OPINIÃO

Em 'Grandes olhos', novo filme de Tim Burton, Margaret Keane nos ensina sobre vulnerabilidade

28/01/2015 16:03 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02
divulgação

"Os anos 1950 foram uma grande época, se você fosse um homem", diz o narrador em off. Uma mulher, apressada e aflita, coloca seus pertences e os de sua filha no porta-malas do carro estacionado em frente à casa. Já na estrada, a mulher acelera e, sobre o banco da motorista, sua mão segura a da criança.

A mulher, no caso, é a pintora norte-americana Margaret D.H. Keane, em 1958. E a cena descrita acima é a que abre "Grandes Olhos" ("Big Eyes", 2014), novo filme de Tim Burton que estreia nesta quinta-feira (29).

Margaret não só deixou seu marido, Walter Keane, como o acusou publicamente de usurpar dela a autoria de suas pinturas, que enriqueceram (e muito) o casal. Durante os dez anos de casamento, Walter, também pintor, se valeu de compartilhar seu sobrenome com Margaret para se apresentar como autor das obras ultra populares dela.

As pinturas de Margaret são de crianças, mulheres e animais com olhos hiperbólicos e desolados. São reflexo direto da latente sensibilidade da pintora - característica que ela teve de contrariar para assumir suas obras e autonomia como indivíduo.

Walter usou como trampolim para si essas (supostas) fragilidades de Margaret. Ao contrário dela, ele sabia como vender as obras. Sua lábia, simpatia e forte presença garantiram aos quadros acesso a círculos estratégicos. E a ele, total domínio sobre sua esposa. Margaret chegou a pintar 16 horas por dia, enclausurada num estúdio de cortinas fechadas e porta trancada, sem amigos e isolada de sua filha, único fruto do casamento anterior. Walter tinha o dinheiro, a fama e, como Margaret contou ao Guardian, as ameaças na ponta da língua. E ela, por sua vez, tinha uma criança, um segredo que podia lhe constranger e medo de seu marido. A má recepção que o mundo das artes já dava às mulheres artistas reforçava a situação.

No entanto, a insegura, silenciosa e sensível Margaret não é a coitadinha da história. Ela é a heroína.

Em sua pertinente palestra no Ted sobre o poder da vulnerabilidade, Brené Brown, pesquisadora da Universidade de Houston, afirma que não há como separar o "mau sentimento" (medo, vergonha, decepção) do "bom" (gratidão, felicidade, prazer). Quando enfraquecemos um, também o fazemos com o outro. Segundo a assistente social, ignorar nossas vulnerabilidades implica em não sentirmos o que há de bom. O que nos deixa vulneráveis. E aí começa um ciclo. Em entrevista à Forbes, Brown define vulnerabilidade como "incerteza, risco e exposição emocional".

Isto nos faz voltar à Margaret Keane. Walter abusou psicologicamente dela. E ela lhe aplicou um belíssimo chute no traseiro, que teve duas fases: o abandono que ele não esperava e um processo judicial. Este último serviu para identifica-la como a artista que criou o que tanto vendeu, fez sucesso e deixou marca na história da arte contemporânea. Porque sozinha ela já era o suficiente.

Margaret é a mulher que, num contexto ainda mais machista que o de hoje, arriscou atear fogo às mentiras que a rodeavam - mas que, antes disso e para isso, abriu-se ao mundo para mostrar suas feridas.

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