OPINIÃO

A fábula do gigante que acordou confuso

17/03/2015 10:03 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

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Rolava de um lado para o outro em berço esplêndido - pois nada lhe faltava. Deitado por uma eternidade, custou a dormir - se é que se entregara de fato -, e antes que pudesse sucumbir às plácidas profundezas do sonhar, largou a sonolência e se viu desperto num sobressalto.

O gigante acordou de péssimo humor.

Levantou meio confuso, as pernas trançando, entorpecido pelo cansaço. Tomou um copo d'água, pois a garganta continuava seca - de tanto gritar - desde a última vez em que caminhou, quase dois anos antes, quando na rua ocupou seu espaço.

Olhou para os lados, não soube se localizar e tampouco lembrava quando exatamente deitara - o forte dos gigantes não é a boa memória -, mas ouviu o brado que vinha lá de fora e retumbava em sua cabeça, causando-lhe incômodo, dor e desagrado. Não eram apenas gritos e palavras de ordem, ele ouvia um barulho repetitivo, metálico, ensurdecedor: deixava-o realmente irritado.

Panelas.

Batiam-se ensandecidamente e o gigante não entendia o porquê. Enfurecido, queria silêncio, descansar novamente, mas só o poderia após cessar o fuzuê.

O gigante foi pra rua e se deparou com uma grande bagunça.

Gritos, estouros, arroubos, rompantes. Gente de todo tipo, gente pra todo lado. Povo, povão, povinho, pê-eme, ricaço, riquinho, classe média. Ninguém sabia o que queria, ninguém sabia para onde ir, mas externava o desagrado. Um contra todos, todos contra um. O gigante era grande, mas temia uma tragédia.

Ao fundo, a dama de vermelho, líder suprema, acompanhada de seus súditos, procurava dialogar com o caos instaurado. Em vão. Falava para a tormenta e a tormenta gritava de volta, mas uma não entendia a outra e seguiam ocupando o mesmo espaço sem muita compreensão. E o gigante, embebido em confusão, corria em círculos, até sentir segurarem docemente sua mão. O homem lhe disse:

- Ó nobre gigante, impávido colosso, tu que és como o florão resplandecente de toda a democracia, que fulguras como um raio vívido de amor e esperança para todos nós, que não seguimos as flâmulas vermelhas ou de qualquer agremiação, mas apenas o lábaro estrelado de nossa pátria amada, idolatrada, salve, salve: caminhe ao nosso lado e vamos limpar o país de toda essa fuzarca!

Embevecido, o colosso se permitiu, e assim olhou para os vermelhos, identificando o inimigo poderoso e, além de tudo, agora vil. Pois todo gigante pode ser grande, forte e viril, mas nada como um afago, um carinho ou elogios que lhe cessem o desbrio.

É gigante pela própria natureza, mas padece de alma juvenil.

Não que seja ruim. É puro, ingênuo, bonito. Mas em certa feita fácil de enganar, manipular e, às escondidas, fazer desfeita. A quem importa? Porque da aliança surgiu uma amizade difícil de separar. Era o gigante e seu risonho e límpido amigo, de garrida roupa amarela e verde. "Tudo isso que está aí", o gigante entendeu, era o que pretendiam derrubar.

Perante o braço forte de gigante a dama de vermelho sucumbiu, alçando o risonho e límpido amigo ao trono do Brasil. Mas antes da falência a mulher escarlate bradou:

- Nos conhecemos, Grandioso, de outras paragens. Pode não se lembrar, pois sei que gigantes sofrem do mal da memória, mas não me impressiono com suas micagens. Você é antigo, vem de outros tempos, mas também já andamos juntos e lutamos contra os mesmos tormentos. Ande sozinho, procure não se enganar, porque mais cedo ou mais tarde seu amigo vai te abandonar.

Mas o comparsa amarelo e verde não tardou com os panos quentes, e logo justificou que sua amizade era suficiente. Para que vermelhos, pentelhos, burocratas e bla-bla-bla? "Você acaba de se libertar!", ele disse, "Não seja tão reticente".

Bonança instaurada, dama aprisionada, com o que se preocupar? O gigante dispôs da tranquilidade almejada para finalmente descansar. Fechou os olhos, deitado, estava pronto para dormir. Não conseguiu por conta de um receio difícil de exprimir.

Levantou novamente e se pôs a caminhar. Perseguiu seu parceiro, na ânsia de perguntar: no âmbito do poder, certa vez me foi dito que somos iguais, de tão amigos. Mas por que, então, me relego a dormir? Não seria mais justo se pudéssemos, afinal, encontrar uma maneira de dividir?

O amigo sorriu, mas nada explicou. Com três tapinhas nas costas do gigante, aos afazeres retornou. O colosso pouco entendeu, e queria explicação, e em um discurso apaixonado, relembrou a parceria durante a revolução.

- Revolução? Que nada, é Ditadura Militar! Volta a dormir, vagabundo, que eu tenho que governar.

A dama tinha razão. Entristecido, o colosso sabia o que fazer. Antes de tudo, decidiu nunca mais dormir, para assim nunca mais esquecer.

Em seguida, espatifou o crânio de seu amigo no chão.

Gigante que é gigante anda sozinho e sem patrão.

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Esta é a continuação da jornada do gigante que despertou. Leia a primeira parte aqui.

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