OPINIÃO

Marcio Elvis: os comezinhos de um rei

12/04/2016 17:56 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Reprodução/Facebook/ElvisMarcio

Eu dei este título, Marcio Elvis, porque para mim o Marcio vem antes, por ordem de interesse. Ele estranha quando o chamo pelo nome.

"O mundo de Elvis é elegante, topete, gola alta, roupas lindas. É como sair de uma pessoa do mundo comum e virar um super herói. Depois que tive a alegria e a felicidade de Deus e o Elvis me escolherem para ser o Elvis da Paulista, não curto mais minhas fotos de Marcio. Prefiro ser Elvis."

No perfil do Facebook a ordem aparece por interesse dele: Elvis Marcio.

Entrevistá-lo não é fácil. Mas parecia, no começo. Você faz uma pergunta, ele responde dez. O lead vem pronto nos primeiros minutos. Parece treinado. E é. Já deu tantas entrevistas que perdeu a conta. Entender os meandros de seu gênio e de seu cotidiano, no entanto, não é para qualquer um.

- A que horas você acorda?

- Varia.

- A que horas costuma ir dormir?

- Depende.

- Você vai continuar fazendo o Elvis?

- Talvez.

- Onde você aprendeu essas coisas?

- Isso daí eu não posso falar...

A primeira vez que me aproximei para conversar ele se mostrou muito receptivo, carismático e me perguntou qual música do Elvis eu gostava mais. Subitamente todos os nomes do repertório desapareceram da minha memória. Deve ter sido a emoção.

- Sweet Caroline - respondi. Depois tive raiva de mim. Deveria ter pedido Bridge Over Troubled Water. Tudo bem. No meio da música ele deu um jeito de encaixar "Sweet Camila". Depois me contou que na matéria da revista Veja o repórter disse que a Paulista tem seus típicos: hare krishnas, ONGs pedindo doações e o Elvis sempre cantando a mesma música - Sweet Caroline.

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Uma busca rápida na internet mostra que a citação da Veja é só a ponta do iceberg. Folha, UOL, Globo, Record, BOL, Gazeta, Band, Rede TV, NGT se renderam ao cover. Foi tema de documentário. A infância reprimida, as dificuldades da rua, o começo na São Silvestre, tudo estava dito. O que faltava contar sobre o Elvis da Paulista?

Na segunda vez que nos encontramos, cheguei 20 minutos atrasada. Ele me ligou 3 minutos após o combinado para dizer "estou no lugar combinado desde a hora marcada. Com um cap, para você me reconhecer". Eu o reconheceria em qualquer lugar, principalmente no local e horário marcado comigo, debaixo da chuva de uma sexta-feira em horário de pico.

Corri pelas ruas como quem foge, com medo de que ele desistisse de mim. O achei tranquilo, apoiado num pilar, com o supracitado cap estilo policial e um Ray-Ban, ao som da flauta de pã saindo dos autofalantes em meio aos artesanatos hippies à mostra no chão. Depois do projeto Paulista Aberta - iniciativa da prefeitura da cidade, citada como inspiradora pelo ArchDaily na categoria comprometimento urbano de 2015 - a avenida parece mais popular e acessível. A presença dos ternos foi relativizada pelos vestidos, bermudas e comércio alternativo. Um cenário mais simpático ao verão no sudeste.

Pensei que a conversa seria longa e reservei duas horas. Levamos quatro. Ao final, estava um pouco atordoada, bastante faminta e atrasada para outros compromissos. Nos despedimos cinco vezes e o assunto sempre reaquecia. Marcio emenda temas, é enérgico, entusiástico, capaz de muitas afirmações, poucas que o levam a se comprometer com uma narrativa pessoal. Ele mesmo diz que sabe o que dizer para cada tipo de mídia. "Procuro fazer resumos e ser mais engraçado para a TV. Para site a coisa é mais livre e longa. Pode falar o que você quer saber."

Eu queria saber tudo o que ninguém mais soubesse ou suspeitasse, o que ele não havia contado em nenhuma das centenas de entrevistas que já deve ter dado na vida. Eu queria saber o que o Marcio fez consigo mesmo em 42 anos de vida. Nesta altura, são apenas 3 como Elvis. E o resto? Ele me enreda no comum. Eu tento escapar. Mas reger a entrevista com ele é como tentar se manter em cima de um touro selvagem. Ele te conduz. Ele manda. Ele interrompe. Você faz a pergunta até a metade. Ele pressupõe o resto e vai te entregando. Tergiversa quando sente que você avançou. Conta o que ele quer que você conte.

Ele quer que você saiba

Que ele é cogitado para as vagas de: político, namorado, michê, vocalista de outras bandas, palhaço, cantor sertanejo, filho adotivo, eventos sociais particulares, públicos, destaques em programas de auditório, reportagens jornalísticas, lavagem de dinheiro, pai dos filhos dela, novo marido da viúva que ninguém quis. Algumas coisas ele aceita. Muitas não.

Que estuda muito para imitar o Elvis e nunca será perfeito. Ninguém nunca será perfeito. Apenas o próprio Elvis era o perfeito Elvis. Mas ele quer que você saiba que ele se esforça, ouve as músicas infinitamente, aprendeu a falar o inglês necessário com sotaque do Mississipi para memorizar cada canção na pronúncia curva e sincopada do Presley original. Que o nome dele é Marcio Henrique de Aguiar, já encarnou mais de 30 personagens como imitador - Raul Seixas e Dinho Ouro Preto entre os principais - e se encontrou no rei do rock na São Silvestre de 2012. Começou uma faculdade de artes cênicas e abandonou no final do primeiro semestre porque se indispôs com o professor que lhe roubou uma ideia de cena para uma montagem de Nelson Rodrigues. É importante que você saiba também que o conhecimento que ele tem vem da vida e das ruas. E da Arte da Guerra (Sun Tzu) e d'O Príncipe (Maquiavel), em versões muito boas de tradução adequada. Biblioteca privilegiada.

De fato, quando sentei pra conversar com o "artista urbano" (ele me ensinou que o termo correto é este), não esperava ouvir citações de Stanislavski, Rousseau, Salomão, crítica de política, arte, elaborações sobre a estratégia necessária para sobreviver fazendo da rua um palco ou detalhes da vida íntima de Elvis. "Três anos de estudo todos os dias. Tem muita consistência isso daí que eu tô te passando." Tem mesmo. Ele fala com convicção, cita fontes, nomes de filmes, reproduz as falas de memória. Na sala de casa, almofadas, quadros e objetos com o rosto de Elvis, o rosto de Jesus e uma imagem de um cirurgião operando sob a vigilância de um espírito de luz.

O quarto de Marcio é um retrato de seu universo, de suas inspirações cotidianas. Paro para olhar atentamente os pôsters na parede. Ele me ajuda dando referências sobre a data aproximada de cada imagem, idade de Elvis, momento da carreira, peso e a escolha pelas costeletas. "O Elvis era caipira, caipiraço. Por isso as costeletas. Às vezes o cara que faz cover tem aquele rosto gordão, pra ele cola uma que vem até aqui. Para um rosto mais fininho já não cola tanto. Ah, mas o Elvis usou uma até aqui. Mas assim ele estava com 122 quilos. Aqui ele tava com 69."

Detalhes. Marcio é detalhista, obstinado, dedicado, perfeccionista. A estante mostra os óculos escuros em ordem, é possível visualizar um a um. Fica fácil escolher. As roupas do Elvis tem um canto separado no armário, penduradas em cabides. Destoa do resto da casa. Ele pede para eu não reparar na bagunça assim que entro. Não reparo. Mas ele sim. Demonstra um ligeiro incômodo com as estatuazinhas de gatinhos, flores artificiais, livros, roupas e pequenos enfeites que ocupam toda a mesa de jantar, as estantes, a mesa de centro. "A minha mãe é uma pessoa maravilhosa, mas é que ela gosta muito de objetos. Por mim eu teria menos objetos."

Entre as coisas sobre as quais eles devem concordar, certamente estão os motivos religiosos. No quarto dele, o Evangelho Segundo o Espiritismo, impressos de Chico Xavier e a Bíblia aberta no Provérbio 10, primeira compilação de Salomão, a quem ele cita na primeira, segunda e terceira conversa que tivemos: "O rei Salomão falou que quanto mais livros você lê, mais amargo você vai se sentir. Quanto mais você entender como o ser humano é, mais triste você vai ser. Só existe uma felicidade, segundo ele. Se naquilo que você ganha o pão, cê ama aquilo."

Parece simples, mas é um luxo. Eu mesma sinto uma espécie de gratidão despeitada pelos chefes que me despediram na vida. Marcio não se dá ao trabalho. Arrisca sair de Araxá, no triângulo mineiro, e ir pra São Paulo, não sem antes gastar todo e cada centavo que acumulou trabalhando no teatro de um hotel cinco estrelas. Dormiu na Sé, morou em um túmulo, passou fome, começou a cantar com um violão por aí. Em frente ao Charme da Paulista (lanchonete), as pessoas faziam sempre o pedidinho: "toca Raul!". Com uma barba de R$ 2,50 da 25 de Março e o primeiro Ray-Ban falso, ele começou a juntar dinheiro. Saiu das ruas para um quarto de pensão e de lá para um condomínio na região do Jardim Paulista. Em seis meses.

Seis meses.

É difícil compreender os caminhos que levaram Marcio a ser Elvis e, sobretudo, o que levou o Elvis Marcio a ser o Elvis da Paulista, que cantou para 50 mil pessoas no show da FIFA Fan Fest, na Copa do Mundo de 2014, no Vale do Anhangabaú, em São Paulo. Lembrando que a programação contou com nomes como Luan Santana, Cláudia Leitte, Raça Negra e Capital Inicial.

Pormenores de Elvis - ele teria se separado de Priscila porque não conseguia fazer sexo com mulheres que pariram - escorregam em profusão no discurso de Marcio. Na vida dele próprio, no entanto, parece haver vários capítulos de "deixa pra lá", "vamos pular essa parte", "isso eu não vou te dizer, sabe porquê? As coisas legais cê pode falar pro jornalista. Tudo quanto é coisa que dê problema, você não pode falar. Se for verdade, na íntegra já dá problema. A gente tem que colocar nas matérias sempre o que pode ser mérito pra gente ou que pode evoluir a coisa."

Evolução da coisa

Evitando julgar os pais e com delicadeza, Marcio procura ser sucinto ao falar da infância e poupa detalhes que podem desfavorecer os progenitores. Apenas me conta que, frequentadores da Igreja Adventista, eram rigorosos, restringiam suas atividades artísticas às possibilidades religiosas e aplicavam castigos físicos quando o menino cheio de energia fugia para jogar futebol, até que começou a cantar numa dupla sertaneja. As máximas - Elvis é do Satanás, só se pode cantar hinos, no céu vai ter um rio de iogurte esperando pelos fiéis, no sábado não pode trabalhar - são solenemente ignoradas. Há seis anos ele não visita a cidade onde cresceu nem vê os familiares. O contato é pelas redes sociais, "com mensagenzinhas de eu te amo e tudo. Só que se juntar, não vai dar certo".

Mas se a família está em Minas, quem é a mãe com quem ele mora? "É uma mãe adotiva. Ela me adotou aos 36 anos." Diante da minha estranheza ele ressalta ser uma prática incomum, mas bastante honesta. "É como uma mãe mesmo. No prédio o pessoal sabe que é igual mãe, depois de anos eles viram que é."

O prédio, numa região nobre e privilegiadamente próximo da avenida que lhe serve de palco, há um caminho de ráfias desidratas e de aspecto esquecido que conduzem o visitante até os elevadores. Na porta do apartamento Pitusha é a primeira a me receber, a cachorrinha Teckel baia da mãe adotiva de Marcio, cujo nome não me foi dado saber. Tento várias vezes falar sobre a mulher que o oferece um lar generosamente. Ele insiste que ela é absolutamente avessa à mídia e jamais aceitou falar com ninguém da imprensa. Marcio se refere a ela com extrema gratidão, respeito, afeto, lealdade e outros sintomas de amor. Ágape. Apenas raramente me dá pistas de um ou outro desconforto.

"Aqui é o banheiro da Pitusha (em mensagem, o nome foi grafado por ele desta maneira). É um quarto, mas ninguém pode fazer nada aqui. Se eu quiser fazer um estúdio, vamos supor, não pode."

Há xixi no chão e Pitusha mastiga coisas com ar de satisfeita enquanto nos segue. Paramos para conversar no quarto, ele vai me mostrando os figurinos e os dispondo sobre a cama. Pitusha pisoteia as roupas alegremente sem ser censurada e segue encontrando uma esponjinha ou adereço para exercitar as mandíbulas.

Marcio faz carinho em sua barriga e pergunta se eu me importaria se ele ligasse o ventilador. Digo que não. Ele direciona o vento de frente para nós e o aproxima, num pedestal que o deixa na exata altura para um efeito de clipe da Mariah Carey, fazendo meu cabelo esvoaçar. Eu me sento com tempo para ouvi-lo falar infinitamente.

Ele se senta comigo, mas seus movimentos vão sempre num crescendo. Ele fala cada vez mais alto, gesticula os pulsos em movimentos giratórios, cruza e descruza as pernas, desiste e fica de pé, apropria-se do espaço, amplia seu próprio corpo e usa de todo a extensão de seus braços abertos.

Várias fontes citam o Presley original como um homem alto, mas seu comprimento de fato é impreciso, algo em torno de 1,80m, talvez um pouco mais. Marcio tem 1,70m, mas seu dinamismo ocupa lugar, sua capacidade expressiva o faz parecer maior. Não me admira que ele tenha escolhido viver Elvis Presley em seu domínio artístico, a quem citam como o ser humano mais fotografado, a segunda figura mais reproduzida, logo atrás de Mickey Mouse.

A estatura física não traduz a ambição de Marcio e a grandiosidade com que ele vê a si próprio.

"Eu faço o que quiser com a roupa de Elvis, ele é uma fonte, uma referência. Eu sou um filho, uma sequência de Elvis. Igual Jesus da tribo de Davi. Mas eu não sou Elvis, sou um parente, sou um Presley. (Neste momento, soa o alarme de mensagem no celular. Ele não se interrompe.) Mas eu faço o que eu quiser. Como ele fazia. Se eu não fizer o que quiser, não sou um descendente de Elvis."

Marcio de fato vive o personagem. Acorda Elvis, toma banho Elvis, vai às compras Elvis, dorme Elvis. Vamos comer alguma coisa na padaria da frente. À porta, o atendente grita lá do fundo: "A lá o Elvis!". Marcio acena com a mão.

- O que você vai querer hoje, Elvis?

- Me vê uma dose daquele rum? Aquele. E Coca-Cola.

Seu amigo, Rafael Riberio de Oliveira, 39 anos, dono de uma rede de restaurantes na Bela Vista, também se refere a ele como Elvis.

- Você já viu o cabelo do Marcio sem gel? Sabe como é?

- Ah, é mesmo! É Marcio o nome dele, né? Eu esqueço. Só chamo de Elvis. Não... não me lembro de ter visto o cabelo dele não...

- Mas vocês não foram viajar juntos? Não se hospedaram para os shows?

- Ele só aparecia na nossa frente de cabelo arrumado, de Elvis sempre.

- Piscina?

- Nunca.

- E a mãe dele?

- Ele fala dela com carinho, mas nunca a vi. Uma vez tentei alugar um imóvel para abrir mais um restaurante na região e entrei em contato com a imobiliária. A conversa estava avançando, mas de repente a dona se arrependeu e não fechou negócio. Depois o Elvis veio falar comigo, disse que o imóvel é da mãe adotiva dele e que ela não gostou quando soube que seria um restaurante. Parece que ela tem alguma crença e não come carne vermelha nem bebe álcool. Então não queria esse tipo de comércio no local.

Rafael passava diariamente pela Paulista e via Marcio tocando violão no vão do Masp, com roupas comuns. Após um período de sumiço, encontrou o cantor como Elvis e o convidou para almoçar em um de seus restaurantes. Já se conhecem há 4 anos. Marcio foi adotado em 2010 pela mulher que o conheceu de maneira semelhante, tocando nas ruas, passando dificuldades.

Existe uma conexão entre a necessidade de expansão, autoconfiança e expressividade de Marcio e sua grande capacidade de se colocar em situações extremas e atravessar adversidades buscando obsessivamente a superação. Enquanto que "para um jornalista não se deve dizer tudo", ao mesmo tempo me entrega seus dissabores com desprendimento. Ele me conta que já fazia personagens há anos quando ganhou da mãe adotiva uma roupa barata de Elvis e decidiu correr a São Silvestre com ela. Diante do enorme sucesso que fazia pelo caminho, quis aproveitar ao máximo o chamariz. O que era para ser brincadeira o levou a se arrastar debaixo de chuva por todo o percurso da corrida, mesmo sem nenhum preparo físico para a façanha.

"O helicóptero me pegou... Elvis, Elvis, Elvis! E eu empolguei com aquilo e corri muito mais ainda. Elvis! Elvis! Todo mundo esperando para ver o Elvis passar. Falei nossa... É muito gostoso, cara, é um negócio assim que... Elvis, Elvis, Elvis... Aí começou a chegar numa área de comunidades mais pobres aonde o pessoal começa a pedir seus óculos, seu violão, seu tudo. E depois passa daquilo, eu chego no centro antigo. Foi muito legal, cara, se eu tivesse várias perucas eu doaria praquela galera, se um dia eu tiver dinheiro vou lá e doou um tanto de óculos, mas só tinha aquele, né? Tinha que chegar inteiro lá. E aí entrava água no violão, eu jogava pra fora. Bom, acabou o glamour, vem a chuva torrencial. Na metade da prova acabou meu pique total. Quando cheguei ali na Brigadeiro, que descia pro Ibirapuera, tentei rolar igual o Chaves no barril. Não tinha forças nem pra sair do lugar. Isso já era de noite. Às sete e meia - os piores já tinham terminado uma hora da tarde - apareceram dois caras, dos mais obesos que eu já vi na vida. Nós chegando lá e eu com medo daqueles caras caírem em cima de mim. Conseguimos alcançar a chegada com o pessoal já desligando os números e recolhendo tudo."

Em seu quarto, caminho em direção à estante e alcanço um volume de A Construção do Personagem, de Stanislavski. Na página 129, há um trecho grifado: "Como os atores podem deixar de perceber toda uma orquestra numa única frase, até mesmo numa frase simples, de sete palavras, como por exemplo, "Volte! Eu não posso viver sem você!"

As prisões de um homem livre

Aos poucos sinto que Marcio foi sendo soterrado. Marcio, do latim Marcius, o dedicado a Marte, deus romano da guerra. Curioso. Elvis, do antigo norueguês, Alviss, aquele que muito sabe, o autoriza, no sentido de que o investe da possibilidade de ser mais.

Inconformada, procuro pistas do que Marcio deixa para trás. Uma dupla sertaneja, por exemplo. Marcio grava CDs cantando músicas sertanejas, bregas e forrós com a entonação de Elvis, fazendo paródias, adaptando músicas, como no álbum "Forrocknrool" (grafia da capa do CD). Faz sucesso com suas jumpsuits ao som de Camaro Amarelo, rebolando como a Rita Cadilac em uma réplica da American Eagle. Ele jura que seus espectadores preferem um Elvis mais caricato e promete um lançamento revolucionário, além de sucessos como o próximo álbum "Elvis Safadão", em alusão a Wesley Safadão, quem canta algo entre sertanejo, forró, baladinha romântica e 1% vagabundo. Ainda assim, Marcio salienta que abandonou a dupla porque esse estilo não o satisfazia. "Eu não consigo conformar com essas músicas eu te amo, vou te matar, volta pra mim."

No caminho da inconformidade encontrou pessoas importantes, como o amigo a quem ele chama de "mestre". Pergunto sobre maçonaria. Ele nega fazer parte. Pressiono: "Mas já recebeu convite, com certeza." A confirmação entra na espiral do silêncio. Peço água e atravessamos a sala até a cozinha. "Prefere um suco de uva, Camila?" "Não. Água mesmo. Obrigada." Ele vai me contando sobre a dificuldade de lidar com o cotidiano de suas apresentações enquanto me serve um copo cheio de suco.

Derrama um pouco, ele limpa com o pano de prato que está ao alcance em cima da mesa, junto com uma profusão de pacotes de comida, notadamente massas. Diversos tipos de macarrão coloridos estão começados. "Se eu tivesse um funcionário que entregasse tudo na minha mão, nossa, eu já tava fazendo shows a nível de Las Vegas." As botas, particularmente, parecem tomar muito tempo de manutenção, porque furam em cima, as solas descolam, de vez em quando uma é inutilizada e precisa ser substituída por outra comprada no centro antigo da cidade. O chão xadrez, de linóleo, é encontrado no Brás. Marcio não tem carro. Quando se apresenta na avenida, carrega figurino, equipamento de som e materiais (CDs, cartazes, cartões, impressos) em um carrinho de bagagem. Para shows particulares o transporte é exigência na contratação. De vez em quando ainda sofre ameaças em disputa pelo espaço público, alguém que reclama do som, um raivoso gratuito, um crítico ferrenho.

Olho o varal. Roupas do Elvis ao lado de camisetas e calças jeans. Mais figurinos se acumulam sobre algo indistinguível. Ele pega para me mostrar como são grandes e difíceis de lavar, pela quantidade de pedrinhas e miçangas que compõem os desenhos e bordados. Pergunto se não é possível mandar a uma lavanderia, ao que ele responde exasperado e sem confiança: "E se enfiam isso numa máquina e estragam??? De jeito nenhum! Mas vira um inferno. Isso aqui foi do aniversário de São Paulo, até o suor do dia tá aqui. Vai virando o suor que parece de uma múmia. Tem tanta coisa aqui, menina, que cê nem sabe." O celular toca anunciando mensagens insistentemente. Fazendo shows para grandes empresas seria possível contratar alguém para o ajudar, do ponto de vista financeiro. Talvez alguém para atender os telefonemas e organizar sua agenda. Por outro lado, ele prefere negociar valores pessoalmente, que variam conforme sua disponibilidade, o tipo de apresentação, figurino, nível de exposição da festa, quantidade de público, dia da semana. São muitas variáveis.

O telefone toca novamente. Ele me mostra algumas mensagens. Muitas são palavras carinhosas de mulheres dizendo que ele "é uma luz na vida", "um anjo bom", "uma pessoa incrível, formidável". Pergunto como é administrar o assédio. Ele sorri ligeiramente vaidoso, assumindo em seguida um ar grave de quem se assusta. "E se a mulher for casada? Tiver alguém que a ame? Tenho que ser profissional." E me mostra manchas de batom nas golas das roupas que estão para lavar. "Cê vê, a roupa branquinha, pessoal beija mesmo. Vou dizer o quê? Sai pra lá? Não, né? Eu faço como o Elvis. Divirto as fãs." Com uma ou outra concessão, inclusive, para fãs especiais com quem ele se dá ao luxo de se divertir também. Sem compromisso, até hoje. Para si mesmo ele serve vinho. "Você está trabalhando. Eu posso."

Nas paredes há fotos de um rapaz jovem e magro sorrindo, cabelos cacheados escapando do boné, com um taco de bilhar nas mãos ao redor de uma mesa de sinuca. Pela janela do local se pode ver uma paisagem de vegetação farta. Já que a mãe adotiva acolheu outras pessoas em seus apartamentos anteriormente, o sujeito das fotos pode ser mais um artista. "Sou eu. Diferente, né?" Bastante. São Marcios no mesmo homem.

- Você é descendente de indígenas?

- Minha avó era, minha bisavó também. Segundo a minha avó, minha bisavó foi pega no laço. A história é tão antiga. Eu tinha até esquecido dessa parte. Quem tocou nisso pela primeira vez na minha vida foi você.

Quando ele diz isso, sinto um alívio. E me pergunto quem mais saberia que ele prefere três saquinhos de açúcar se o café for pequeno, que conversa com mortos de sua própria vida, mas que também aceitou conselhos da entidade do Coronel Parker.

Deu certo, porque entre as 10 dicas para curtir a Paulista no final de semana, o Estadão lista prédios, livros, parques. O Elvis da Paulista é o único ser humano recomendado. Talvez porque seja aquele raro entre nós que tem tanto amor pelo que faz que seu medo maior está vinculado à impossibilidade de apenas continuar o que é, fazer o que faz. Como seria um Elvis grisalho, com rugas, requebrar e pular dentro do ônibus na decadência física que o tempo impõe? Ele diz que não sabe, fica desalentado, cogita Frank Sinatra, não tem certeza. "Meus clientes vão me desculpar, as empresas, mas eu sou muito mais feliz fazendo o show da Paulista." Um ou outro cliente a perdoá-lo seriam, por exemplo, Chiquinho Scarpa e o presidente da Johnson & Johnson.

Prolongamos a conversa, a conta chega, eu pago o café dele e o meu suco de maçã com limão. Ele pede que eu o deixe pagar. Eu insisto. Vamos para outro lugar, a conversa continua. Ele me conta sobre as outras entrevistas que já deu:

"Geralmente as jornalistas não deixam a gente pagar. E se a gente paga elas ficam chateadas, não fica educado, então eu nem brigo. Teve uma para quem eu paguei e ela ainda virou a cara pra mim, duma revista aí. Mas suponhamos que a gente sai outro dia, com amigos, você é jornalista, a menina da Globo, da Record e que ali a conta fica em mil reais. Considerável. Você deu 250, a outra menina 250, o outro 250, 250 pra mim. Eu digo 'ô gente, cês vão me desculpar, mas... Não, nós sabemos, Elvis. Você é artista de rua.' Bom. Só que acabei de fazer shows grandes, em alguns dias aí ganhei uns quinze pau. Talvez mais do que a galera ali o mês inteiro. Quando vocês saem eu dou risada. Teria condição de pagar por todo mundo. Maquiavel falava 'gastai o dinheiro do próximo e guardai o seu, assim sereis grande homem. Matai os vossos inimigos e os vossos amigos também se for preciso'. Maquiavel desmascarou o formigueiro de selvagens ali no século XV, XVI. Pessoal que me vê na televisão acha que é só pôr uma roupa de Elvis e fazer qualquer coisa. Não é não. O Elvis da Paulista é muito além do que se vê."

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