OPINIÃO

A educação no Brasil que deixa mais de 1 milhão de crianças para trás

Maioria dos alunos do ensino básico leem de forma truncada e apenas frases simples, não foram alfabetizados adequadamente e não conseguem responder a itens de provas.

14/11/2017 12:22 -02 | Atualizado 14/11/2017 12:22 -02
Antônio Cruz / Agência Brasil
Mais de um milhão de alunos do ensino fundamental tiveram desempenho insuficiente em leitura e matemática em 2016.

Por Mônica Gardelli Franco*

Saber ler e escrever com fluência é um direito de todos. Dominar a leitura e a escrita é um passo importante, não apenas para acessar e construir novos conhecimentos nas mais diferentes áreas, como também para potencializar o exercício da cidadania. Contudo, neste 14 de novembro, Dia Nacional da Alfabetização, temos pouco a celebrar: o Brasil tem fracassado na tarefa de alfabetizar os estudantes ao longo da História.

Exemplo disso são os resultados da última Avaliação Nacional de Alfabetização. Em 2016, foram avaliados mais de dois milhões de alunos do 3º ano do ensino fundamental de praticamente todas as escolas públicas do País. Os dados demonstram que mais de um milhão tiveram desempenho insuficiente em leitura e matemática. Não é possível aceitar que estados como o Amapá tenham oito em cada dez estudantes do 3º ano com nível insuficiente em leitura.

Como a prova foi aplicada no final de 2016, provavelmente essas crianças estão concluindo agora o 4º ano do ensino fundamental. Esse dado nos desafia a tomar providências imediatas. Não podemos deixar que, no futuro, elas venham a fazer parte das estatísticas de adultos que, apesar de terem concluído o Ensino Médio, são considerados analfabetos funcionais.

Segundo o último Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), entre as pessoas que cursaram algum ano ou concluíram o Ensino Médio ,"apenas 9% não demonstram restrições para compreender e interpretar textos em situações usuais e resolvem problemas envolvendo múltiplas etapas, operações e informações".

Frente a essa grave realidade, o Brasil tem dois grandes desafios que precisam ser enfrentados simultaneamente. O primeiro deles é garantir que as crianças que a cada ano ingressam na escola tenham um ensino de qualidade e, por consequência, uma trajetória escolar exitosa. Ao mesmo tempo, não podemos esquecer os estudantes não alfabetizados que, felizmente, seguem matriculados nos ensinos fundamental e médio.

A vida não espera. Nossas crianças estão crescendo e quem vai pagar o preço é a sociedade brasileira, que terá um prejuízo incomensurável. Não atacar esses dois obstáculos é perpetuar uma realidade na qual uma parcela significativa da população brasileira seguirá enfrentando inúmeras dificuldades cotidianas, seja na inserção no mercado de trabalho, seja nas mais diversas esferas do mundo social.

Infelizmente, é preciso ter clareza de que os resultados da Avaliação Nacional de Alfabetização não são novidade. Desde as primeiras edições do Sistema de Avaliação da Educação Básica, no início dos anos 1990, as avaliações já demonstravam que uma parcela significativa dos estudantes chegava ao final da antiga 4º série do ensino fundamental com baixa proficiência em leitura.

Em 2001, por exemplo, 59% dos alunos estavam nos níveis "muito crítico" ou "crítico", menos de 5% nos estágios "adequado" e "avançado", e 36,2% no "intermediário". Isso significa que a maioria dos alunos não eram leitores competentes; liam de forma truncada e apenas frases simples ou não desenvolveram habilidades de leitura; não foram alfabetizados adequadamente; e não conseguiam responder aos itens da prova.

Mas por que, então, não avançamos? Como garantir que todas as crianças que ainda não estão alfabetizadas sejam leitoras e escritoras? Quais medidas corretivas e preventivas podem ser tomadas para superar esse cenário e, principalmente, para que ele não volte a se repetir?

Nos últimos 20 anos, muitos programas e ações foram criados por governos com o propósito de assegurar que as crianças sejam efetivamente alfabetizadas nos primeiros anos do ensino fundamental.

No âmbito federal, podemos citar alguns deles como o Programa de Formação de Professores Alfabetizadores, Pró-Letramento, Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa, e agora o Mais Alfabetização, anunciado pelo Ministério da Educação no final de outubro.

Não é possível alcançar esses objetivos sem políticas de Estado sólidas e contínuas, que não sejam realizadas em caráter suplementar e efetivamente cheguem a todas as escolas do País, e não apenas em municípios e estados que têm capacidade técnica ou recursos para realizar essas ações. É preciso ainda assegurar condições materiais e físicas, além de formação continuada de qualidade para professores, coordenadores pedagógicos e formadores das redes.

É verdade que também tivemos avanços. Temos uma vasta literatura e muitos estudos que permitem compreender melhor como formar leitores e escritores proficientes. Todavia, há uma lacuna em como traduzir esse conhecimento para a sala de aula, em práticas pedagógicas intencionais e eficazes que respondam ao desafio da consolidação e desenvolvimento do processo de alfabetização. Sem isso, dificilmente conseguiremos garantir que todos os alunos possam ler, compreender e produzir textos com competência, de forma autônoma.

Precisamos apoiar os educadores, construir uma relação de confiança que possibilite que as escolas sejam efetivamente centros de pesquisas, com investigação, revisão e construção de práticas pedagógicas e de metodologias que possibilitem aos alunos avançarem em seus conhecimentos.

*Mônica Gardelli Franco é superintendente do Cenpec.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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