OPINIÃO

Querida, por favor coloque meu marido no chão

31/07/2015 16:22 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

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Confesso, estou meio acanhado de contar, mas lá vai. Semana passada, eu e minha esposa visitamos um casal de amigos dela que eu não via faz tempo. Logo nos cumprimentos, fui surpreendido quando a jovem moça me pegou no colo sem o menor esforço.

- Poxa vida, você não perdeu a prática mesmo depois de tantos anos - disse o marido dela, visivelmente admirado com a habilidade da mulher em levantar um rapaz barbado com mais de cem quilos com tanta facilidade.

Minha mulher, claro, ficou constrangida. Não sabia muito bem como lidar, ou o que fazer naquela situação. Pensou em me tirar à força dos braços da maluca, dar meia volta e nunca mais retornar àquela casa. Mas aí como ficaria a amizade de tantos anos? Pedir gentilmente que por favor, largasse seu marido seria rude demais?

- Ele não gosta muito que peguem no colo - disse ela, com sorriso amarelo, buscando cordialmente me defender.

- Balela, todo mundo gosta do meu colinho!

Contrariado e já sem esperanças, só me restou chorar. Abri o berreiro ali mesmo, sem pudor. Quis fazer valer minha vontade. Solucei, me debati, fiz bico. Babei um pouco no cardigan que vestia.

- Ih, tadinho, ele deve estar com vontade de fazer pum - concluiu a amiga.

- Não é, querida, é que ele quer ficar no chão, acredito. - Tentou minha mulher, novamente.

- Que nada, sou muito boa nisso, já falei. Faz tempo que ele comeu?

- Não muito, você sabe que ele é bom de garfo, fez um lanchinho antes de virmos pra cá.

- Ah, mas ele arrotou?

- Olha, ele costuma ter muitos gases mesmo, mas não me lembro de ter arrotado.

- Eu sabia, não se preocupe. Já vai passar.

E ela me virou de frente pra ela, apoiou meu queixo em seu ombro e desferiu alguns tapinhas, com a mão em concha, contra minhas costas. E não é que alguns segundos depois senti uma bolha subir pelo esôfago e amplificar na boca em forma de um estrondoso arroto? Todos aplaudiram, minha mulher inclusive.

- Agora é minha vez, também quero tentar - adiantou-se o marido, e eu fui transferido de colo sem que sequer me perguntassem, justo no momento em que estava começando a gostar dali. Só me restou chorar de novo, em protesto.

- Olha aí, amor, você não tem jeito mesmo. Segura a cabeça dele!

- Me deixa que eu sei o que estou fazendo - e começou a me embalar. Reclamei por mais alguns minutos, mas acabei me acostumando. Muito bem preso naqueles braços fortes e musculosos, a cabeça bem amparada, foi me dando um soninho. Que vergonha, adormeci ali mesmo, acho que até ronquei um pouco.

Acordei deitado no sofá, ouvindo o tilintar dos talheres e muito instigado pelo cheiro de pizza. Os três davam boas risadas na antessala. Não que eu não estivesse confortável ali. Me enrolaram bem gostoso em um cobertor de barquinhos, tiraram as almofadas do encosto do sofá e colocaram no chão para me amparar caso caísse. Olhei para o lado e encarei o ursinho de pelúcia que deixaram só pra mim. Mas a verdade é que não gostei de estar sozinho ali, perdendo toda a festa. Dei um gemidinho de leve para ver se percebiam minha ausência. No mesmo instante eles interromperam o papo, minha esposa chegou rápido, limpando a boca em um guardanapo de pano.

- Acordou, lindo? Quer pizza?

- Quero! - respondi, feliz porque finalmente pude opinar em alguma coisa naquela noite.

- Ô meu caro, acordou? Soninho bom, hein? Achei que ia ficar até amanhã. - era o marido.

- Deixa ele, amor. - interrompeu a esposa. - Mas a soneca foi boa, mesmo. Quer tomar um vinho também?

- Quero! - respondi de novo, ainda mais feliz, balançando as perninhas.

- Vou servir e sua mulher vai trazer.

Momentos depois pude sorrir novamente com a chegada de minha amada, trazendo pizza cortada em quadradinhos no pratinho fundo e uma mamadeira cheia de cabernet sauvignon só pra mim.

Ficaram todos ali na sala, me dando atenção. Eu estava bem desperto, mas não entendia porque conversavam comigo como se eu fosse um imbecil, fazendo estalos com a boca e caretas ridículas. Busquei mostrar que estava escandalizado com o tratamento e respondi na mesma moeda, meio sarcasticozão. Mostrei a língua, falei sílabas desconexas. Mas ao invés de perceberem o absurdo da situação, eles riram ainda mais, me chamaram de fofo, apertaram minhas bochechas, postaram foto e videozinho no Instagram.

Eu não ia falar, mas também deram mordidinhas nos meus pés e fizeram pum com a boca na minha barriguinha peluda. Não vou mentir, talvez eu até estivesse me divertindo um pouco, mas realmente, no âmago, eu não estava totalmente de acordo com tudo aquilo, sabe?

Foi aí que veio aquele desconforto novamente. Uma pressão seguida de dor que eu não sabia explicar. Só pude chorar, e dessa vez abri o maior berreiro da noite.

- Amor, o que foi? Você está se sentindo bem? - minha mulher estava bastante preocupada.

- Amiga, ele chupa chupeta ainda?

- Estou tentando tirar.

- Ô meu caro, chupeta só da outra, né? Fala aí! - as duas rolaram os olhos para o piadista tosco.

- Querido, não é hora de piada, acho que ele está se sentindo mal mesmo.

O mal-estar só aumentava. Enquanto isso eles chacoalhavam bichinhos na minha frente, tentaram me embalar mais uma vez, ofereceram brigadeiro (que eu aceitei, mas não melhorou em nada minha situação), botaram o DVD da Galinha Pintadinha. Eu já estava roxo de tanto chorar.

Até que subitamente me acalmei, fiquei tranquilo, aliviado. Tudo fez sentido e todos na sala sorriram, ainda que um pouco constrangidos. Minha mulher correu para a bolsa para pegar o lenço umedecido.

Eu tinha me cagado de novo.

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