OPINIÃO

Gay aos 13 anos? O poder de ter uma família inclusiva

"Tive que descobrir sozinho quem eu era, com os riscos de aprender isso de forma negativa e equivocada."

15/12/2017 08:00 -02 | Atualizado 15/12/2017 08:00 -02
Reprodução/Internet
E por isso dou meus parabéns aos pais desse garoto. Eles estão permitindo que desde cedo ele descubra o que é amor, plenitude e felicidade. Obrigado por serem esses pais.

Gostaria de poder dizer aos pais do menino-do-parabéns-polêmico que eles foram incríveis ao permitirem que o filho viva a maravilha de poder ser ele mesmo.

Nos meus 13 anos, eu já tinha noção do tipo de pessoa que me atraía, mas evitava ao máximo permitir que alguém descobrisse isso, porque fui ensinado que era errado se fosse do mesmo sexo que o meu. Me sentia mal porque não tinha um jeito de "desligar" isso em mim. Vinha de dentro, eu não tinha controle.

Então, vivi minha adolescência diferentemente da maioria das pessoas. Era o tempo todo controlando internamente cada passo, gesto, tom de voz, o que eu ia falar, para quem eu ia falar, qual personagem eu queria ser, que cor eu gostava e com quem eu andava.

Apesar de ser apaixonado por um garoto, me forçava contra as garotas na esperança de, ou despertar algum desejo que estivesse adormecido dentro de mim, ou provar para os outros que eu estava agindo da forma que um homem deveria se comportar — pelo menos da forma como eu fui ensinado na época.

Inclusive, uma das formas que eu encontrei para me auto-afirmar era proferindo machismo e homofobia. Um mecanismo de defesa que, aparentemente, surtia efeito. Mas era apenas uma impressão minha que isso aliviava a tensão. Na realidade, só tornava mais explícito que eu tinha um problema.

E não era só minha família que me ensinava isso. O mundo ao meu redor esfregava isso na minha cara o tempo todo, a vida toda. Era nos filmes, novelas, propagandas, escola.... Como foi difícil na escola. Porque nunca soube de pessoas que sentiam o mesmo que eu. Não se falava sobre isso, então eu tinha mais certeza ainda de que o errado era eu.

E era desse meu desespero de parecer o errado, a "aberração", o "anormal" que as pessoas sádicas se aproveitavam. Era quando elas podiam se sentir superiores a mim. E quando as palavras não eram suficientes para me ofender, a agressão física era a segunda opção.

Mas as piores, sem dúvida nenhuma, foram as verbais. As que machucam a alma. As que ficam gravadas no fundo das memórias tristes. Tudo aquilo que, mesmo você tendo superado e dado outro sentido, ainda machuca quando ouve dos sádicos.

Eu tive que descobrir sozinho quem eu era, com os riscos de aprender isso de forma negativa e equivocada. Por sorte ou destino (ou Deus, para quem acredita) eu me saí até que bem nesse processo. Me tornei um adulto bem resolvido. Mas infelizmente ainda tenho medo do que os sádicos são capazes quando ACHAM que são melhores do que eu por uma simples questão sexual.

Queria ter vivido plenamente quem eu sou desde pequeno, mas meus pais ainda não estavam preparados, eu hoje compreendo. Talvez isso me tornasse ainda mais forte do que eu sou hoje. Aliás, foi com o filho que eles aprenderam o quanto isso é importante.

E por isso dou meus parabéns aos pais desse garoto. Eles estão permitindo que desde cedo ele descubra o que é amor, plenitude e felicidade. Obrigado por serem esses pais.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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