OPINIÃO

Comunidades de mulheres: Ambientes férteis para o crescimento conjunto

05/05/2016 17:37 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
HipstersFree/CreativeCommons

A primeira vez que ouvi falar de comunidades de mulheres foi no Facebook. Mentira, já conhecia algumas que eram fóruns por e-mail, mas nunca consegui lidar muito bem e me perdia nos papos. O Facebook colocou tudo em uma única página, com uma navegabilidade simples e a possibilidade de se conectar com a outra. Mas nem tudo o que pode ser, é. Com o tempo, as comunidades passavam por brigas, mudanças, julgamento ou silêncio - um like já era suficiente para que a outra soubesse que eu sinto sua dor, então não preciso falar sobre isso. Além da chuva de prints: falou algo que alguém não gostou, um print vazava magicamente para o mundo exterior. O Facebook é um mundo sem regras e com muitas distrações.

Mesmo com essa experiência dúbia, a necessidade de criar laços com outras mulheres não desapareceu. Segui usando meu perfil da rede social para fazer isso. E deu certo. Mas a exposição era grande e decidir até que ponto se abrir acaba sempre sendo a escolha pelo menos. A sensação de que não era ali o espaço para isso só crescia.

No fim do ano passado minha família foi passar o Natal e Ano Novo na minha casa. Como para grande parte das pessoas, tanto tempo junto não é fácil. Não por falta de amor, mas por falta de prática. Conviver é sobre prática e a gente não tem isso há alguns vários anos.

No meio da coisa toda o clima ficou estranho. Cada um queria a sua independência sem magoar o outro. Cada um queria ver uma coisa na TV mas não queria se fechar no quarto. Cada um queria um pouco do outro, mas não queria tanto. E então eles resolveram antecipar a viagem de volta. Foi um alívio para todo mundo, de adultos à crianças, passando pelo cachorros.

Quando tudo isso acabou eu precisava conversar sobre essas relações familiares. Minhas melhores amigas conhecem minha vida e eu conheço as delas. Tinha que ser um grupo de pessoas que não soubessem tanto sobre mim e eu não soubesse sobre elas. Foi assim que escrevi meu primeiro relato na Comum.

A Comum, nessa época, era um fórum exclusivo para mulheres. Um espaço em que a gente conseguia ajudar uma à outra em todo tipo de assunto: de dicas para congelar alimentos sem estragar, passando por relacionamentos abusivos, dúvidas sobre carreira até chegar a discussões sobre a indústria alimentícia ou homens que só transam com o pênis.

Foi lá que mulheres que nunca tinham me visto me acolheram e me ajudaram a entender que nem sempre estar junto é a melhor saída. Falamos sobre espaço, sobre toda a bagagem que as relações familiares carregam e trocamos segredos, histórias íntimas, percepções sobre as relações e dicas práticas de como lidar com tudo isso. Me senti abraçada. Me senti vista. E quem não quer ser vista?

No começo desse mês a Comum entrou em uma nova fase: um site. Conteúdo produzido totalmente por mulheres, tentando ter apenas mulheres como referência, e focando no que mulheres querem saber. Isso vai de conserto do carro a como instalar um chuveiro, passa por hortas urbanas e como cuidar do dinheiro, e chega a relatos que nos unem e mostram que todas nós passamos por certas coisas iguais. Tem texto, tem vídeo e tem encontros.

Tudo o que a gente constrói online é levado para a vida. O primeiro encontro foi sobre contracepção natural, tópico que bombava no fórum porque muitas mulheres cansaram de se encher de bombas hormonais - e as que precisavam do medicamento por indicação médica ou escolha foram totalmente respeitadas -, o próximo é sobre beleza natural, afinal não adianta se alimentar bem e passar cosméticos cheios de substância tóxicas das quais sua pele vai se alimentar também.

E tem os vídeos. Mulheres incríveis falando sobre coisas que a gente quer aprender e que elas manjam. A gente é tão acostumada a buscar homens para se inspirar ou comprovar ideias, né? E aí vamos mantendo a sensação de que para tudo é necessário ter a aprovação ou a chancela masculina. Não é.

Na Comum aprendi a me inspirar em outras mulheres. Nas mulheres do dia a dia, naquelas que vivem como eu, se parecem comigo, não estão em outdoors, capas de revista ou na TV. Mulheres de carne e osso que têm tantas coisas maravilhosas para ensinar e tão poucos ouvidos aptos a receber.

Só em uma comunidade de mulheres é que você entende se consegue mesmo ter a tal sororidade. É ali que você precisa discordar com argumentos e sem agressividade. É ali que você nota que não quer machucar aquela outra pessoa só porque vocês pensam diferente. Só um ambiente tão acolhedor pode tirar de nós o melhor que há. E quando aprendemos a ser generosas com as outras passamos a pensar se não poderíamos ser mais generosas com nós mesmas. E nós podemos.

A construção de uma nova realidade passa pela criação de pontes e fortalecimento de laços. Parte da minha relação com isso foi construída na Comum. Mulheres podem ser amigas, podem se ajudar, podem crescer juntas. A gente só precisa de um ambiente que permita isso. A Comum é esse lugar para mim.

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