OPINIÃO

A arte de nomear

05/02/2014 10:19 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

A cada dia que passa nos surpreendemos com os nomes com que são batizadas as crianças. Fugindo do tradicional repertório dos nomes luso-brasileiros, os pais se esmeram em criar nomes para seus rebentos, usando fartamente todas as letras do alfabeto, em arranjos de extrema criatividade e, diríamos, assustadores. Quando o esforço se resume a uma letrinha, a coisa ainda tem seu charme; e aí estou pensando nas Caterines, Marianes, casos bem banais, que proliferam, talvez com a intenção não consciente de afrancesar os nomes.

Mas a coisa ganha contornos mais complexos quando os nomes passam a ganhar variantes as mais estranhas: Kely, Kelly, Khely, Khelhy, Kheylhy, e haja criatividade! E as junções de sílabas aumentam as possibilidades: Kelyanne, Kelen, Keilissen, e o céu é o limite! As justificativas para tal costume quase paranoico de buscar novas grafias parece, por vezes, passar por sugestões de numerólogos -- lembremos, por exemplo, o caso de Jorge Benjor, clássica mudança por sugestão dessa pseudo-ciência. Mas, nas maiorias das vezes, ficamos com a impressão que se tornou "chique" colocar o máximo possível de k, y, w e h no nome, sabe-se lá a razão. Tais letras em excesso comprovariam, talvez, um sonho de ascensão social, pelo estabelecimento de nomes diferenciados.

O que poucos sabem, no entanto, é que a necessidade de nomear as pessoas tem uma história, e que as preferências também se alteravam com o tempo. Em minha atividade enquanto historiador, deparo-me, nos velhos documentos dos séculos 18 e 19, com uma variedade de nomes que, aos ouvidos contemporâneos, soariam estranhíssimos: Pulquéria, Escolástica, Ermenegilda, Eufêmia, Genoveva, Generosa, Celidonea, Euquéria, Inocência, Policena, Umbelina. Exóticos o suficiente para não serem reconhecidos pelo corretor de texto deste meu computador, que insiste em colocar linhas vermelhas sob cada uma.

Mas, ao contrário dos nomes atuais, os de outrora tinham uma justificativa histórica: geralmente eram extraídos de nomes de santas, ou de personagens bíblicas. Eram, por certo, nomes excepcionais, uma vez que a grande maioria das mulheres eram nomeadas dentro da velha tradição e de um repertório bastante exíguo -- Marias, Anas, Joaquinas, Franciscas, Antonias, Joanas. Havia, ainda, grandes variantes de inspiração religiosa sustentadas, principalmente, no nome Maria: sobravam as Marias da Assunção, da Anunciação, da Apresentação, da Encarnação, da Ressurreição, do Ó e das Dores.

Toda esse costume de nomeação variava, evidentemente, com o tempo, mas em ritmos muito mais lentos que os verificados hoje. As novelas, a internet e mesmo o futebol (quantos Neymars terão nascido por aí...) representam, de maneira bastante clara, instrumentos de difusão de modismos, criando gerações de jovens com nomes em comum. Enquanto professor universitário, divirto-me em acompanhar, através das listas de presença, a progressão desses modismos. Lembro-me, por exemplo, de uma turma de cerca de 70 alunos onde havia oito Felipes!

Outra história têm os sobrenomes. Transmitidos de pais para filhos, parece, aos olhos do incauto, uma prática imemorial. Ledo engano: no mundo luso-brasileiro, os nomes de família regulamente transmitidos têm uma origem extremamente recente, praticamente datando do século 19. Até então, embora todos os indivíduos livres tivessem obrigatoriamente sobrenomes, estes não eram transmitidos entre as gerações. Assim, uma pessoa com sobrenome Oliveira nomeava seus filhos livremente, escolhendo variados sobrenomes: um Silva aqui, um Leme acolá, um Pereira no filho seguinte, e assim por diante. Tal liberdade origina-se do costume de se escolher sobrenomes em homenagem a parentes, a padrinhos ou a figuras importantes da sociedade. E também da prática comum de se batizar um bebê simplesmente com seu prenome. Assim, o sobrenome era escolhido a posteriori, e podia até mesmo ser alterado ao longo da vida. Claro, vivíamos em sociedades rurais, muito diminutas, em que era mais fácil reconhecer os vizinhos, o nome bastava, essa era a Maria, esposa do João, aquela era a Ana, filha do Antonio. A falta de importância dos nomes de família tinha seu ápice nas situações em que pessoas eram identificadas como José de Tal, Maria de Tal. Pior do que isso, somente os escravos, presos também a uma diversidade bastante restrita de nomes, e sem sobrenomes, que precisavam recorrer a apelidos para serem diferenciados entre si: João Angola, João Crioulo, João Sargento, João Pequeno, João Manco, todos vivendo na mesma senzala. Um senhor de escravos informava, em certo documento, que comprara e nomeara cinco cativos: "João, João, João, José e José"; se não recebessem os inevitáveis apelidos, o caos estaria instalado.

A consolidação de regras de transmissão de sobrenomes começa, em princípios do século 19, pela elite agrária: preocupada em identificar claramente quem eram seus filhos, herdeiros de grandes patrimônios, tratam de garantir com clareza, pelo nome de família, que aquelas pessoas não eram umas quaisquer, mas sim filhas de alguém de distinção social, facilmente identificáveis pela simples menção ao sobrenome imponente. Nos tempos atuais, a transmissão dos nomes de família se generalizou e tornou-se regra. Em oposição, os prenomes tornaram-se objeto de, diríamos, uma autêntica experimentação. Qual será o limite da invencionice?