OPINIÃO

Chega de alisar cabelo. Ser você mesma tem mais força do que ser uma imagem

10/11/2015 22:37 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Reprodução/Facebook

Porque "meu cabelo não é duro, é cacheado. Duro é seu preconceito". Pah! Mc Soffia, 11 anos. Filha de Kamilah Gomes Pimentel, professora de hip hop no Projeto Âncora, em Cotia, região metropolitana de São Paulo. Cresceu dentro da militância e do movimento ativista junto com a mãe e a avó. E "com meu cabelo black vou mandando a fita. Esse é o caminho", canta. E as meninas adoram, porque podem soltar os cabelos sem preconceito. Dançam.

Chega de alisar cabelo. Cabelo liso não é mais bonito que cabelo natural. Isso quer dizer: ser você mesma tem muito mais valor e força do que tentar ser uma imagem. Ou uma produção de imagem. Ok, sabemos que a mídia publicitária é c-r-u-e-l quando o assunto é beleza feminina. Mas veja o emoji que acaba de colocar no ar suas carinhas com cabelos cacheados. Sabemos também que o padrão de exigência é alto, mas você acha mesmo que está certo ensinar uma criança que cabelo bom e bonito é cabelo liso? Como fica a autoestima dela? Pois é, não fica.

Estava eu num estúdio, fotografando uma campanha de uma marca de moda infantil. Várias crianças modelos. Hora de fazer os cabelos, e as meninas sentam. Os cabeleireiros escovam, porque é mais fácil de fazer penteados. Isso quer dizer trança, coque, rabo ou seja lá o que for. Daí temos duas cenas. A primeira é de uma menina linda, morena, que tem o cabelo ondulado e que chora horrores porque NÃO, NÃO quer alisar o cabelo. Segunda cena, uma menina linda, ruiva, que tem o cabelo BEM armado e a mãe fica mega feliz quando ela alisa o cabelo. Dois contrastes numa mesma cena. A mãe da ruiva confessa que escova constantemente o cabelo da filha, porque "olha como o dela é feio e ruim". O cabeleireiro implora pra ela parar de fazer isso com o cabelo da filha, porque está estragando, e a menina tem um cabelo de dar inveja.

Mas a realidade é essa, minha gente. Dados de uma pesquisa encomendada por uma gigante multinacional que atua na área de beleza mostra que mulheres gastam, em média, R$ 1.500 por mês em salão de cabeleireiro. Basicamente em químicas. E, sim, tem MUITA mãe que leva a filha junto pra "dar um jeito" no cabelo, que está feio demais, todo armado e grande. Tô querendo dizer que tem criança fazendo chapinha diariamente em casa pra ir pra escola; tem criança fazendo alisamento com química em salão; tem criança se danando com a autoestima na escola; tem criança de cabelo alisado achando que isso é lindo; tem criança sofrendo preconceito pra caramba. Certamente o caminho do salão não é o melhor que pode-se dar a essa criança. Mas é o melhor caminho que essa mãe conhece. E como a gente muda esse contexto social e cultural? Como injetar autoestima nessas meninas? E tranquilidade nessas mães?

Com mais Mc Soffias, mais movimentos como o Empoderadas. Com mais salões como o Beleza Natural, de uma ex-empregada doméstica, e que tem a maior rede especializada em cabelos crespos e ondulados do País. Com os movimentos sociais nas redes, como o Low Poo que incentiva as pessoas a pararem de usar químicas e fazer alisamentos, desintoxicar os fios, e cuidar para que sejam saudáveis naturalmente. Na mesma linha, a marca Embelleze acabou de lançar uma linha de xampu e condicionador chamados No Poo e Low Poo, com a mesma proposta. Tem também a nova revista feminina chamada AzMina, que tem por objetivo falar com as mulheres que não se sentem representadas no tradicional mercado de beleza.

Quanto mais diferença, quanto mais diversidade, maior as chances de encontrarmos semelhanças. "Quando ampliamos a possibilidade de espelhamento, o encontro pode ser algo empoderador, pois avós, mães e tias que se acham bonitas, certamente serão capazes de criar crianças mais seguras", fala Renata Martins, do projeto Empoderadas. E assim vamos construindo um novo modelo de estética que, quanto mais se propaga, mais é aceito e menos gera preconceito.

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Famosas com cabelo afro