OPINIÃO

Quando o câncer bate à porta pela segunda vez

27/10/2015 11:34 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Alain Bachellier/Flickr

O que você faz quando descobre que tem câncer? Que tem câncer pela segunda vez? Se eu representasse o trabalho da brilhante psiquiatra americana Elizabeth Kübler-Ross, seguiria as etapas negação, raiva, barganha, depressão, aceitação.

Mas, não eu.

Do dia 14 de outubro, quando a ameaça tomou forma e eu deixei o consultório do oncologista com um pedido de internação de urgência, ao dia 20, quando recebi meu psiquiatra em casa após um pedido de socorro, vivi muita aceitação, muito sono, muita tristeza. Fui da iluminação à escuridão insuportável. Naquela semana eu morri, posso assegurar.

Eis que meu médico se senta na sala da minha casa, pede um copo d'água e diz: "Todos nós vamos morrer. Só não sabemos ainda o quanto estamos próximos desse dia. E você também não sabe. Agora, você está viva, isso é o que sabemos". E ele não para de dizer aquilo que busco, verdades. "Carla, todos os dias brincamos de faz-de-conta, dizemos a nós mesmos: hoje eu não vou morrer".

Um diagnóstico severo nos atualiza, nos lembra - a nós e àqueles que nos amam - da finitude daquilo que conhecemos. Somos seres tão curiosos que somos destruídos por uma das poucas certezas que temos da vida, a morte. Como disse a uma amiga: na próxima vida me encontre na Ouvidoria, estarei lá com uma lista de queixas, foram péssimos esses administradores da existência.

Onde se coloca a vida que não vai acontecer enquanto eu estiver no campo de batalha? Onde eu guardo o pacote pago da academia, a passagem comprada para a França, os louros dos meus últimos trabalhos? Faço-os esperar um ano, se for simples, ou para sempre, se não for? O que faço com o entusiasmo que movia um corpo que se acreditava saudável?

"E quem lhe disse para parar? Seu oncologista lhe mandou parar?", inquire o psiquiatra. A bem da verdade, não. Ele me recomendou que não treinasse, que não bebesse e que não exagerasse nos programas noturnos. "Sei da transição que fez para que sua vida estivesse alinhada à sua essência. Se não tivesse feito isso, diria para fazê-lo imediatamente. Como já fez, peço que retorne à sua vida. Já".

"Sabe por que dizemos 'fica com Deus'? Porque Deus, independente de religião e dogmas, é a fonte criadora. E ela está dentro de nós". Quando ele saiu, sentei para escrever.