OPINIÃO

A Inês Brasil 'bolsonete' acha que fazia favor aos LGBTQ?

Como diz a música, Inês, "você pagou com traição a quem sempre lhe deu a mão"!

29/08/2017 18:38 -03 | Atualizado 29/08/2017 19:00 -03
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Inês Brasil faz vídeo elogiando Bolsonaro e família.

O mundo LGBT está em alvoroço pela repercussão de vídeos e fotos nos quais Inês Brasil aparece "incensando" Jair Bolsonaro. O deputado se encontra, aparentemente, em campanha presidencial antecipada. E talvez seja a personificação do inimigo número um da população LGBT brasileira.

Quem busca um posicionamento da artista, tanto em suas redes sociais, quanto por outros meios, encontra declarações dela e de integrantes de sua equipe, nas quais o discurso é deste tipo: Inês está sendo injustiçada por ser uma pessoa inocente, e os LGBT estão sendo intolerantes com quem sempre os defendeu e lhes estendeu a mão.

Opa. Pera lá! Desde a sua ascensão, em 2013, Inês Brasil fez inúmeros shows, presenças VIP em eventos e até emplacou hits que divertiam e levavam o público ao delírio, como o Make Love.

Fomos o único público que a acolheu, defendeu e lhe rendeu um pouco de dignidade com os aconchegos e cachês que lhe garantiam a sobrevivência e outras cositas más.

No vídeo em que aparece ao lado de Bolsonaro, Inês fala com convicção - e talvez com a maior sobriedade e seriedade emocional que já vi em todas as suas aparições - que ele e seus filhos são pessoas maravilhosas, que não possuem nada contra os LGBTs.

No famigerado vídeo, Inês não era a mesma que conhecemos, que nos conquistou com uma personalidade pouco compreensível, irreverente, uma conversa sempre cheia de palavras misturadas. Com Bolsonaro, ela está séria, é clara em cada palavra, chama seu público para uma conversa de gente grande.

Foi através deste vídeo que tive uma certeza: de que a Inês Brasil que conhecíamos era, de fato, uma personagem.

Este episódio serviu para que muitos, como eu, descobrissem episódios tristes na carreira de Inês. Ela declarou ser contra o "Kit Gay", principal tema utilizado por Bolsonaro para atacar a comunidade LGBT.

Não é só Inês Brasil que precisa pensar um pouco mais antes de incensar alguém. Nós, LGBT, também precisamos olhar um pouco mais ao nosso redor. Podemos, por exemplo, dar um up na carreira de muitos artistas LGBT que ralam pra caramba, vivem esquecidos e até mesmo no anonimato.

Nosso pequeno esforço é capaz de fazer milagres na carreira de artistas com nossa vivência, nossas características, nossa mesma capacidade de saber, de fato, o que nos dói ou não, como foi com a maravilhosa Pabllo Vittar.

Os heterossexuais que se entendam, pois eles sempre sabem fazer isso muito bem. Por mais humanitários e bacanas que sejam, e que "amem as gays", como muitos desses artistas são e falam, eles jamais conseguirão sentir realmente a dor que causa uma traição em seu público.

Mesmo que Inês viva diariamente o preconceito de pessoas que disparam ofensas ao pensar que ela é mulher trans, basta que alguém explique que ela é mulher cis e tudo fica quase resolvido. Mesmo que viva sob os ataques das línguas ferozes "apenas" por ser negra e fugir do padrão ideal de feminilidade e postura imposto às mulheres. Um rápido tour pelos comentários do vídeo na página oficial de Bolsonaro e você confirmará isto.

Para um inconformado fã, Inês até engrossou o tom irônico: "Nem Deus agradou a todos, não sou eu quem vai agradar".

Timeline do Facebook

Inês, você não nos fazia nenhum favor. Você nos oferecia entretenimento, afago e destaque em sua carreira, e em troca a gente te fez decolar. Quando foi preciso, te defendemos.

Pesquise no Google os termos "Inês Brasil se recusa" e encontre diversas matérias que citam ocasiões em que Inês se recusou a fazer alguma coisa que pudesse trazer dor a ela e aos seus fãs. Mas agora ela tenta nos convencer de que é só amor, e que isso explica a sessão de besunte dela com o entusiasta da ditadura militar e apologista da tortura, dono de diversos posicionamentos agressivos à dignidade da comunidade que lhe acolheu como uma diva.

Para tirar as dúvidas de Inês, que no vídeo diz "achar" que Bolsonaro não tem nada contra os LGBT, seguem algumas poucas (de muitas) das suas falas ofensivas à comunidade:

"Se o filho começa a ficar assim, meio gayzinho, [ele] leva um couro e muda o comportamento dele"

"Não vou combater nem discriminar, mas, se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater"

"O que esse pessoal tem para oferecer para a sociedade? Casamento gay? Adoção de filhos? Dizer que se seus jovens, um dia, forem ter um filho, que se for gay é legal? Esse pessoal não tem nada a oferecer"

"Seria incapaz de amar um filho homossexual. Não vou dar uma de hipócrita aqui: prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí. Para mim, ele vai ter morrido mesmo"

Inês, nossa mensagem para você neste momento é de tristeza, mas durma com ela: "você pagou com traição a quem sempre lhe deu a mão". Entenda esta mensagem com a mesma seriedade que utilizou para elogiar Bolsonaro.

Aguarde, agora, pelos contratos de shows que essa gente vai te oferecer e continue sua brilhante carreira ao lado deles. Beijos!

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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