OPINIÃO

O PSDB não pode sucumbir ao eleitoralismo e ser a escora de um governo hesitante e impopular

A reforma política é a única forma de se reatar a relação entre políticos e o cidadão brasileiro.

23/06/2017 15:35 -03 | Atualizado 23/06/2017 15:37 -03
Ueslei Marcelino / Reuters
O presidente Michel Temer, o senador Renan Calheiros e o senador afastado Aécio Neves em Brasília.

Em maio de 2016, o PSDB decidiu apoiar o atual governo, mas não sem antes apresentar uma carta-compromisso com princípios e valores que expunham claramente, em um de seus tópicos, a defesa do debate imediato sobre o parlamentarismo no Brasil.

Quem tem feito o chamamento pela coerência do partido, que leva a social-democracia no próprio nome e que dela tem se afastado, é o superintendente da Fundação FHC, Sergio Fausto.

Em artigo publicado pela Folha, ele diz: "A cobrança de coerência programática, incomum no Brasil, nos remete à origem do partido. (...) O PSDB nasceu parlamentarista".

No entanto, esse debate foi engavetado. E ataques frontais a conquistas sociais, garantidas na Constituição de 1988, foram ativados. Ou alguém aqui dirá que nas eleições de 2014 debateram-se alterações na Constituição?

A reforma trabalhista que o governo quer está sendo feita à luz de toda clareza? No campo das intenções, a livre negociação cria emprego ou é a produção econômica a responsável por gerar postos de trabalho?

Diminuir o custo da empresa não pode ter como contrapartida o rebaixamento de direitos do trabalhador. Enquanto isso, permanece engavetado o projeto de taxação sobre grandes fortunas, apresentado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Há mais de três décadas, Tancredo Neves dizia que "não pagaria a dívida externa com a fome do povo brasileiro". Tem político que prefere outras leituras de cabeceira.

É só tomar como base as alterações na Previdência Social, precedidas da aprovação da PEC do teto de gastos, que praticamente tornam proibitiva a aposentadoria, excluindo algumas bem-aventuradas categorias trabalhistas.

A pedra de toque de uma verdadeira e ampla mudança de que o Brasil precisa vem da reforma política. Com ela, desentorta-se uma penca de outras deformações: o tamanho da representação política dos Estados, a infidelidade partidária, o distorcido financiamento de campanha e a ausência de cláusula de barreira.

Voltando no tempo, Franco Montoro já pontificava: "somente a reforma política vai propiciar a reconciliação dos políticos com o cidadão brasileiro".

O PSDB não pode sucumbir ao "eleitoralismo" e precisa se perguntar por que aceita ser a escora da marquise de um governo hesitante e impopular, que foi capaz de criar um ministério sem mulheres, negros ou índios, mas com vários nomes citados na Lava Jato. E cujo presidente é de um partido que historicamente ganhou relevância por se alimentar de espaços institucionais.

Embora ainda seja tema de discussões, acredito que a eleição direta é a única forma de reconciliação com o povo. Como disse o arcebispo anglicano Desmond Tutu, "se você é neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor". Este é o momento de nos posicionarmos com clareza em favor da democracia.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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