OPINIÃO

Somos todos imigrantes

07/09/2015 13:55 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02
Arquivo/Estadão Conteúdo

Sou filha de um país pacífico, mas também sou filha da guerra. O Brasil acolheu meu avô, nascido em Atenas, filho de imigrantes italianos, casado com uma grega otomana, que um dia fugiu da Turquia, cruzando a mesma região que encerrou precocemente a vida de Aylan Kurdi - o menino sírio de 3 anos que esta semana se tornou o filho perdido de cada um de nós.

O pai de Aylan, o sírio Abdullah, queria levar a família para o Canadá, onde vive sua irmã. Meu avó vinha para o Brasil, trazendo minha mãe, meses após sobreviverem à Segunda Guerra. Tinha um irmão no Rio de Janeiro e promessas de vida e recomeço por lá.

Enquanto seguimos acreditando que as dores do mundo são dores de países seremos cúmplices de uma ordem que determina que cada indivíduo pertence ao seu território e, por azar, nele deve permanecer não obstante a violência física e psíquica à qual esteja sendo submetido. Seremos cúmplices de desumanos que exploram o desespero de famílias, oferecendo transportes inseguros a preços ultrajantes. Seremos cúmplices da sede, da fome, de histórias interrompidas. E, ainda, acabaremos cúmplices do Estado Islâmico, que não cessará diante de fronteiras.

Sou e sempre serei imigrante - no Brasil, na Grécia, na Itália. Porque todos o somos. E se sobrevivemos devemos ter gratidão à força de nossos antepassados, às fronteiras que eventualmente se abriram e, em especial, a povos que abraçaram estrangeiros sabendo que acima de idiomas está a comunicação, acima de religiões está a fé e acima de nações está o humano.

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