OPINIÃO

O mérito da escola que não educa

14/04/2014 16:30 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02
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Infelizmente, neste momento em que escrevo, a grande maioria das escolas públicas do país não estão contempladas nessa reflexão. Falo aqui de escolas privadas, dirigidas ao publico de classe média e alta do país. Muito ainda há de ser feito no ensino público, para que esse tipo de consideração seja levada em conta, mas acredito que em alguns aspectos vale para todas.

Quem de nós aqui nunca disse ou ouviu frases similares a essas: "Puxa, Fulano era o melhor aluno da classe, só tirava 10, era o capitão do time de futebol, e todos os professores adoravam ele. Como chegou a esse ponto? Como desperdiçou tanto talento? Que pena, ele não deu certo". Ou então aquela outra frase: "Nossa, olha como Fulano se deu bem na vida, quem diria, era péssimo aluno, o moleque só bagunçava, era um problema e foi até expulso uma vez da escola. Como que esse se deu tão bem?" Pois é. Esta não é uma norma, mas serve para ilustrar aquilo que identifico como um problema no sistema de educação vigente.

Muito tenho lido nas últimas semanas sobre a preocupação e o desejo de mudanças nos sistemas de avaliação nas escolas europeias e dos Estados Unidos, as quais temos tendência a seguir. Acadêmicos, e até um prêmio Nobel, John Gordon, 2012, tem alegado que as avaliações usadas hoje em dia não medem características como determinação, superação, perseverança, paciência, equilíbrio emocional, capacidade de desenvolver soluções originais, garra, vontade, ponderação, liderança e por aí vai.

Eu pessoalmente tenho pensado neste assunto há muitos anos e cheguei a conclusões baseadas em análises muito pessoais. Acho que o assunto é, sim, muito relevante, e mais do que nunca uma nova fórmula deve ser encontrada para avaliar alunos em ambiente escolar. Mas vou mais longe, e sou mais radical nos meus achados. É claro que todas as regras tem suas exceções e que a questão da educação é muito subjetiva e propícia a falhas constantes, mas minhas observações e conclusões foram tiradas de maneira empírica, isto é, baseadas em simples e atenta observação. Digo, sem medo de cometer injustiças, que, na maioria dos casos em que ocorreu aquilo que relatei sobre o primeiro indivíduo, a culpada foi a escola. E sem querer, no segundo caso, o mérito foi do ambiente escolar.

Imaginemos uma criança que chegou na escola na primeira infância, e que essa mesma criança já tinha certas habilidades que a destacavam das outras. Facilidade para ser alfabetizada, bom comportamento social, extrovertida e articulada. Automaticamente essa criança chamou a atenção, e de modo instintivo seus professores começaram a lhe dar mais atenção. Além de começarem a fazer aquilo que viria a ser seu maior desafio na vida adulta, começaram a rasgar elogios e encher a pobrezinha de prêmios e notas altas. Buscando cada vez mais se superar, essa mesma criança acabou virando uma máquina de bons resultados. Notas altas e bom desempenho extra curricular viraram a regra no seu cotidiano. Quanto mais elogiavam, mais o ego se inflava e mais esforço ela fazia para se superar. Enquanto isso, aquela outra criança, que chegou sem mal falar, introvertida e pouco articulada ia sendo esquecida no fundo da sala. Tinha que se virar sozinha, e raramente contava com um pouco de paciência dos professores, mais entretidos em encher a criança número um de instrumentos capazes de aprimorar seu conhecimento.

E assim os anos foram passando e as divisões ficando cada vez mais evidentes. E lá estavam eles, os professores, fazendo o melhor possível para não deixar que nenhuma oportunidade fosse perdida para aqueles que estavam preparados para assimilá-las. Quanto mais alguns poucos se destacavam, mais a matéria ia ficando difícil; assim os pequenos dotados não perdiam tempo no seu aprendizado. Os outros tinham de correr atrás, se matar estudando horas a fio com lições de casa e preparação para provas que pareciam impossíveis. Finalmente chegara a hora dessas crianças irem para a faculdade. Para as crianças do caso um foi montada toda uma estrutura de preparo para as provas de aceitação nas melhores faculdades. Os pais, encantados com as crias, e com os boletins incentivadores, investiram pequenas fortunas em bons cursinhos e aulas particulares de aprimoramento. Os professores passaram a derramar cada vez mais elogios aos prodígios, garantindo a esses adolescentes que eles eram as promessas do futuro. Esses sim iriam conquistar cargos importantes, empregos com salários dignos de suas capacidades e quem sabe até cargos relevantes nas esferas do governo. Quem não se lembra daquele colega que poderia ter sido Presidente da República um dia?

Aqui faço uma pausa para contar uma conversa, olho no olho, que às vezes tenho com adolescentes de quem gosto muito e que fazem parte do meu dia-a-dia, além de também serem, por acaso, do dito primeiro escalão. Gosto de lembrá-los que quando entrarem em uma universidade, digamos USP ou Harvard (só para deixar bem óbvio a que tipo de aluno me refiro), que fiquem atentos no primeiro dia de aula e olhem para os bancos na sala de aula e realizem que todos os colegas da sala, assim como eles, entraram na USP ou Harvard! Vejam só, chegou o dia em que a sala de aula só tem aquelas crianças do primeiro time. Todos ali são a nata oriunda de suas escolas de origem. Para as crianças do time dois não falo nada, pois esses raramente me preocupam, a não ser que tenham optado pelo caminho transviado, aquele que a frustração às vezes nos impõe, mas isso raramente ocorre, acreditem.

Então vamos falar dessa criança número dois. Enquanto ninguém dava bola na sala de aula, só na hora de dar bronca, e ninguém fazia questão de tê-la no grupo de estudos, ela, ou se dedicava a horas de solidão ouvindo música e fantasiando, assistindo a seriados e lendo todas as aparentes bobagens mundanas, ou estava aprontando para chamar a atenção. Tentava elaborar bons argumentos para se safar de um castigo, observava com atenção os "CDFs" para entender o que faziam e como faziam, inventava situações extraordinárias para ser aceita pelos colegas. Bolava aquela festa para poder ter o maior número de pessoas por perto, se arriscava fazendo coisas radicais para tentar se destacar em alguma coisa, namorava muito porque não queria fazer lição e planejava estrategicamente sua saída pela tangente quando as coisas apertavam na escola.

Os anos passaram e número um foi ficando cada vez (esse sim) mais frustrado agora que entrara na USP/Harvard. Se perguntava por que todo mundo tinha mentido para ele na escola, por que garantiram um sucesso que agora parecia cada vez mais distante? Por que ninguém dava bola para aquele prêmio de matemática que havia ganho no ensino médio? Por que agora ele já não era o único, nem provavelmente o melhor? E, o mais incrível, por que alguns colegas de sala de aula se sentiam enganados como ele? A vida parecia uma grande mentira, um grande conto de fadas. Todos mentiram. Ninguém estava passando a mão na sua cabeça nem perguntando quais eram seus planos de futuro. Por que os professores agora não estavam mais tão presentes na sua vida? Ah, é simples, porque aquele tipo de professor está preocupado somente em formar a próxima leva de alunos nota 10 na escola onde ensina, e assim alcançar o famoso "benchmark". Na faculdade, é por conta do interessado, afinal ela já tem os 'melhores', e eles que se virem. A escola adora mostrar que conseguiu classificar alunos em excelentes faculdades, a faculdade por sua vez só está preocupada em formar bons profissionais para um mercado de trabalho cada vez mais competitivo, e não pode perder seu tempo com um punhadinho de alunos excepcionais, a não ser que tenham interesse em virar pesquisadores ou acadêmicos. O mesmo vale para as empresas. Todos têm de ter bons resultados, e isso depende só do profissionalismo de cada um. Alguém já fez uma entrevista de emprego em que lhe foi perguntado a nota de matemática na prova final do ensino médio?

Enfim, aqui termino minha narrativa esclarecendo que o aluno dois virou um empreendedor, um CEO sobrevivente e forte dentro do ambiente competitivo da empresa onde trabalha, um engajado ativista, um governante determinado e cansado das diferenças sociais, um empresário de sucesso na área do entretenimento, um músico ou artista feliz com sua produção, um esportista determinado, uma mãe ou um pai mais atencioso e presente, um amigo fiel, e um cara que se diverte e não se leva muito a sério, mesmo com todo sucesso que conquistou.

Resumindo, no caso um temos a culpa da escola que iludiu e esqueceu de preparar para a vida, no caso dois o mérito da escola que, sem saber, não interferiu na educação do aluno.

Felizmente e por incrível que também possa parecer, a maioria de nós faz parte do grupo dois, e no caso das crianças do grupo um, aquelas que sobreviveram à pressão e às cobranças, e se destacaram com sucesso, são aquelas que nasceram com um talento que só a natureza explica, e que a escola não conseguiu destruir.

Então fazer o quê? Infelizmente acredito que grandes mudanças na educação só irão acontecer a partir da formação das próximas gerações de professores, jovens atentos às deficiências do sistema arcaico em vigor; mas, enquanto isso não acontece, acredito que alguns já consideram mudanças em seus métodos de avaliação; o que é um bom começo e um grande alívio, não somente para a turma do grupo dois, mas especialmente para a turma do grupo um.