfavorável, algumas experiências inspiradoras merecem a atenção de formuladores e executores de políticas públicas. Uma delas é o projeto Mais Educação São Paulo, que organizou o Ensino Fundamental da capital paulista em três ciclos: alfabetização (1º, 2º e 3º anos); interdisciplinar (4º, 5º e 6º anos); e autoral (7º, 8º e 9º anos).

A ideia é que, no ciclo interdisciplinar, ocorra a consolidação da alfabetização; a vivência de processos individuais e coletivos pela elaboração de projetos sobre a cultura local, com uso de tecnologias; e a docência compartilhada no 6º ano. Nesta, um professor polivalente auxilia os professores especialistas em português e matemática e também orienta os alunos.

No ciclo autoral, projetos curriculares de intervenção social são executados pelo trabalho colaborativo: aluno e professor orientador constroem juntos novos conhecimentos.

Em Campo Grande (MS), jovens de 15 a 17 anos afastados da escola, que não tiveram acesso ao sistema formal de ensino ou que estão em distorção de idade têm a chance de escolarização no Ensino Fundamental. Além disso, são iniciados ao mundo do trabalho e à qualificação social e cidadã. Trata-se do Projeto Traje – Travessia do Jovem Estudante, implantado desde 2010 pela Secretaria Municipal de Educação.

O projeto Aluno Presente, uma parceria entre Cidade Escola Aprendiz, Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro e um organismo internacional, faz busca ativa de crianças e adolescentes que estão fora da escola. Já o programa Classes de Aceleração da Aprendizagem, desenvolvido pelo Cenpec em diversos municípios, apresenta proposta pedagógica que promove a autoestima e o protagonismo do estudante, apostando no fato de que todo aluno pode aprender.

Faz-se necessário também que gestores e educadores estejam conscientes de que postergar tomadas de decisão para sobre os anos finais do Ensino Fundamental comprometerá os resultados de qualquer política que se proponha para as etapas de escolaridade que o sucedem.

Por Maria Amábile Mansutti – Coordenadora técnica do Cenpec, é formada em pedagogia pela USP, com especialização em didática da matemática pela PUC-SP, tem 50 anos de carreira. Foi professora, diretora escolar, técnica no Ministério da Educação, formadora de docentes, formuladora de currículos, autora de livros didáticos de Matemática para educação infantil, EJA (Educação de Jovens e Adultos) e Ensino Fundamental.

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