OPINIÃO

O primeiro telefonema importante

01/04/2015 15:29 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

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Eu costumava ficar aos cuidados de minha avó após a escola. Gostava muito de desenhar e rapidamente acabava com todo o estoque de papeis da casa. Assim, ela passou a guardar folhinhas do calendário para rabiscar no verso. Só me entregava uma folha nova quando praticamente todo o espaço em branco disponível estivesse preenchido, tarefa árdua.

Nessa época os números de telefone eram compostos por sete dígitos. Sempre fui percebido pela minha família como uma criança ansiosa. A verdade nem sempre é tão absoluta, mas não nego que a impaciência tomava conta a cada vez que literalmente discava cada número naqueles aparelhos de telefones antigos - e ainda precisava esperar a roda voltar para o lugar vagarosamente, arrastando, rangendo, rodada após rodada, sete vezes.

Às vezes, em casa, minha mãe dizia que precisava fazer uma ligação importante. Isso significava que ela passaria a próxima hora, talvez mais, no telefone. Eu gostava de conferir os números antes, pois para mim quanto mais noves e zeros tivesse, mais tempo a ligação duraria. Tinha a ver com o tempo que a roda do telefone demorava para retornar à sua posição original depois de discada. Era como se você precisasse dar corda no aparelho. Alguns funcionavam assim, outros - como os orelhões - operavam por moedas: quanto mais dinheiro, mais tempo de conversa. Métodos distintos para o mesmo fim, mas para mim fazia sentido.

Nessa época não havia telefone sem fio, pelo menos em casa. Sentava-se à mesa para conversar. E minha mãe, que também gostava de desenhar, traçava padrões abstratos enquanto falava, construindo tramas à tinta de Bic, enfeitando as anotações pertinentes da ligação, talvez para matar o tempo ou só para ocupar as mãos durante o papo. Dizem que é uma maneira de realmente focar no que está ouvindo. Vez ou outra nem mesmo sua agenda de telefones - pois isso foi antes dos smartphones e agenda eletrônica não era para ela - escapava dos rabiscos. Quanto mais longa a duração da conversa, mais traçados no papel. Eu gostava de observar, já que não recebia muitas ligações, muito menos as longas. Ou importantes. Mas corroía-me a vontade de desenhar assim um dia, quando estivesse no lugar dela.

Não quis esperar a minha vez chegar e resolvi ir de encontro ao destino. Certa tarde, na casa de vovó, liguei num daqueles Tele 900 para ouvir historinhas do Chaves. A ideia me ocorrera dias antes, em um intervalo comercial da TV, quando anotei todos os dígitos no verso da folhinha de calendário. Aguardei o melhor momento e disquei. A historinha, à despeito do que prometiam os vários noves e zeros discados, durou poucos minutos, mas levaram meu contentamento às alturas por permitir que, enquanto ouvia, preenchesse o papel com tramas abstratas, tal qual mamãe. Uma ligação deveras importante.

Tão importante, aliás, que liguei de novo e de novo e de novo, possivelmente batendo um recorde de preenchimento de folhinhas no decorrer da semana. Vovó foi só elogios, achou lindo, colocou os desenhos na geladeira.

Até chegar a conta de telefone e eu ficar de castigo.

A bronca que levei foi igualmente relevante. Educativa, na verdade. Porque finalmente pude compreender que os números em nada se relacionam com a duração da conversa. Desde então, sempre detestei falar por muito tempo ao telefone. Se puder, prefiro não falar.

Manda e-mail que é melhor.

É por isso, aliás, que na minha casa nem tem telefone fixo.

Mentira, é que ninguém mais usa, mesmo.

Nem minha avó, que prefere o Whatsapp.

Justiça seja feita, até hoje eu rabisco ao telefone. E em reuniões, aulas, na frente da TV, jantar de família. Mas não é para matar o tempo ou para focar no que estou ouvindo. É ansiedade mesmo.