OPINIÃO

Vou furar as orelhas do meu filho ainda bebê

25/08/2015 18:07 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:25 -02

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Tenho duas filhas, nenhuma das duas tem a orelha furada. Isso é quase uma mentira, já que chegamos a colocar brincos na mais velha quando tinha um ano de idade. O furo não durou uma semana, pois ela caiu e bateu a cabeça, precisou fazer uma tomografia e por conta disso removeram os brincos. Resultado: os furos fecharam e nunca mais os reabrimos.

Desperdício foi ver as lindas e mínimas joias que ela ganhou ao nascer, alimentando as expectativas dos familiares em verem nossa pequena filha ostentando pedrinhas fofas nos lóbulos, ornando com seu sorriso e olhar encantadores. Realmente, quando fizemos o furo era difícil não se encantar ainda mais com ela. Ela ficou linda.

Mas como acabamos não refazendo o furo, decidimos deixar para que ela decidisse quando e se quisesse usar brincos. Após o nascimento da segunda filha, estávamos decididos em não fazer, já que a primeira não tinha. Mas, claro, refletimos sobre o assunto. E o que era uma questão circunstancial se tornou quase ativismo.

Aparentemente, para a sociedade de hoje, toda menina precisa ter orelha furada. Se não tem, ela automaticamente é um menino. Perdi a conta de quantas vezes nos irritamos com a confusão dos outros ao chamá-las de "menininho" quando vestiam roupas que não eram rosas. Paralelo a isso, percebemos o quanto éramos forçados a trazer essa cor para dentro de casa, por conta dessa vibe de segmentação por gênero da indústria de brinquedos.

Nessa época, decidimos embaralhar a cabeça da mais velha um pouquinho: insistimos no discurso de que a cor preferida da mamãe era a azul, e a do papai era a rosa, para ver se conseguíamos evitar que ela caísse na armadilha das "coisas de menino"e "coisas de menina".

O resultado é que ela gosta de brincar de carrinho, curte futebol, entende que garotos também podem gostar de rosa, mas ama a tal cor também. Sem crise. Ela pede para se vestir de princesa, mas também pede pra se vestir de carateca. Sabíamos que nossos estímulos não seriam os únicos e que um pouco dessa fissura da sociedade pelo gênero das cores acabaria refletindo nela.

No fim, se tornou até divertido ver essa confusão com o gênero, e nos abrimos muito mais para vestir as duas com roupas azuis, verdes, amarelas. Se os outros se confundiam, azar o deles. Ninguém é mais ou menos homem ou mulher por alardear isso por aí, não é mesmo?

Já tentaram me convencer que provavelmente minhas filhas não irão lembrar dessas situações todas de "confusão de gênero"e que estou apenas perdendo tempo. Pra mim, ainda que elas não lembrem, é algo que fará parte da memória sensorial dela, da construção de suas emoções e a maneira com que elas reagem ao mundo. E se é para isso ter algum impacto na inteligência emocional delas - lembrando que nós, como pais, não podemos evitar todas as situações ruins a que ela será obrigada a passar, ainda que seja nosso desejo - que elas no mínimo tenham guardado em seus HDs da vida a lembrança longínqua de que embora exista um monte de gente cagando regra ou invadindo seu espaço, elas podem e devem sempre se orgulhar de quem são e batalhar para se impor ao mundo do jeito que acharem melhor.

Eu mesmo guardo poucas memórias da primeira infância. Uma das mais vívidas é a do quarto na casa da minha mãe, com uma parede inteira forrada de armários embutidos. Na porta mais à esquerda, próxima à janela, eu guardava alguns brinquedos e pertences. Entre carrinhos, bonequinhos e postinhos de gasolina destacavam-se dois itens aparentemente fora de lugar: uma boneca de pano e um batom. Eu tinha três anos de idade.

A boneca de pano, dizem meus pais, é que num período da minha gestação acreditou-se que eu seria menina. Assim, ganhei a Lua. No fim, eu viria a ser menino, mas ela permaneceu ao meu lado por anos. Aos oito, por exemplo, eu a escondia no armário da minha mãe quando recebia algum amigo da escola para brincar. Restavam os Cavaleiros do Zodíaco, o Batman, os Comandos em Ação para enriquecer nossas brincadeiras. Mas a minha boneca eu não mostrava pra ninguém.

Foi com a Lua meu primeiro beijo, em uma cabana de almofadas do sofá na sala. E depois do primeiro, vieram muitos outros. Eu dormia abraçado com ela e ela participava de todas as minhas brincadeiras. Até o dia que perdi o interesse e a doei, passei pra frente.

Já o batom era vermelho, fatal, daqueles bem sensuais. Fiquei com ele até os cinco ou seis anos de idade, mas minha memória é de quando o ganhei, durante a campanha presidencial de 1989. Em seu invólucro de plástico branco estava escrito "Lula Lá". Ele resistiu por muito tempo e cansei de pintar minha boca com ele. Eu também adorava me vestir com as roupas da minha mãe. Na casa da minha avó era ainda mais legal, pois ela tinha vários brincos de pressão que eu adorava experimentar.

Se eu tivesse furos na orelha desde pequeno, muito provavelmente teria me divertido ainda mais com a coleção de mamãe. Talvez eu fosse confundido com uma menina na rua. Na verdade, aliás, aos dez anos eu furei minha orelha, mas já tinha um corpo mais masculino, e foi só o lóbulo esquerdo - estava na moda e tal - mas isso não poupou alguns tiozões de me chamarem de bicha. E daí?

A verdade é que gênero é supervalorizado. Minhas filhas estão vivendo uma fase de experimentação. Sabemos que, na maioria dos casos, o indivíduo acaba assumindo em vida o gênero associado ao sexo do nascimento. Mas há tantas verdades por aí que me parece mesquinho forçar qualquer coisa.

Me parece mais sadio deixar que experimentem, como eu experimentei, sem pressa, sem pressão. E mesmo que elas sigam a maioria, teremos a plena certeza de que elas foram criadas para aceitar o que costuma-se achar diferente, estranho, diverso. Não quero criar filhas pra virarem homem, mulher ou assexuada, que seja. Quero criar filhas que respeitem as opções, orientações e decisões de quem as rodeiam.

E digo mais: se um dia eu vier a ter um filho menino, pode ser que eu fure suas orelhas ainda pequeno. Ora, qual é o problema? A decisão de furar é meramente estética e, sendo menina ou menina, os bebês serão relegados a uma dor desnecessária em nome disso. Está quase no mesmo patamar de batizar as crianças, de vesti-las de determinada maneira, de circuncidar ou mesmo de dar ou não palmadas: são decisões unilaterais baseadas em nosso estilo de vida e crenças.

No mínimo, talvez ele se divirta ainda mais do que eu com o guarda-roupa da mãe. Ainda mais porque minha esposa tem brincos fabulosos guardados.

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