OPINIÃO

Deixem as grandes experiências para os adultos

30/07/2015 18:29 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
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Foi-se o tempo em que ser criança era algo simples. Singelo. O mundo pede que a gente viva experiências agora e que as proporcione a elas. Isso é ferramenta de marketing e aplica-se à infância como se fosse sinônimo de diversão. Afinal, a vida está monótona, e por que não viver experiências, não é? Da festinha de aniversário às pequenas escolhas do dia a dia, crianças passam a viver grandes acontecimentos, porque senão que graça teria a infância, não é mesmo?

Graça zero. O jardim de casa já não tem mais graça, afinal só tem um balanço e um monte de verde pra brincar. A festa em casa ou no prédio também já parece pouco. Precisamos contratar atrações para entreter essas crianças, senão elas ficam sem ter o que fazer. Imagine! Pintar as unhas de clarinho, então, nem se fala. Chega a ser coisa de mãe careta. Imagina pintar a unha de rosinha. Nem aparece, não é? Cadê a graça? Não tem. Então tasca logo um vermelho. E o cabelo? Fazer escova já virou rotina, então vamos pensar em algo novo. Que tal pintar? Ah! Divertido. Mais uma experiência. Acho que 11 anos já pode, não? Ser criança no mundo de hoje exige que você brinque menos e saiba mais. Viva menos a infância e pule direto para a fase adulta.

Mas não é na infância que ensinamos e damos noções de parâmetros às crianças? Então, como ser tão permissivo dentre tantas experiências que o mundo oferece? Uma coisa não combina com a outra, definitivamente. E, de novo, cabe aos pais dar o limite e dizer "Chega, isso não". Mas com a maior das boas intenções (sempre) famílias, numa velocidade totalmente inconsequente, têm proporcionado vivências e experiências um tanto quanto inapropriadas a seus pequenos. Festas de aniversário deixaram de ter o essencial, que é criança brincando, pra proporcionar experiências. Sim! Então as festas expandem as proporções do quintal de casa e ganham espaços inusitados como limusine cor-de-rosa, festa no ônibus balançando, day spa no salão, dia de princesa no shopping e por aí vai. A lista é extensa, acredite se quiser.

As festas ganham uma lista de "tem que ter" que mais parece casamento. E no meio de tanta pompa e barulho perde-se o essencial: a comemoração da infância. Perde-se a verdadeira intenção, porque ela foi toda preenchida de alusão. Ou ilusão. E cada ano que passa, a criança quer mais. Tem que ser maior, tem que ter mais coisas, porque não se pode repetir a do ano anterior. As proporções extrapolam e a criança perde seu apoio. Expandiu demais. E agora, faz como pra voltar ao centro, ao que realmente importa? Não volta. E a criança cresce e as festas crescem. E logo no começo da adolescência já tem muita festinha rolando, que mais assusta do que promove diversão. Já ouviram falar nas Animal Party? Pah! As meninas chegam chegando. Choquem-se! Porque com 12-13 anos tem pais liberando casa com bebidas aos pequenos. Sim, estamos falando de crianças, ainda. Ah! Mas as experiências, não é mesmo... Precisamos deixá-los viver sem as interferências dos pais, não é? Senão seremos caretas. Mas careta educa.

Porque isso aqui está virando um deus nos acuda. Pode soar insano, mas as festas inocentes das crianças podem caminhar para as festas indecentes dos adolescentes. Tudo porque cede-se às vontades, e vontades fora de hora. Menos é mais. Grandeza não mede amor, não supre ausência, não pode ser sonho. Festa a gente faz para amigos e com amigos. Festa tem família junto. É singela. Deixem as grandes experiências aos adultos, que sabem melhor como lidar. Criança precisa de estímulos que as humanizam. Para ter desejo em aprender e não em ter. Para ter desejo em viver e não em ser. Porque tudo que começa mais cedo termina mais cedo. Vale a pena?

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