OPINIÃO

Anfitriãs da civilização

12/02/2014 14:35 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02
Ale Kalko

Foi o designer americano C.H. Crawford (autor do livro "Carfree Cities") que disse que, "se as cidades são o berço da civilização, as ruas são suas anfitriãs". E é delas que vamos falar aqui no pedacinho que me cabe nesta tribuna virtual. Vamos falar, mais precisamente, de como usamos as ruas -- aqui em São Paulo, lá em Berlim e até onde a vista (também conhecida como internet) alcançar.

E começo falando de festa, que é o jeito mais simpático de ocupar espaços públicos. Nós temos carnaval de rua, Virada Cultural, quermesses. Os americanos transformaram as festinhas de quarteirão (block parties) nos eventos mais disputados do verão. Os holandeses, cujas casas e apartamentos se abrem para as ruas em enormes janelas, levam a mesa de jantar para a calçada nos dias quentes. Os portenhos, que moram a 400 km da praia mais próxima, levam cadeiras e cangas para a praça e ali se esticam ao sol, de biquini, sunga -- e chimarrão gelado na mão.

Daqui até o carnaval, os fins de semana paulistanos estão tomados por festas de rua. Há uma intensa programação de bloquinhos de carnaval. O SP na Rua, inicialmente previsto para o fim de semana do aniversário da cidade, vai varar a madrugada do dia 9 de fevereiro com festinhas pelo centro velho. Essa agenda cheia, os rumores de que a Virada Cultural (marcada para os dias 13 e 14 de maio) poderia ser adiada por questões de segurança e o sensacional show surpresa que Marcelo Jeneci armou numa praça no dia 26 de janeiro me lembraram de uma palestra que o americano Clay Shirky fez num TED de 2005 sobre instituições versus colaboração.

O ponto central da palestra é sobre como indivíduos atuando de forma colaborativa irão, paulatinamente, ganhar importância em relação a grupos fechados e empresas ou instituições. "Ao dar aos indivíduos uma habilidade que antes era institucionalizada, você substitui planejamento por coordenação, você flexibiliza, evita as limitações inevitavelmente trazidas pela institucionalização", diz Shirky. Um dos exemplos que ele cita são as tags do Flickr. A catalogação que tradicionalmente seria realizada por um especialista, um tipo de bibliotecário, foi delegada para os próprios usuários do sistema. E o tal show na praça do Marcelo Jeneci é outro belo exemplo disso, aplicado à ocupação das ruas com festa.

Marcelo Jeneci, show-surpresa em SP

Conversei por telefone com Jeneci e com a namorada dele, Isabel Lenza, para saber mais sobre a história. "No sábado do aniversário de São Paulo, estávamos de bobeira em casa, falando sobre atitudes loucas que fazem sentido, quando perguntei para o Marcelo por que ele não estava tocando em um dos shows pela cidade", conta Isabel. "Você acha que vou ser muito louco se armar um 'PAzinho' na praça?", respondeu ele. E foi então que os dois se puseram a telefonar para a banda e para os amigos, para armar um show, de graça, na Praça Olavo Sabino, no Alto de Pinheiros.

E, orientados por um amigo advogado, foram à delegacia responsável pela região com um ofício para registrar um aviso sobre o evento. É que, segundo o artigo 5o inciso XVI da Constituição, reuniões pacíficas em locais abertos ao público não dependem de autorização, podendo ser realizados apenas mediante um aviso prévio. Depois de ser reconhecido pela delegada e de finalizada a parte burocrática da história, Marcelo e Isabel seguiram com os preparativos. Publicaram no Facebook do músico um aviso sobre o show. Compraram sacos de lixo para que o público ajudasse a deixar a praça limpa ao final do evento, aceitaram a oferta de duas amigas que queriam decorar as árvores e o pedaço usado como palco com flores de crepon...

Foi só perto da meia-noite que conseguiram alugar o gerador e o equipamento de som. E, menos de 24 horas depois da ideia, reuniram cerca de mil pessoas entre os eucaliptos, num show não-oficial. "A gente graciosamente se aliou com uma vontade coletiva", diz Jeneci. "Só aconteceu porque muita gente quis e tinha a convicção de que estava fazendo algo legal pela cidade." Jeneci diz que pretende fazer mais shows assim ao longo do ano, Brasil afora.

Eventos de menor proporção, como festas de aniversário, já foram realizados em praças e até no Minhocão. Fica aqui a torcida para que pais troquem os pasteurizados (e caríssimos) bufês por comemorações ao ar livre. E para que mais músicos decidam dar presentes-surpresa para a cidade. A segurança das pessoas é uma questão? Sem dúvida. Mas não há perigo maior do que rua vazia. Uma anfitriã, afinal, só existe quando está recebendo pessoas ;)