OPINIÃO

Prometeram a redução da maioridade penal, mas entregaram o Rei Herodes

31/07/2015 16:49 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Agência Brasil/Flickr
Relator da pec da maioridade, Laerte Bessa dá entrevista sobre o assunto (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Quando eu ganhei a última eleição, meu pai me disse, na frente de todo mundo, algo que me volta à cabeça todos os dias: o homem público acaba quando sua vaidade se torna maior que as causas que defende.

A declaração do relator do projeto que reduz a maioridade penal, defendendo que sejam impedidos de nascer os bebês que tenham propensão ao crime é um sintoma escancarado do câncer que está se espalhando no meio político: a arrogância de se achar acima do povo.

É bizarro imaginar que alguém realmente pense ser mais humano, ou ter mais valor como ser humano, que uma criança que, numa viagem de ficção científica, teria características genéticas de criminosa. Duvido que a população apoie esse tipo de ideia, que pisoteia o valor da vida, e de que todos fomos criados iguais, à imagem do Criador. Logo, a vida não deve apenas ser respeitada, ela tem que ser reverenciada. Aliás, isso sequer foi discutido.

A declaração exata do deputado, segundo o áudio divulgado pelo jornalista Bruce Douglas, do The Guardian, é: "Daqui uns 20 anos vão reduzir para 14 e vai baixando até chegar na barriga da mulher. Quando chegar na barriga da mulher, os cientistas já inventaram uma fórmula de descobrir antes do moleque nascer se ele já é criminoso perigoso e não vão deixar nascer."

O repórter perguntou três vezes ao deputado se ele estava brincando. Chegou a ligar de volta para confirmar e ouviu diferentes versões da mesma ideia, que remonta às práticas mais odiosas da história da humanidade.

Depois de dizer isso, Laerte Bessa (PR-DF), aparenta ser uma figura isolada, o único a defender esse desrespeito absurdo à vida humana e a se achar melhor que os outros. Mas será mesmo possível que ele tenha sido escolhido para relator sem que seus pares - inclusive os evangélicos - soubessem quais são as ideias dele? Um repórter descobriu em minutos de conversa.

A população tem um clamor legítimo por respostas para a criminalidade. O debate teve uma simplificação grotesca em torno da redução da maioridade penal e não faltou quem se aproveitasse da situação para promover a própria imagem na lógica do business do ódio, em que vingança é vendida como sinônimo de coragem.

Nesse caso específico, a discussão foi feita à sombra de uma lógica que parece ressuscitar o Rei Herodes. Numa das passagens bíblicas mais conhecidas, ao saber que o Messias havia nascido na cidade de Belém, algo que abalaria sua estrutura de poder, decidiu matar todos os meninos de menos de 2 anos de idade. Agora se fala em julgar e sentenciar no útero.

A declaração escancara o total descolamento das demandas reais das pessoas e a falta de limites a que o discurso político está se acostumando. Numa entrevista recente para a Revista Trip, o cineasta José Padilha, responsável por Tropa de Elite, disse que "o Brasil perdeu a sensibilidade para o absurdo".

Estamos diante do absurdo, dito e repetido com todas as letras. É hora de fazer o mea culpa e entregar à população o debate sério sobre criminalidade, violência, segurança e impunidade, com as soluções que são devidas há muito tempo. O mandato político é concedido com a finalidade de representar os cidadãos, não dá o direito a ninguém de querer brincar de ser "Deus".

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