OPINIÃO

Dez por cento

15/05/2015 15:16 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

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O paizão da mesa sete olha pra mim, levanta o braço com a caneta imaginária e rabisca qualquer coisa no ar. Aceno com a cabeça, bato o olho na Vanessa do caixa. Uma piscada, aponto com o nariz pra mesa sete. Ela entende.

Faltam três mesas. O casal da onze já pagou, copo de saquê no finalzinho. Hoje saio a tempo pro último ônibus.

Mesa três levanta. Vão pagar direto no caixa, é cartão. Dava pra trazer a maquininha na mesa, mas deixa quieto, já foi. Recolho os pratinhos, passo o pano no shoyu que espirrou; percebo que eles deixaram intactos três sashimis de salmão. Droga. Bom, deixa pra lá, o Rubão tá lá dentro e nem vai ver, dessa vez passa.

Aqui no Sushi é assim. Tem rodízio, o pessoal gosta, mas se não comer tudo o Rubão fica puto da vida. Antes pediam muita coisa e sobrava aquela peixarada crua toda. Acabava dando prejuízo, teve um tempo em que rolava a "taxa de desperdício" e se eu não cobrasse do cliente o Rubão descontava dos dez por cento. Hoje em dia não tem mais nada disso, mas se sobra alguma coisa ele vira bicho.

As três amigas da doze falam alto. Tagarelam qualquer coisa sobre água de garrafa importada e língua de boi. A de vestido verde levanta o braço pra mim. Olho na esperança de ver a caneta imaginária, mas não acontece. Em que posso ajudar?

"Mocinho, troca o prato pra mim?" Olho para o tal, está transbordando shoyu. Aceno com a cabeça, recolho a lambança, me retiro. "Ah, e vê se o nosso combinado tá saindo?", ouço já de costas. "E o meu salmão grelhado, hein, faz tempo que pedi", grita a outra amiga ruiva. Sim, senhora. Viro novamente e a do vestido verde manda um "não esquece que é sem peixe branco, só com atum e salmão". Sim, senhora. E eu achando que ia sair cedo.

Fabiano, e os pratos da doze? "Chegou pedido no delivery e o Rubão quis comer um temaki, mas tá quase". Beleza. Vou até a mesa, posiciono o pratinho limpo. Senhoras, o pedido já está a caminho. A terceira amiga, de óculos modernete, torce o nariz pra mim e solta aquele suspiro característico de "estou achando tudo uma merda". Com licença, senhoras.

Só tem elas no restaurante agora. Fabiano me chama, saiu o salmão grelhado. "Leva esse e volta que o combinado tá saindo". Vejo o Rubão logo ali, com cara de sono enquanto deglute um temaki de salmão completo com cream cheese, finge que não me vê. Normal.

Aqui está, senhoras. Agora vou buscar o combinado. "Não precisa, pode cancelar, demorou demais", me diz a ruiva. Sim, senhora.

Rubão, a doze pediu pra cancelar. "Avisa que vai ter taxa de sobra". Mas Rubão, a gente não cobra mais assim, pode dar merda. "Foda-se, não vou tomar esse prejú".

Senhoras, o restaurante tem uma norma para as sobras no rodízio, e... "Que absurdo, então embrulha pra viagem que eu não vou pagar porra nenhuma". Sim, senhora.

Rubão, pediram pra embrulhar. "Avisa que a embalagem é seis reais". Sim, senhor.

Senhoras, o custo... "Menino, chama o gerente". Sim, senhora.

Fico olhando de longe. As três e o Rubão. A de óculos modernete tá nervosa, avermelhada. Aponta pra mim. Rubão falseia um sorriso, pede desculpas. Fabiano traz o combinado na embalagem. Elas acalmam, o Rubão vira pra mim, pisca um olho e dá aquela canetada no ar. Deu certo. Finalmente. Vanessa soma tudo. Três rodízios, duas águas com gás, uma Coca Zero. Sem taxa de sobra nem custo de embalagem. Todo mundo feliz, foi só um mal-entendido.

Aqui está, senhoras. Elas passam no cartão, pedem para não incluir os dez por cento.

"O serviço deixou a desejar".