OPINIÃO

A Venezuela será uma nova Cuba?

A formação política e ideológica dos governos cubano e venezuelano foi forjada em processos históricos bem diferentes, ainda que coincidam retoricamente.

24/08/2017 16:35 -03 | Atualizado 24/08/2017 16:35 -03
Carlos Garcia Rawlins / Reuters
Os presidentes de Cuba, Raul Castro, e da Venezuela, Nicolás Maduro, se encontram para lembrar o aniversário de morte do ex-presidente Hugo Chavez.

Esta é a grande questão que se apresenta diante da radicalização política vivida pela Venezuela desde 2014. É fato que os dois países caribenhos possuem uma retórica anti-imperialista e uma aproximação ideológica desde 1998, quando Hugo Chávez foi eleito pela primeira vez.

Desde então, o líder bolivariano buscou em Cuba uma parceria estratégica: enquanto vendia petróleo subsidiado à ilha, recebia assistência nas áreas de saúde, educação e até militar.

Os argumentos que ressaltam a proximidade entre os países ganham ainda mais força diante do contexto atual, em que os traços autoritários do governo de Nicolás Maduro e a grave crise econômica do país lembram a rigidez política cubana e o "período especial" dos anos 1990, em que as condições de vida na ilha se deterioraram dramaticamente.

Para compreender as diferenças e semelhanças entre os dois, vamos analisá-los a partir dos seguintes tópicos temáticos:

Ascensão do poder: Fidel Castro x Hugo Chávez

O governo cubano é oriundo de um processo revolucionário, que utilizou táticas de guerrilha para derrubar a ditadura de Fulgencio Baptista. As instituições cubanas, na prática, foram reconstruídas do zero a partir da Revolução.

O contexto da Guerra Fria contribuiu para alimentar a retórica do perigo imperialista nas décadas que se seguiram, reforçando a ideia de que o governo comunista seria a única alternativa de defesa da soberania cubana.

A chegada de Chavéz ao poder, contudo, seguiu os procedimentos institucionais já existentes, por meio de uma expressiva vitória eleitoral. Apesar de os países alimentarem o mesmo discurso de "inimigo externo", o projeto nacional-socialista venezuelano foi referendado popular e democraticamente em mais de uma dezena de pleitos.

As posteriores mudanças institucionais que ocorreriam no País também foram feitas por meio de procedimentos constitucionais pré-estabelecidos, sem a necessidade de uma ruptura tão violenta como foi o caso da Revolução Cubana.

Autoritarismo e o papel da oposição

A oposição cubana saiu do país ainda em 1959. A euforia do processo de ruptura permitiu não só um apoio generalizado à Revolução, como a centralização rápida de poder e construção de instituições favoráveis à manutenção do governo, dando pouco espaço para o crescimento substancial de movimentos opositores.

O autoritarismo que marcou o regime castrista também impediu o florescimento de uma oposição real ao seu governo dentro da ilha. Assim, a oposição "interna" se estabeleceu nos Estados Unidos. A comunidade cubano-americana buscou articular-se com o governo norte-americano e sua política externa, porém sem conseguir impactar diretamente a política doméstica em Cuba.

Hoje, o que pode ser considerado como oposição cubana se encontra em cargos legislativos nos Estados Unidos e foi fundamental na consolidação de políticas como o embargo econômico.

Já a oposição venezuelana sempre atuou internamente e tentou fazer frente ao chavismo de diversas formas. Seja por meio de um fracassado golpe de Estado contra Chávez, em 2002, convocando um referendo revogatório de mandato em 2004 – do qual saíram derrotados –, ou buscando chegar ao poder pela via eleitoral, até conseguir a maioria das cadeiras na Assembleia Nacional em 2015.

Além de ser heterogênea – da extrema esquerda até a extrema direita –, a oposição venezuelana diverge nos métodos de combate ao governo (golpe, pressão popular, via democrática) e tem dificuldades em lançar um projeto alternativo que não seja a pura negação do chavismo ou o retorno ao passado.

Vale notar também que o regime chavista ganhou contornos efetivamente autoritários sob a gestão de Maduro. Ele lança mão do controle institucional sobre os demais poderes, especialmente do Judiciário, para calar as vozes dissonantes.

E é por isso que a oposição no exterior – mais notadamente nos Estados Unidos – começou a se engajar politicamente e a recorrer à já consolidada oposição cubano-americana como fonte de know-how. E também comoponte para começar a exercer pressão e influência na política externa dos Estados Unidos para a Venezuela.

Mesmo assim, esse movimento ainda é considerado embrionário se comparado ao seu homólogo cubano. Portanto, ter uma oposição interna, atuante e com capacidade de mobilização popular – protestos diários ocorrem no país desde abril de 2017 – é fundamental para diferenciar os dois países e evidenciar a complexidade da situação venezuelana.

Feita essa observação, a esfera política é um dos pontos em que os dois países mais se aproximam. Mas é importante ressaltar que se a Venezuela seguir o modelo político cubano, a partir do que for decidido pela atual Assembleia Nacional Constituinte, isso não necessariamente será uma herança direta do governo Chávez.

Essa é uma tendência de contenção da crise política intensificada pela gestão de Maduro, por meio de processos de desconstrução da institucionalidade chavista, centralização do poder e militarização da sociedade, com fortes indícios de assessoria cubana.

Dificuldades econômicas

O "período especial" em Cuba foi fortemente influenciado por fatores externos, sendo consequência do embargo econômico imposto à Ilha pelos Estados Unidos desde 1960. Um dos efeitos mais dramáticos desse momento foi a crise migratória.

O caos econômico na Venezuela advém, principalmente, da má gestão da política econômica (como a política cambial), da alta dependência do petróleo, da corrupção e, em menor grau, de movimentos de boicote, como estocamento ilegal de produtos e o contrabando.

Um dos seus efeitos também tem sido a saída maciça de venezuelanos do país. Tanto o castrismo como o chavismo tentaram, cada um a seu tempo, mudar a matriz produtiva por meio da industrialização, porém sem sucesso.

Ainda que ambos afirmem que elementos externos são os causadores das dificuldades econômicas, no caso de Cuba essa constatação é mais fácil de ser feita, uma vez que a Venezuela ainda tem a possibilidade do comércio livre e tem, paradoxalmente, nos Estados Unidos um dos seus principais parceiros.

Isolamento internacional

O rápido isolamento de Cuba, por parte dos Estados Unidos, e as posteriores tentativas de intervenção (invasão da Baía dos Porcos, em 1961, e a crise dos mísseis, em 1962) radicalizaram e aceleraram seu alinhamento com a União Soviética.

No caso venezuelano, o isolamento internacional começou a acontecer somente quando Nicolás Maduro passou a perseguir a oposição de maneira mais sistemática, especialmente a partir de 2016. O processo foi concomitante com a ascensão de governos de centro-direita na América Latina.

Mesmo com repreensões políticas significativas, como a suspensão no Mercosul, a Venezuela ainda não sofre um embargo econômico como ocorreu com Cuba. Existe, inclusive, a preocupação por parte dos países vizinhos que essa situação não se repita, pois se entende que o maior prejudicado por essa política foi o povo cubano, uma vez que o governo seguiu intacto no comando da ilha.

Até mesmo os Estados Unidos têm imposto sanções individuais aos funcionários do governo chavista, evitando, assim, aprofundar os efeitos da crise econômica sobre a população venezuelana.

Como foi visto, a formação política e ideológica dos governos cubano e venezuelano foi forjada em processos históricos bem diferentes, ainda que coincidam retoricamente.

A radicalização política promovida por Maduro aproxima as duas realidades, porém a existência de uma oposição articulada internamente é o grande diferencial em relação a Cuba.

No cenário econômico, as semelhanças entre os países estão presentes muito mais nos efeitos das crises do que em suas causas, tendo em vista a disparidade entre eles em termos de capacidades produtivas.

Por fim, a maneira como a comunidade internacional tem lidado com a Venezuela reflete um aprendizado com os erros cometidos no caso cubano. Além disso, o contexto global e geopolítico multipolar (não podemos nos esquecer do papel fundamental da Rússia e da China) torna a situação ainda mais complexa do que nos tempos da Guerra Fria.

Portanto, afirmar categoricamente que a Venezuela é uma nova Cuba pode ser um falso cognato político e requer uma análise mais profunda dos respectivos processos históricos e políticos.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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