OPINIÃO

A maternidade, o trabalho e o julgamento dos outros

Sim, é mais um julgamento. Velado. Nos olhares. Na pergunta da funcionária da escola perguntando "e aí, trabalhando muito?".

07/02/2017 18:55 -02 | Atualizado 07/02/2017 18:55 -02
Jose Luis Pelaez Inc
Por que isso é questionado? Porque isso é problema de alguém que não sou eu, meu marido e meu próprio filho?

Todos os dias da semana, levo o meu filho pra escola às 9h da manhã vestindo roupa de ginástica. A academia fica no shopping ao lado.

Quase todos os dias quando vou buscá-lo - muitas vezes é o pai dele quem faz isso - estou de chinelos.

Neste intervalo em que meu filho brinca, aprende, se alimenta, dorme e se diverte e é a coisa mais deliciosa do mundo quando eu chego e ele corre para os meus braços, eu vou pra academia, arrumo a casa, trabalho - home office - e tenho que agendar com semanas de antecedência um almoço com uma amiga, e muitas vezes o imponderável me faz desmarcar aos 45 do segundo tempo.

Mas a roupa de ginástica da manhã e o chinelo no final da tarde ás vezes é o suficiente para você se tornar a mãe desocupada que não trabalha fora e mesmo assim deixa o coitado do seu filho o dia todo na escola.

Sim, é mais um julgamento. Velado. Nos olhares. Na pergunta da funcionária da escola perguntando "e aí, trabalhando muito?"

Sim, trabalhando muito. Sim, muitas vezes trabalhando depois que meu filho vai dormir. Sim, trabalho muito mantendo a casa em ordem porque só tenho faxineira uma vez por semana. Trabalho nos fins de semana quando meu marido leva nosso filho pra passear no parque.

Mas,

E se eu não trabalhasse?

Por que isso é questionado? Porque isso é problema de alguém que não sou eu, meu marido e meu próprio filho?

E eu imagino que a mãe que leva o filho de manhã pra escola de terninho linda e maquiada e manda mensagem no Whatsapp desesperada porque ficou presa em uma reunião e vai se atrasar pra pegar o filho também é questionada. Analisada. Julgada.

E considerada culpada.

Para a sociedade que nos cerca, formada por homens e mulheres, a mãe não pode ter tempo livre. E não pode sequer indicar que talvez tenha tempo livre. No ano passado eu corria pra terminar meu trabalho logo para dar tempo de ver pelo menos um episódio de Gilmore Girls na maratona antes do lançamento da temporada nova.

Isso significa que eu deveria usar aqueles 43 minutos pra pegar meu filho na escola antes e ficar com ele?

E quantas vezes uma mãe em uma festa, bar ou restaurante teve que responder "e onde está seu filho?"

(Neste caso, sugiro fazer como uma amiga que disse com a cara mais séria do mundo "na bolsa" ou eu mesma, que soltei um berro MEU DEUS EU SABIA QUE TINHA ESQUECIDO ALGUMA COISA).

Ser mãe não é fácil. Cansa, faz a gente chorar, engordar, ter fome, não pentear o cabelo. Faz a gente ter dúvidas e se sentir culpada. Cada maternidade é única. Cada uma de nós tem que viver a sua maternidade como lhe convier. Ela tem que ser adaptada ao que nós somos.

Como somos nós que vivemos as dificuldades da maternidade, somos também nós quem sabemos aonde estão as delícias dela.

Em chegar em casa no começo da noite e brincar de carrinho no chão da sala, ver o desenho preferido pela 503a vez apoiado no ombro da mamãe, brincar de se esconder ou ficar ali, sem fazer nada. Apenas juntos.

E sentir prazer em passar o dia trabalhando, passando um tempo na academia e fazendo as unhas e vendo seriado no computador não nos torna menos ou mais grandes mães, que amam seus filhos acima de qualquer coisa e que - no meu caso - já está morrendo de saudades às 16h30.

Não julgar uma mãe em suas coisas mais simples. É algo que exige tolerância, paciência e muita força de vontade. Mas também torna o mundo muito melhor para todas nós.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representam as ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública. Se você deseja fazer parte dos blogueiros, entre em contato por meio de editor@huffpostbrasil.com

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