OPINIÃO

Para o bem ou para o mal, ‘De Canção em Canção’ é o típico filme de Terrence Malick

Por mais que sua ousadia seja louvável, parece que Malick tem feito filmes apenas para si mesmo.

23/07/2017 16:49 -03 | Atualizado 23/07/2017 16:49 -03
Van Redin/Broad Green Pictures
Rooney Mara, Michael Fassbender e Ryan Gosling não conseguem fazer o longa levantar voo.

O cineasta Terrence Malick, 73, tem carreira respeitável. Nos anos 1970, ele fez dois filmes importantes, Cinzas no Paraíso (1978) e Terra de Ninguém (1973). Ambos ajudaram a redefinir o cinema dos Estados Unidos naquela década em que se descobria ouro em meio à lama mais profunda de personagens e histórias.

Quase quatro décadas depois   de participar desse movimento ao lado de Francis Ford Coppola e Martin Scorsese - e com o aclamado Além da Linha Vermelha lançado em 1998 -, Malick lançou A Árvore da Vida (2011).

Belíssima, a obra é uma espécie de ensaio sobre perda, família e amor, construído com ousado experimentalismo cinematográfico. Neste filme, a câmera do diretor flutua como uma pena pelos sets e locações; é uma solução poética para ele mostrar o quanto se importa com as experiências de transcendência filosófica de seus personagens.

Técnicas narrativas usuais foram descartadas e, com isso, A Árvore da Vida pode ser para muitos um filme chato e ilógico. A ousadia rendeu ao diretor a Palma de Ouro no Festival de Cannes e uma indicação ao Oscar . Aparentemente, tudo ou quase tudo deu certo para o longa.

Malick decidiu repetir o estilo em seus filmes seguintes - Cavaleiro de Copas (2015) e Amor Pleno (2012)  - , mas sem sucesso. Crítica e público não os receberam com o mesmo entusiasmo de antes. Meu palpite: o estilo do diretor ficou cansativo. Por mais que sua ousadia seja louvável, parece que Malick tem feito filmes apenas para si mesmo. É o que fica evidente em De Canção em Canção (Song to Song, 2017).

Não acredito que cineastas sejam obrigados a filmar tendo em mente o que espectadores podem querer ver. É impossível saber isso precisamente e, além do mais, as mentes por trás da obra sempre devem ter liberdade criativa. No entanto, isso não muda o fato de que o resultado disso pode ser um filme pouco comunicativo e muito autorreferente. Uma história ilhada em si mesma, digamos assim.

De Canção em Canção sofre desse mal. O longa conta a história - se é que faz sentido dizer isso  -  de Faye (Rooney Mara), BV (Ryan Gosling) e Cook (Michael Fassbender). Eles são, respectivamente, uma aspirante a musicista, um músico em busca de se despontar e um influente produtor musical. Tudo acontece em Austin, Texas.

Quando a garçonete Rhonda (Natalie Portman) se envolve com Cook, e BV começa a namorar com Amanda (Cate Blanchett), estão formados os triângulos amorosos  -  alimentados pelos personagens com imaturidade, carência e narcisismo.

BV e Faye se amam, mas ela tem uma história a ser resolvida com o desequilibrado Cook. Cook quer ficar com Faye e briga com BV por causa disso, de modo que a parceria profissional de ambos vai para as cucuias. BV e Faye ficam juntos, Cook se afasta de ambos e fica com Rhonda. BV e Faye se desentendem e BV engata um namoro com Amanda. Faye volta a se encontrar com Cook. Não, não estou falando sobre o enredo de uma novela caricata e antiga.

Embora o elenco, de forma geral, esteja em boas atuações  -  à exceção de Gosling que, mais uma vez é apenas... Ryan Gosling -, as narrações em voice over dos personagens tem várias redundâncias. Ajuda menos ainda o fato de eles terem arcos tão pouco definidos e aprofundados.

Chega a ser frustrante ver atrizes do porte de Blanchett e Portman em papéis tão rasos. O já mencionado estilo de Malick somado a isso rende um filme chato, que anda em círculos por mais de duas horas.

Há boas participações de Holly Hunter e Bérénice Marlohe, enquanto Val Kilmer faz uma ponta sem nexo algum. Os músicos Patti Smith, Iggy Pop e Lykke Li também dão as caras e a fotografia é do ótimo Emmanuel Lubezki(Birdman, Gravidade) -  mas nada que ajude a arrumar a bagunça.

PONTO POSITIVO: Boas atuações
PONTO NEGATIVO: O único convidado para a festa é o próprio anfitrião
AVALIAÇÃO: Fraco

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