OPINIÃO

Mas e tudo aquilo que está por baixo?

19/05/2015 12:22 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02
PETER LEONE/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Não sou exatamente a pessoa indicada para falar do assunto. Aqueles que me conhecem sabem que sou notívaga, urbana e, para minha tristeza, pouco voltada para atividades físicas. Lamentável.

Quando perguntada sobre meus hobbies tenho a resposta na ponta da língua "botão, barulho e poluição", sem esses três não consigo me sentir à vontade. Triste. Portanto, repito, não estou intitulada à falar do assunto ao qual me proponho discursar, mas, por incrível que pareça foi ele quem me fez despertar de um sono profundo, um sono que me afastou da escrita, dos meus posts e de praticamente todas as mídias sócias, exceto aquelas que requerem somente imagens. E foi uma dessas imagens que me chamou para a seguinte constatação e reflexão, como sugeriria Kant ao despertar da sua própria inatividade intelectual.

As ciclovias de São Paulo são a mais perfeita tradução e síntese daquilo que é a saga do Brasil desde os tempos de seu descobrimento; uma camada de tinta que pretende encobrir o que está por baixo e contar uma história diferente.

Somos uma nação composta por camadas e mais camadas de tinta que buscam, cada uma à sua maneira, ocultar a realidade. Uma realidade desigual, onde o asfalto maltratado nos lembra das discrepâncias sociais que se escancaram diariamente e fingimos não ver. Tortuosa como os repetidos discursos políticos que nada fazem além de distrair nossa atenção da realidade dos fatos, esburacada como as falhas dos nossos poderes Executivos, Legislativos e Judiciários, e cheia de desvios como a corrupção que tomou conta das nossas instituições; uma realidade que repetidamente tem nos levado a percorrer caminhos que saem de lugar algum para chegar a lugar nenhum.

Não estou aqui querendo entrar no mérito da ciclovia, nem das suas benesses ou mazelas. Simplesmente faço aqui uma constatação, que, de nada adianta tingir o que está por baixo e tentar contar uma nova história. Assim como nossas ciclovias têm buracos, atalhos impróprios, desvios enganosos, obstáculos intransponíveis, o nosso caminho como País está igual. Reclamam do nosso pessimismo atual aqueles que querem tapar o buraco com a tinta. E o bem intencionado pintor, aquele chamado para pessoalmente colocar a mão na tinta, e o faz, ele mesmo tentando acreditar que embeleza a história, nos pede para pedalar com determinação, sem nos avisar dos perigos à frente. Diz que só o setor privado tem a força para de fato mudar a estrutura deste caminho.

Caro bem intencionado Ministro Levy, saiba que teremos que fazer o dobro do esforço, gastar a reserva de fôlego, para quem sabe chegarmos ao destino satisfeitos com a jornada. Mas dou lhe um crédito de confiança, pois a partir de outra constatação realizo que somos um time de ciclistas admiráveis.

Assim como a imagem da ciclovia me despertou, seus usuários me intrigam com sua força, determinação e acima de tudo sua aparente e repetida satisfação. O que uma boa camada de tinta não vem fazendo ao longo de séculos... Vamos continuar cobrindo de camadas aquilo que nos incomoda e assim vamos levando, ou melhor pedalando; quem sabe, no pior das hipóteses todos os caminhos levem a Roma, né, não?