OPINIÃO

A podridão do racismo, machismo e LGBTfobia mórmon

24/03/2016 17:37 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02
rubenedelrot/Flickr
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Um assunto me chamou muito a atenção nos últimos meses: a notícia de que a igreja mórmon não mais aceitará como membros pessoas que tenham famílias formadas por núcleos LGBT, a menos que, quando estes completarem 18 anos, declarem publicamente repúdio à sua família, saindo de dentro do lar que cresceram e não mais mantenham laços com os seus pais.

Um dos grandes sentimentos que impulsionaram a minha falta de testemunho na igreja mórmon, instituição da qual fui membro desde a tenra infância, acredite, não foi o de inadequação à filosofia deles por ser gay.

Quando me dei conta de que algo em mim não era condizente com tudo o que eu havia aprendido, comecei a pesquisar sobre a igreja que fazia parte e me deparei com uma situação ainda mais pesada. A mancha que inunda a história da igreja mórmon: o racismo e o machismo.

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias tem exatamente 185 anos de existência. Desses, há apenas 37 anos permite aos negros o direito ao sacerdócio, poder que é fundamental para que um homem seja, de fato, um membro ativo na igreja.

E sim, também só podem receber o sacerdócio mórmon os membros do sexo masculino. As mulheres somente são para eles o agente reprodutor, obrigado à caridade, virtude que eles utilizam muito bem como publicidade para atraírem fiéis.

No capítulo inicial da igreja, os homens brancos podiam inclusive ostentar 50, 60, 200, quantas mulheres o seu dinheiro lhes permitisse. Mais uma vez, sob a justificativa de caridade, para "cuidarem de mulheres que perderam seus maridos em guerras".

A legislação americana foi ficando rígida e cercando o racismo, proibindo o casamento poligâmico, e, de repente, o Deus que apareceu a um jovem de 17 anos (que posteriormente teve aproximadamente 52 esposas) e o instruiu a fundar a igreja, também apareceu aos líderes da igreja em outros momentos de revelações modernas, decretando o fim da poligamia em 1890 e a permissão divina para que os negros recebessem o sacerdócio mórmon a partir de 1978. Coincidência ou não, o congresso americano legislou entre 1964 e 1967 (apenas 10 anos antes), igualando os Direitos Civis dos americanos, independentemente da raça, colocando um fim no racismo institucionalizado.

A igreja mórmon oferece, até hoje, terapias de "cura gay", inclusive aqui no Brasil. O EverGreen, terapia deles de correção da orientação sexual, na qual fui submetido em São Paulo logo que me assumi gay para os líderes da igreja, conta com psicólogos, psiquiatras e líderes muito inteligentes, preparados para conduzirem, de forma cuidadosa e silenciosa, jovens LGBT à verdadeiras sessões de tortura psicológica.

Meses após me desvencilhar da "terapia", continuei recebendo e-mails da psicóloga que era responsável por mim no EverGreen, me cercando com ameaças divinas, até o dia em que acompanhado e aconselhado pelo meu companheiro à época, enviei-lhe como resposta aos e-mails, o código de ética da Psicologia. Ela sumiu.

Esse novo decreto mórmon, que incentiva pessoas a repudiarem suas famílias e cortarem laços com os mesmos, como condição inicial para fazerem parte da igreja, entra para a coleção de imundices na história da igreja, que tem como principal alicerce a família, e é uma oportunidade de descortinar a presença dessa religião no mundo.

Assumir-se LGBT no estado americano de Utah, QG da igreja mórmon, é pedir para ser excomungado não somente da sua família, mas do estado, que é quase em 80% dominado por mórmons e suas legislações. Eles agora querem também atuar no sentido oposto, incentivando filhos de LGBT a excomungarem os seus pais.

Os mórmons são muito sutis e discretos. Aqui no Brasil, pelo menos, não se vê líderes mórmons na linha de frente de guerras ideológicas no parlamento ou na imprensa. Eles nem mesmo permitem que indivíduos da igreja se envolvam em debates relacionados a divergências ideológicas e religiosas, utilizando o nome da igreja.

As notícias relacionadas a eles nunca tomam proporções virais, quer sejam favoráveis ou não a eles. Não há um interesse da religião em estar no foco. Essa talvez seja a estratégia mais inteligente que utilizam para serem uma igreja que pratica as imundices que a sua história conta sem que sejam percebidos.

Somente 6 dos 50 estados americanos não possuem leis que punem explicitamente a discriminação racial e Utah, lógico, é um desses, mas aposto que se você sabia disso, não havia relacionado a justificativa dessa falta de legislação antirracista de Utah ao passado da igreja mórmon.

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