OPINIÃO

É a ponta do iceberg?

05/02/2014 11:11 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02
ASSOCIATED PRESS
Paolo Guerrero of Brazil's Corinthians celebrates after scoring against Brazil's Sao Paulo FC during a Recopa Sudamericana first leg final soccer match in Sao Paulo, Brazil, Wednesday, July 3, 2013. (AP Photo/Andre Penner)

Passamos a última terça-feira acompanhando o desenrolar dos fatos que seguiram a invasão estúpida do CT do Corinthians por parte de torcedores do clube e o desfecho foi pontual: os jogadores, em conjunto com o sindicato dos atletas, confirmaram uma paralisação na rodada do fim de semana do Campeonato Paulista.

Não há dúvidas de que os atletas têm em mãos uma oportunidade única, se insistirem na ideia da greve até o domingo. É a chance de fazer valer se não todas, algumas das reivindicações do Bom Senso F.C. -- que mais tem falado do que, de fato, colocado as ideias em prática. Mas, muito além do que deve ser atendido para tornar o ambiente minimamente saudável para os jogadores fica a questão: que medidas vão ser tomadas para punir aqueles que iniciaram toda essa confusão? Espero estar errado, mas respondo agora mesmo: medida alguma. Como não foi feito em outras situações, quando o problema era dentro de um estádio e não no centro de treinamento do clube, um local privado e que deve ser tratado como tal (a ação dos torcedores no CT do Corinthians deve ser tratada pela justiça criminal, não pela desportiva e só).

O perverso é saber que em muitos casos há uma relação (quase íntima) de torcedores violentos com os próprios clubes. E que muitos dos torcedores violentos estão dentro das torcidas organizadas. E que estas são a ponte entre o clube, que as financia, e a própria violência. É um lado muito triste do futebol. Especialmente quando dirigentes "fecham os olhos" e tiram os clubes da jogada, colocando a responsabilidade completa da questão da segurança no estado, como fez o presidente Mario Gobbi. Mas, nessa discussão, as organizadas são apenas a ponta do iceberg. É preciso reeducação.

"O Estatuto do Torcedor diz que a responsabilidade por manter a segurança dos torcedores fica na conta de três personagens: a entidade organizadora do campeonato, o clube mandante da partida e o poder público. No caso das partidas em que for mandante, o Corinthians pode ser cobrado, sim", explica Gustavo Lopes Pires, do Instituto Brasileiro de Direito Desportivo. E arremata: "A questão da violência do futebol é muito mais complexa do que nós queremos parecer que seja. Excluir a torcida organizada do estádio não vai eliminar a violência, bem como eliminar o álcool não o fez. As organizadas são um dos fatores que causam violência, não o único. E as organizadas que não são violentas são minoria. Uma pena". De fato.

Resta saber se essa greve deflagrada pelos atletas do Timão é também a ponta de um longo iceberg de discussões -- ou se isso vai degelar até a CBF mexer os palitos.