OPINIÃO

Refugiados sírios: Eles ficam, mas no quartinho dos fundos

05/01/2016 19:16 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Anadolu Agency via Getty Images
LEBANON, BEIRUT - DECEMBER 31: A Syrian child one of those who have been forced to leave their homes because of the war in their country since 2011, stands outside a makeshift tent at the Al Hayat and Al Nour refugee camp in Cabal Lebanon region, Lebanon on December 31, 2015. As the weather cools down, Syrian refugees struggle to survive heavy winter conditions at the tent city. (Photo by Ratib Al Safadi/Anadolu Agency/Getty Images)

O Brasil é um país de braços abertos aos refugiados sírios, mas da boca para fora. Entre receber na plenitude, como se imagina num país feito de imigrantes, e investir no improviso de olho no marketing, infelizmente ficamos com a segunda alternativa.

Os atentados em Paris, somados aos vídeos de execuções do Estado Islâmico nos dão a medida do terror da guerra que leva milhões de cidadãos sírios a abandonar o que construíram em busca de recomeçar num lugar desconhecido.

É positiva a intenção de receber cidadãos que fogem da barbárie, como também são os protocolos firmados com a Organização das Nações Unidas e a legislação brasileira para refugiados. O problema é como se implementa. É difícil a vida cotidiana com documentos provisórios fornecidos pelo governo brasileiro, que não tem programa específico de acolhimento.

Há articulações do Conare, Comitê Nacional para Refugiados do Ministério da Justiça com Organizações Internacionais, Estados, Municípios e instituições que fornecem ajuda. Os que chegam ganham um cartão do SUS, as crianças podem frequentar escola e há permissão de trabalho.

Reconstrução da vida é uma ideia belíssima, mas depende de atos corriqueiros, como validar um diploma, alugar apartamento, abrir empresa, ter conta em banco, colocar um filho na faculdade. Para isso não há apoio. O estardalhaço das declarações de que o Brasil está aberto aos refugiados parece piada diante do mar de burocracia ao qual eles são atirados.

As autoridades brasileiras prorrogaram até 2017 a resolução que facilita a concessão de vistos de refugiados, e vários políticos anunciaram, como ato heroico, a inclusão de estrangeiros no Bolsa Família, o que nem novidade é.

A política de boas intenções é semelhante à promovida pelo vizinho Uruguai, que oferecia US$ 900 mensais aos refugiados sírios. Por falta de perspectiva de futuro, famílias acamparam em protesto na frente da sede do governo Uruguaio e uma reunião com representantes governamentais acabou em agressão física.

Nosso governo ainda não tem uma proposta para tornar efetivo o que está nos papéis e discursos. A elite política brasileira olha para os refugiados da mesma maneira como vê a camada mais pobre da nossa sociedade, como uma segunda classe de seres humanos, sem o direito de reivindicar qualquer espécie de dignidade que signifique viver fora do quarto dos fundos.

Nos debates acalorados das redes sociais, fala-se muito no "nós versus eles", a divisão apaixonada entre governo e oposição. Mas o "nós versus eles" mais arraigado é outro, o que reserva espaços exclusivos de existência para quem já está nos círculos mais beneficiados por dinheiro, prestígio e poder.

Raciocinamos na lógica do camarote. Aqueles que a ele chegam, alçados pela hereditariedade, vínculos sociais ou lampejos da sorte, teriam direito a tudo. Os que estão de fora precisam se contentar com as migalhas que os ocupantes do camarote jogam. O raciocínio é feito na lógica perversa de casa grande e senzala, que temos o dever histórico de combater.

Os braços abertos se cruzam para os refugiados que almejam o que nós desejamos para as nossas famílias. Eles podem ser "os refugiados", gente que nosso governo ajuda principalmente quando isso rende flashes. Não podem ser cidadãos ativos, que contribuem com a nossa sociedade, que constroem o futuro conosco, lado a lado. Eles não podem ser nós.

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