OPINIÃO

Sobre ser um LGBT nordestino

05/11/2015 02:34 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Wavebreakmedia Ltd via Getty Images
Cork, Ireland

Piauí, Maranhão, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia. São nove estados que formam o Nordeste brasileiro. Dizem por aí que os LGBT dessas regiões têm em comum um estilo de vida muito peculiar. Vejamos...

Boa parte das pessoas LGBT que conheci no Nordeste, assim como eu, já foi embora de lá, mas também há alguns que ficaram e fizeram história.

Aqui falo da Kátia Tapety, militante dos direitos humanos, enfermeira, parteira e a primeira transexual a ser eleita para um cargo político no Brasil. Kátia virou até protagonista do filme Kátia de Karla Holanda, sobre a sua vida. Que exemplo!

Fui atrás de entrevistar algumas LGBT da região mais arretada do país e duas delas me deram relatos interessantes.

A primeira, Makelly Castro, me disse: "Sempre tive muito medo da família, principalmente, quando pensava em sair do armário".

Para Makelly, que nasceu em Teresina (PI) e hoje também vive fora do Nordeste, os amigos e as outras pessoas lhe causavam um certo receio.

"Eram laços afetivos muito fortes, até mesmo entre colegas da escola, pessoas com quem até hoje nutro amizades.", disse.

Aquelas tias e tios que gostavam de fixar guaritas nas calçadas às 16h, todos os dias, também a deixavam com muito receio.

Hoje ela considera que o fato de não conhecer melhor os seus vizinhos em Brasília não quer dizer que eles a respeitem. Pode ser simplesmente que fingem na sua frente que não percebem a presença dela.

Minha outra entrevistada, Savana Vogue, relatou-me que sente em Teresina, cidade onde vive, uma forte cultura interiorana que fomenta um fechamento das pessoas para o novo, para o que foge ao tradicional.

Savana me contou que ela e os amigos se encontram para socializar entre três e quatro vezes por semana, pois a cultura e entretenimento inclusivos na cidade são escassos, mas ela vê como positivo o fato de os encontrar tanto.

"As relações são fortes e os LGBT são muito unidos", me disse. Ela não vê isso entre os LGBT dos estados mais ao sul do Brasil.

Savana nunca saiu do armário; "fui lindamente tirada de lá pelos meus pais", disse, lembrando que sempre temeu que eles a amassem menos, a partir do dia em que saísse de lá.

Mas ela foi amada sem imposições de condições.

Se você não é do Nordeste, certamente não está vendo muita novidade ou surpresa em ser um LGBT nordestino e realmente não tem. Você talvez tenha até passado por situações muito parecidas.

Eu, já há alguns anos fora do Nordeste, concluo que temos muito mais coisas em comum com todos do Brasil do que imaginamos.

Independentemente de onde tenhamos nascido, há algo que nos conecta: é o nosso algoz, o preconceito.

Esse tem somente uma cara, com o corpo vestido de muitas roupas, vestido até de direito à opinião. Com certidão de nascimento em diversos lugares, possui imunidade parlamentar, um único discurso, um mesmo sotaque e, reforço, uma mesma cara: a cara da desumanidade.

Uma cara horrível que mata. Mata em qualquer estado. Mata muito.

Uma cara que tira direitos, marginaliza, humilha e tira a dignidade das pessoas em qualquer lugar onde esteja presente.

Não importa se o preconceito está vestido como as tias da calçada ou como o vizinho aí de São Paulo, cujo nome você não sabe ou jamais o viu, mas que não toleraria te ver beijando alguém do mesmo sexo no elevador.

Tanto faz se somos chamados de "gays", "tchollys", "qualira", "frangos" ou "fags", onde quer que estejamos, somos todos um mesmo alvo de um mesmo algoz.

Makelly e Savana são mulheres transexuais que foram silenciadas por esse algoz no Piauí.

Onde quer que estejam, e não é mais no Nordeste, Norte ou Sul, elas e todos os milhares de LGBT mortos talvez estejam melhores do que nós, que ainda estamos distribuídos à disposição do nosso impune algoz.

Aos entrevistados que emprestaram suas histórias de alegrias e medos, abrindo mão do uso dos seus nomes para homenagear Makelly e Savana, muito obrigado!

À Kátia Tapety, também um muito obrigado pela sua história de coragem e muita luta.

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