OPINIÃO

O que está por trás do 'Tchau, querida' dos deputados pró-impeachment?

19/04/2016 16:41 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
ASSOCIATED PRESS
Opposition lawmakers hold signs that read in Portuguese "Goodbye dear" and "Impeachment now" during a debate on whether or not to impeachment President Dilma Rousseff, as House Speaker Eduardo Cunha, seated top center, leads the session in the Chamber of Deputies in Brasilia, Brazil, Saturday, April 16, 2016. Sunday's vote will determine whether the impeachment proceeds to the Senate. Rousseff is accused of violating Brazil's fiscal laws to shore up public support amid a flagging economy. (AP Photo/Eraldo Peres)

Em uma ligação grampeada ilegalmente pelo juíz Sérgio Moro, Lula se despede de Dilma dizendo: "Tchau, querida!". Quando alguém que gosta da gente diz isso, é uma coisa. Mas quando alguém nos diz isso em outros momentos toda mulher sabe o que esse "querida" quer dizer. E não é bonito.

Esse "querida" serve pra descreditar nossa posição no mundo. É como qualquer coisa dita com um sorrisinho de canto de boca, daqueles de desprezo. É como quando uma pessoa rica chama a garçonete que levou o pedido errado de "queridinha" ao explicar isso. É como quando o chefe quer te dar uma bronca, mas não sabe como você vai reagir e usar um "querida" para, na cabeça dele, suavizar as coisas.

Toda mulher já ouviu um "querida" com esse tom. Toda mulher já passou por esse momento em que apenas ser mulher te deixa em uma posição inferior. E isso pode ser observado o tempo todo durante a votação do processo.

A cada mulher que ia votar ouvia-se "lindas" proferidos pelos deputados que a cercavam, bem de perto, próximo ao microfone. Esse é o papel da mulher: ser linda e agradável, não questionar, não se indispor. Somos criadas para isso. Sorrir mais, argumentar menos. Não é atoa que muitas meninas ganham a fama de "difíceis" apenas porque não aceitam esse caminho. Com Dilma foi assim.

O governo Dilma não incomoda por sua incompetência. Não é como se isso fosse uma novidade na nossa tão jovem democracia. As ações incomodam porque não são delicadas e amigáveis. Dilma não é uma mulher amigável. Não é uma mulher que vive com um sorriso no rosto. Não tem uma fala mansa e leve. Ela é durona. Ela incomoda. Ela bate de frente.

E mulher, amigos, quando bate de frente, merece ouvir certas coisas, diz a cultura popular. Mas como chamar uma presidenta de certos nomes seria quebra de decoro -- apesar disso ser feito intensamente pela população -- usa-se o querida. Esse querida pode ser trocado por vadia, vagabunda, piranha, puta, louca, histérica, maníaca e mais diversos outros adjetivos que normalmente são usados apenas quando se referem a mulheres.

Se a Câmara dos Deputados fosse um lugar que respeita a representatividade feminina e as mulheres, até poderíamos entender esse querida de outra forma. Fosse como um bordão ou piadinha. Mas não é. E os exemplos não são poucos.

Em dezembro de 2014, por exemplo, o deputado Jair Bolsonaro disse que a deputada Maria do Rosário não merecia ser estuprada:

"Ela não merece porque ela é muito ruim, porque ela é muito feia. Não faz meu gênero. Jamais a estupraria".

Estupro, para ele, é comparado a sexo e não um crime contra a dignidade feminina.

Na seção de domingo, transmitida e com talvez a maior audiência já tida pela casa, ele homenageou o torturador da presidenta. Nas manifestações pelo país ouve-se histórias de senhoras que vomitaram ou passaram mal. Quem não conhece a história talvez não entenda o peso disso, mas durante a tortura Dilma teve ratos inseridos em sua vagina pelo Coronel do Exército Brasileiro, ex-chefe do DOI-CODI do II Exército, Carlos Alberto Brilhante Ustra também conhecido por Dr. Tibiriçá. Não consigo pensar em nada mais humilhante, ultrajante e traumático.

O show de horrores e misoginia de domingo ainda teve outros capítulos. Dentre os deputados que não puderam comparecer a votação está Clarissa Garotinho, grávida de 35 semanas e que saiu de maca da última seção. A cada vez em que era citada recebia vaias. Uma mulher com 35 semanas de gestação não pode e não deve pegar avião por um motivo bem simples: a segurança do bebê que ela está quase parindo. Os homens não foram vaiados ou hostilizados. E isso em um plenário em que a maior parte dos votos foram justificados com "pela minha família".

Tivemos também um líder da bancada do Distrito Federal explicando que alguns de seus deputados votariam de forma diferente do grupo. Ele citou um homem e hostilizou uma mulher: os dois tinham o mesmo voto. A hostilização foi tão gritante que nesse momento Erika Kokay ganhou tempo para se defender na plenária. Algo impensável em um ambiente seguro para mulheres.

Durante todo o tempo em que a votação aconteceu o que se viu foram mulheres sendo desrespeitadas: seja pelos "elogios" às com voto favorável ao seguimento do impeachment, seja por gritos, vaias e berros às com voto contrário. Coisa que não acontece com os homens -- exceto o deputado Jean Wyllys, assumidamente gay, que ouviu nomes como "viado" e "queima-rosca" enquanto tentava discursar.

Se em uma votação não é possível ser respeitada por ser mulher; se ali, em um ambiente de trabalho, o "tchau, querida" toma contornos de agressão, como é que podemos acreditar que esses homens eleitos democraticamente vão tratar as pautas ligadas às mulheres?

A Câmara dos Deputados é um ambiente tóxico. Como esperamos que mulheres participem mais ativamente da política se os obstáculos que têm que passar são agressões diárias por seu gênero, além de todas as questões referentes ao trabalho em si?

Nas manifestações pelas ruas a relação das pessoas com as falas, posicionamentos e votos das mulheres não foi tão diferente. Somos um país doente que não consegue respeitar o outro, que não consegue ainda entender a democracia. Uma mulher negra dando sua opinião é ainda mais ofensivo. Quebraram-se as correntes da senzala, mas a casa grande ainda as enxerga.

O "tchau, querida", utilizado por veículos de imprensa de circulação nacional, que não pensam duas vezes antes de destilar misoginia, não é apenas uma expressão. Ele diz muito mais sobre nossa sociedade, sobre a maneira como nos relacionamos com as mulheres e o espaço que é destinado a nós. Ele é machista, sexista e classista. Ele é uma violência, assim como todas as atitudes irracionais e cheias de ódio que pudemos acompanhar por tantas horas durante a votação.

*Texto originalmente publicado em Medium

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