OPINIÃO

Melhor não falar sobre mamãe - 30 noites de ficção

11/09/2015 19:20 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

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Segurava a bolsa como se carregasse um filho. A tragédia estaria feita se alguém porventura viesse a pegar, mexer, fuçar, ou mesmo desconfiar do conteúdo que transportava. Envolvia os braços, firme, pois de forma alguma deixaria cair. Ao mesmo tempo, não podia apertar demais.

Eustáquio carregava uma arma de fogo que não lhe pertencia.

Não sabia como foi parar ali dentro. A bolsa era sua, lembrava dela. Minutos antes, sentado no metrô levemente lotado, apalpou seus pertences e notou o estranho formato da pistola. Medo e curiosidade percorreram-lhe o corpo. Arriscou abrir o zíper para ver o cano frio, escuro, de soslaio. Fechou rapidamente, preocupado com o que pensariam dele caso fosse descoberto.

Eustáquio nunca gostou de fortes emoções. Adoecia em vislumbrar uma situação em que pudesse ser deflagrado como perturbador da ordem pública. Um escândalo sem precedentes. Chamariam a polícia, talvez ele até fosse linchado pela população de bem antes mesmo do reforço chegar. E o que pensaria sua família?

Ainda não decidira se a presença da polícia o amedrontava ou aliviava. Por um lado, ele poderia ser preso em flagrante portando uma arma ilegal. Por outro, se desse sorte, poderia encontrar oficiais mais compreensivos, dispostos a entender o drama pessoal que passava naquele vagão. Havia uma chance de esclarecer o mal-entendido. Julgava-se uma boa pessoa, afinal de contas.

Ninguém reparou ainda. Seus companheiros de viagem seguiam as vidinhas despreocupadamente, alheios à presença do revólver a poucos metros de suas frágeis vidas. O que você pensaria se uma arma letal estivesse ao alcance? Eu, certamente, prefiro me afastar elegantemente para não chamar atenção. Pobres almas, nem sequer tinham o benefício da escolha, e a culpa era toda de Eustáquio.

Ou não. Ele era a grande vítima dessa história.

Deve ser por isso que suava tanto. Olhava para a palma da mão direita trêmula enquanto a esquerda segurava a bolsa, amparada pelas pernas. O entorno da gola verde na camisa do jovem escurecia, úmido de transpiração.

Trinta e poucos anos, considerava-se um sujeito prático e metódico. Cortava o cabelo no mesmo lugar desde a infância, sempre o mesmo corte. Não permitia que tirassem fotos suas, de maneira alguma, e o único celular que teve nos últimos anos - hoje guardado no fundo de uma gaveta sem a bateria - estava longe de ser um smartphone. Tinha aflição da barba por fazer desde uma vez em que seu rosto foi tomado por pequenos enroscos de fiapinhos de blusa de lã. Arrepia até hoje. Desde então apara todos os dias. Às vezes duas vezes, uma de manhã e outra à tarde.

O que ele chamava de metodologia, sua mãe acusava de paranoia.

Mas não vamos falar da mãe agora, é melhor mudar de assunto.

Nos momentos de muita tensão, Eustáquio se apega à bombinha de asma. Normalmente isso acontece quando está exposto a multidões, muvucas ou tensões sociais. Ele não é muito bom em lidar com isso, mas desde que, por insistência de sua mãe - não vamos falar da mãe agora -, ele passou a tomar o transporte público, cada dia é uma surpresa. Não tem como prever e se antecipar sobre o que pode acontecer em um vagão de metrô. Você pode ser assaltado ou mesmo assassinado sem sobreaviso. Alguém pode te esfaquear ou empurrar no fosso. Há uma chance de ser pisoteado, sofrer assédio moral, estupro, sequestro. Podem levar você para um quarto escuro, enfiar duzentas agulhas em seu globo ocular sem anestesia, perfurar sua língua com um parafuso enferrujado, quebrar seu nariz com um alicate, arrancar cada uma das suas unhas com uma colher, separando-as da carne como sua mãe costumava abrir as ostras no jantar.

Mas não vamos falar da mãe agora, é melhor mudar de assunto.

Eustáquio é um categorizador nato. Desde pequeno aprendeu a etiquetar e organizar as coisas. Começou com brinquedos de montar, passou pelos tazos, pokémon... Ele completava todos os álbuns que começava, mantinha verdadeira relíquias como o da Copa de 86 e o da Família Dinossauros. Uma pena, não deixava ninguém tocar. Cada um era muito bem etiquetado e organizado. Eustáquio é capaz de enumerar e citar o título de todos os livros que tem pela ordem em que estão dispostos na estante. Ele mesmo fazia a faxina de sua biblioteca desde que a imbecil da sua mãe trocou alguns títulos de lugar.

É melhor mudar de assunto.

Isso deixava Eustáquio realmente ansioso, é um dos motivos para ele tomar aqueles remédios que mamãe, digo, que alguém tanto insistia para que tomasse. Mas nunca gostou. É verdade que, às vezes, os remédios acalmavam algumas das vozes em sua cabeça, mas só a bombinha o tranquilizava de fato, chegando até a calar a maldita voz que narrava cada um de seus passos, em terceira pessoa.

Mas fora tudo isso, ele é muito organizado mesmo. Mesmo. Acredite. Até por esse motivo que não faz o menor sentido ele ter uma arma de fogo na mochila sem saber de onde veio. É verdade que ele já teve apagões de memória no passado, mas hoje quase tudo está sob controle. Nem mesmo lembrava da última vez que saiu do sério. Teria sido com sua mãe?

Muda de assunto.

E se alguém colocou a arma ali com o único objetivo de prejudicá-lo? Talvez ELA, cansada de anos e anos de dedicação a um menino hiper inteligente como ele, tenha finalmente chegado ao limite. Resolveu pregar uma peça. É isso? Na próxima estação deve ter uma tropa aguardando Eustáquio para levá-lo preso. Pior, e se algum policial à paisana o estiver observando neste momento? E as câmeras? Será que está sendo visto pelas câmeras? Seu comportamento está fora do normal? Ele é normal, não é? Sim, Eustáquio, você é normal. Tem uma vida normal, um corte de cabelo normal, uma mochila normal, mas hoje você está com uma arma, e isso não é normal.

Eustáquio precisa da bombinha de asma, é necessário que ele mantenha a calma neste momento. Só que ela está dentro da bolsa, provavelmente junto ao revólver. Ou pistola. Você sabe a diferença?

Coragem, Eustáquio. Ele treme por todo o corpo, teme que alguém pergunte se está tudo bem, ele odeia quando alguém pergunta se está tudo bem quando deveria estar tudo bem e ele está tentando retomar o controle da situação para que fique tudo bem. Sim, está tudo bem. Eustáquio abre um sorriso fajuto para a moça sentada de frente para ele. Não tem nada errado, moça, diz o sorriso sem emitir qualquer palavra. Está tudo bem.

Toma coragem e enfia a mão na bolsa. Sente alguma coisa cilíndrica, será a bombinha? Mas está morna. Meu Deus, é o revólver. Se está morno é porque foi usado.

Quem usou? Fui eu. Não, não fui eu. Quer dizer, foi o Eustáquio.

Ele se levanta rapidamente. Preciso descer na próxima estação.

Dá licença, moço, eu vou descer na próxima estação. Dá licença, eu preciso falar com alguém, moço, você não está entendendo. Ela não pode saber que eu provavelmente fiz alguma coisa ruim. Por que é que estou segurando um maldito revólver de cano morno na mochila?

Moço, por que esse trem não para? Você me conhece? Você sabe quem eu sou? Você é policial à paisana, não é? Se você for, eu preciso de ajuda. Você pode ligar pra minha mãe?

Pra minha mãe, não. Muda o assunto.

Desculpa, eu não quero atrapalhar. Escuta, eu não quero machucar ninguém, moço. Você pode me ajudar? Eu preciso entregar isto pra alguém, o senhor pode segurar? Cuidado, está morno.

Ei, espera, se acalma, volta aqui. Tá tudo bem. Escuta, não grita, eu fico muito nervoso quando gritam. Por favor, não grita. NÃO GRITA, PORRA.

Não, moço, eu não vou fazer nada, calma, tá tudo bem. Pronto, estou apontando pra baixo. Pronto. Eu sempre fico nervoso quando alguém grita.

Já acalmei. Deixa eu sentar. Olha, vou deixar isto no chão, tá bem? Isso, assim está melhor, respira fundo Eustáquio.

Minha mãe sempre grita comigo.

Quer dizer, ALGUÉM sempre grita comigo.

Eu matei alguém, moço.

Sim, fui eu.


***

Primeira história do projeto 30 noites de ficção, uma coletânea de contos em tempo real. Para acompanhar o projeto, visite a página oficial.

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