OPINIÃO

Lady Madá contra a terrível seita dos pais machistas e homofóbicos

03/02/2015 15:16 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

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Recebi com grande surpresa a incumbência vinda da pequena, porém brava, Lady Madá. Era pouco mais de quatro da tarde quando, das altas colinas de Perdizes no ressecado Reino Encantado de São Paulo, ela anunciou: papai, meu caderno de desenhos acabou. A mensagem, com claro ar de cobrança, premeditava a missão idêntica à que me fora passada menos de uma semana antes. Isso significava que a pequena prodígio de dois anos e cinco meses fora capaz de preencher 48 folhas de papel sem pauta com giz de cera, canetinha e aquarela em apenas quatro dias.

Em um primeiro momento, confesso, pensei em acusá-la de desperdício, mas logo o tolo pensamento se dissipou de minha mente, uma vez que os membros da Grã-Ordem dos Pais Hippies com Formação em Humanas como eu e minha senhora jamais se veem infelizes ou mesmo inseguros ao serem confrontados pelos ímpetos artísticos de suas proles. Foi assim que partimos, eu e a pequena, em uma missão pelo caderno perdido.

Adentramos minha diligência motorizada em direção à Casa de Papeis - vulgarmente chamada de "papelaria" - mais próxima. Estava fechada. Seguimos para uma outra que eu conhecia. Fechada também. Lembrei daquela que ficava um pouco mais distante. Fechada. Eis que me lembrei da ainda mais longínqua Rede de Papelarias e Materiais de Escritório do Fim da Colina. Entretanto, para chegar até ela precisaríamos enfrentar as terríveis Hordas Alviverdes prestes a adentrar o coliseu futebolístico - vulgo jogo do Palmeiras que ferrava com o trânsito da região. Optamos por correr o risco mesmo assim e, entre rotas alternativas e vias paralelas, fomos surpreendidos por outro tipo de exército inimigo: os foliões dos blocos de carnaval antecipado. Mas eu, como fiel escudeiro da pequena Madá não estava disposto a desistir e, assim, após quase uma hora de acrobacias no volante depois - e sem que eu precisasse utilizar um de meus milenares feitiços e encantamentos para isso -, finalmente adentramos o estabelecimento, por sorte ainda aberto.

O pior estava por vir.

A Rede de Papelarias e Materiais de Escritório do Fim da Colina não era como uma estrebaria, taverna ou estalagem. O que se escondia por trás daquela fachada não passava de uma armadilha para aventureiros incautos: uma terrível masmorra escura composta por intermináveis corredores labirínticos cheios de desafios, produtos caros de má qualidade e famílias goblinoides empilhando-se pelo caminho em meio a cotoveladas, mordidas e empurra-empurra ocupava qualquer espaço transitável. Todos em busca de um lendário tesouro: material escolar a baixo custo no fim de janeiro, às vésperas do início do ano letivo. Ninguém nunca viu, mas os aventureiros mais antigos juram que existe. E assim as famílias buscavam, incansáveis, pelo melhor preço.

Não nós. Estávamos ali para cumprir uma missão específica e não podíamos nos deixar abalar. Com Lady Madá em um braço e um guarda-chuva em riste no outro, abri caminho entre os inimigos. No percurso vi duas meninas esbofeteando-se por um estojo da Hello Kitty a sessenta reais. Poucos metros adiante uma mão de criança tateava em busca da superfície, na débil luta pela sobreviência a um soterramento de mochilas da Galinha Pintadinha, Bob Esponja, Backyardigans e Moranguinho. Minha visão periférica captou os últimos momentos de vida de um grande estojo de canetinhas da Minnie, segundos antes de ser despedaçado por sete mães enfurecidas.

Lady Madá seguia serena sob meu braço direito. Passamos incólumes pelas armadilhas das gôndolas de promoção que de promocional nada oferecem. Resistimos ao Feitiço do Consumismo Exarcebado!

Chegamos, enfim, ao corredor dos cadernos de desenhos. Praticamente vazio, temi por mais uma armadilha escondida. Andei na frente, percorri todo o local, utilizando de minhas perícias ladinas e notória furtividade. Nada. Mas quando olhei de volta, minha filha havia sido capturada por um deles. Lá estava ela, tranquila, interagindo com um menino praticamente de sua idade. Os dois sorriam, calmos, e brincavam totalmente alheios ao caos que tomava o local. Teria sucumbido a algum tipo de encanto?

Poucos metros atrás, pude notar o pai - um sujeito forte, de boné e regata - concentrado no que parecia ser uma lista de compras. Enquanto isso a brincadeira dos dois pequenos continuava, e pela primeira vez considerei que talvez pudéssemos ter encontrado um aliado ali dentro. Madá batucava com réguas, o menino trazia massinhas de modelar, derrubava os produtos de seus respectivos ganchos, folheava cadernos, jogava os lápis pra cima, e então pegou uma grande pasta rosa da Barbie na mão.

Rosa?

O pai do garoto imediatamente levantou os olhos de sua lista de compras e se dirigiu ao garoto. Com certa violência, arrancou a pasta da mão do filho e vociferou: pastinha rosa da Barbie? Que merda é essa? Você é menina agora?

Ele mal terminou de falar e eu já conjurava um Feitiço de Retórica Inquestionável para lançar em cima dele, culpando-me por não identificar prontamente um de meus maiores inimigos. Porque todo mundo sabe que os membros da Grã-Ordem dos Pais Hippies com Formação em Humanas são adversários mortais da Terrível Seita dos Pais Machistas e Homofóbicos. Mas antes que eu pudesse dominá-lo ele conseguiu invocar uma Bolha de Ignorância Olavete, e uma esfera de gás formou-se ao redor de seu corpo, inutilizando todos os meus encantamentos seguintes, tais como o Duplo Twist Carpado Feminazi, o Shuriken Lacracu das Inimigas e a Metralhadora de Textão do Facebook: ele só ouvia o que bem entendia. Meu trunfo foi quando lancei uma Rajada de Materialismo Dialético e a bolha de ignorância se solidificou, me permitindo, enfim, quebrá-la.

Eu só não esperava que ele pudesse contra-atacar tão rapidamente com sua Invocação Extraplanar de Discurso de Ódio, poderoso feitiço que me colou as mãos no chão, junto com o que sobrara de minhas convicções. Ele estava prestes a me subjugar de vez quando teve a atenção totalmente desviada. Eis que surge a cavalaria na forma de Lady Madá carregando cinco potes de glitter cor-de-rosa junto com o menino, sorridente, os olhos brilhando, mergulhado em um rio de materiais escolares pink, rosa-bebê e violeta. O menino estava feliz, acima de tudo, alheio à briga do pai.

Meu oponente se viu enfraquecer, encasulando-se em sua própria ignorância para, segundos depois, renascer como um lindo unicórnio que levou todos nós, após criar um arco-íris por cima da multidão, para fora da terrível masmorra da Rede de Papelarias e Materiais de Escritório do Fim da Colina. Carregávamos nossos tesouros em forma de cadernos de desenhos, giz de cera e aquarela embaixo dos braços, felizes para sempre por saber que esse tipo de babaquice como a desse pai só existe na ficção.

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