OPINIÃO

Por que o mundo está pensando errado o populismo

E isso custa caro.

27/03/2017 18:52 -03 | Atualizado 27/03/2017 19:02 -03
Anna Isakova/TASS
A líder da extrema direita francesa Marine Le Pen durante uma reunião com o chefe de estado russo, Chairman Vyacheslav Volodin.

Temos de conversar sobre o grande "P". Ele está em toda parte. Todo mundo fala dele: homens, mulheres, até mesmo crianças. Estou falando, claro, do populismo. Não tem como ler uma matéria sobre política hoje em dia sem topar com essa palavra. Virtualmente toda eleição ou referendo é apresentada como uma disputa entre o populismo, que vem ganhando força, e a ordem estabelecida, que está sob ataque. Não há espaço para mais nada.

Não me entenda mal, é importante entender o conceito de populismo na política de hoje da Europa e além, mas só sob duas condições estritas. Primeiro, ele deve ser definido com clareza. Segundo, ele deve ser usado como um dos vários conceitos para entender a política. Infelizmente, não é o que vem acontecendo na maioria dos relatos que falam em populismo nos dias de hoje. A dominância da lente do populismo significa que enxergamos ao mesmo tempo populismo demais e não-populismo de menos.

A dominância da lente do populismo significa que enxergamos ao mesmo tempo populismo demais e não-populismo de menos.

Populismo é usado de várias maneiras diferentes, na maioria das vezes sem nenhuma definição clara. Em vez disso, ele se refere genericamente à política irresponsável ou não-tradicional, tal como prometer tudo a todos, ou então falar de maneira mais coloquial. Nenhuma das duas características é específica do populismo, e ambas são bastante comuns nas campanhas políticas. Na realidade, uma boa definição de populismo é a seguinte:

Uma ideologia que considera a sociedade em último caso separada em dois blocos homogêneos e antagonistas – "as pessoas puras" e "a elite corrupta" – e argumenta que a política deveria ser uma expressão da volonté générale, ou vontade geral, da população.

O populismo é monista e moralista. Os populistas acreditam que todas as pessoas compartilham dos mesmos interesses e valores e que a distinção chave entre as pessoas e a elite é moral, ou seja, "pureza" versus "corrupção". Eles apresentam a política como a luta de todos contra um, um contra todos, o que, ironicamente, é confirmado pela narrativa dominante da mídia de um populismo fortalecido contra uma ordem estabelecida enfraquecida.

Não há dúvida de que o populismo é um aspecto importante da política contemporânea; partidos populistas estão representados na maioria dos parlamentos da Europa e presidentes e primeiros-ministros populistas governam países europeus e americanos. Mas a maioria desses partidos e políticos não são apenas populistas; eles combinam o populismo com outras características ideológicas. Populistas de esquerda o combinam com algum tipo de socialismo – pense o partido Syriza, na Grécia, ou o chavismo venezuelano --, enquanto à direita o populismo é combinado com autoritarismo e nativismo – pense no presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ou Geert Wilders, na Holanda.

AFP/Getty Images
O premiê grego, Alexis Tsipras, discursa no congresso de seu partido, o Syriza, em Atenas, 13 de outubro de 2016.

Antes das ascensão do populismo de esquerda, populistas de direita seriam chamados de "direita radical", não de populistas. A combinação dos dois, direita radical populista (ou, se preferir, populismo radical de direita), é mais adequado. Não se trata somente de questão acadêmica. Como a mídia ocidental tende a perceber o atual desafio à democracia liberal exclusivamente em termos de populismo, ela se concentra predominantemente nos sentimentos anti-establishment de quem não faz política tradicional. Portanto, a imprensa rapidamente celebrou a vitória do primeiro-ministro Mark Rutte nas eleições holandesas como uma vitória do "bom populismo" sobre o "mau populismo" de Geert Wilders.

O que ficou perdido, entretanto, é que Mark Rutte, do Partido Popular pela Liberdade e Democracia, ou VVD, e Sybrand Buma, do Apelo Cristão Democrático, ou CDA, fizeram uma campanha cada vez mais autoritária e nativista. Tanto o CDA quanto o VVD se apresentaram como defensores de valores "cristãos" e "holandeses", incluindo o hino nacional e a tradição racista do Zwarte Piet (Pedro Negro). O líder parlamentar do VVD Halbe Zijlstra chegou a sugerir que a tradição dos ovos de Páscoa estava ameaçada pelo Islã e pelos muçulmanos, com a ajuda de esquerdistas seculares. Rutte foi além, atacando imigrantes e refugiados em sua campanha "aja normalmente", dando a entender que até mesmo descendentes de imigrantes são cidadãos holandeses em "período de experiência".

A mídia viu de menos na eleição holandesa e de mais no referendo do Brexit e na eleição presidencial americana. Ambos são rotineiramente classificados de vitórias do populismo, o que é na melhor das hipóteses um exagero e, na pior, uma mentira. Embora o Partido da Independência do Reino Unido, ou UKIP, tenha desempenhado papel importante na vitória do Brexit a saída da UE sempre foi uma bandeira dos conservadores. Portanto, muitos britânicos não votaram contra uma espécie de "elite corrupta", seja ela britânica ou europeia, mas sim a favor do restabelecimento da soberania nacional, como eles a percebem, em linha com parcela significativa da elite do Partido Conservador.

Sob o pretexto de combater os "populistas", o establishment político está lenta mas regularmente erodindo o sistema democrático liberal.

Analogamente, apesar de todo o hype, a eleição presidencial americana do ano passado foi, acima de tudo, somente mais uma eleição presidencial. Os republicanos votaram no Partido Republicano, e os democratas, no Partido Democrata. Pode ser verdade que o populismo tenha motivado alguns brancos da classe trabalhadora do "coração da América" a comparecer às urnas, o que pode ter invertido a tendência em alguns estados e, portanto, a eleição como um todo. Mas eles eram uma pequena minoria do eleitorado republicano. A imensa maioria das pessoas que votaram em Trump o fez por motivações tradicionalmente republicanas, como aborto, imigração, impostos e fidelidade partidária.

Em resumo, é hora de colocar o populismo em seu devido lugar. Sim, ele é um elemento importante da política contemporânea, mas nem todos os políticos anti-establishment são populistas, e os partidos populista não são somente populistas. Na realidade, para entender políticos como Trump e Wilders, e o desafio que eles representam para a democracia liberal, o autoritarismo e o nativismo são tão importantes quanto o populismo – talvez ainda mais importantes. Além disso, embora políticos estabelecidos adotem o populismo em suas retóricas de campanha, o autoritarismo e o nativismo são de fato implementado em suas políticas, como podemos observar nas recentes respostas à crise dos refugiados e ao terrorismo, do acordo entre a UE e a Turquia ao estado de emergência na França.

Se realmente quisermos entender a política de hoje e proteger a democracia liberal, é hora de nos concentrarmos em todos os aspectos da direita radical populista, incluindo os que pertencem ao establishment político – não só no populismo dos outsiders. Porque, sob o pretexto de combater os "populistas", o establishment político está lenta mas regularmente erodindo o sistema democrático liberal.

Este texto foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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