OPINIÃO

'Carol' é um lindo alívio em um (novo) Oscar branco e heterossexual

18/01/2016 19:50 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Divulgação

Assim que os indicados ao Oscar deste ano foram anunciados na última quinta-feira (14), ficou evidente, mais uma vez, como a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas ainda é incapaz de contemplar a diversidade em suas indicações. Pelo segundo ano consecutivo, as principais categorias estão repletas, principalmente, de homens brancos.

No entanto, é importante notar que os representantes LGBT também foram negligenciados: Carol (2015), de Todd Haynes, e A Garota Dinamarquesa (2015), de Tom Hooper, ficaram de fora das indicações de melhor filme e diretor, duas das mais relevantes do prêmio.

Ambos têm, em suas respectivas histórias, a intersecção dos temas mulheres e LGBT.

O primeiro narra o romance secreto entre uma socialite e uma jovem atendente de loja em plena Nova York da década de 1950. O segundo, a história de uma das primeiras mulheres transgêneras a fazer a cirurgia de mudança de sexo.

Como eu já assisti a Carol, em cartaz desde 14 de janeiro, opto falar com você sobre este filme e a questão da cobiçada estatueta banhada a ouro.

O longa de Haynes foi indicado ao Oscar em seis categorias: melhor atriz (Cate Blanchett), atriz coadjuvante (Rooney Mara), roteiro adaptado (Phyllis Nagy), fotografia (Edward Lachman), figurino (Sandy Powell) e trilha sonora (Carter Burwell).

Carol ficou de fora da disputa pelo prêmio de direção e de melhor filme.

Em contrapartida, foi reconhecido nessas mesmas categorias por outras duas grandes premiações do cinema: o Globo de Ouro e o Bafta - em ambas, inclusive, foi líder no número de indicações.

É como se a Academia tivesse pensado: "Carol tem atuações excepcionais, um roteiro muito bem adaptado do livro, é visualmente belíssimo e específico, a música é sensacional, mas... Melhor filme? Melhor diretor? Não é para tanto".

Sim, a disputa pelas indicações ao Oscar sempre é apertada. E sim, no passado, a Academia contemplou filmes sobre minorias que foram concorrentes de peso. E não, não há evidência concreta que nos mostre que a Academia é, de fato, homofóbica, machista ou racista.

Mas também é inegável que uma das maiores instituições de cinema do mundo, que concede o prêmio de mais peso e popularidade, raramente inclui em suas principais categorias as obras que representam as diversidades.

É principalmente por este motivo que deixei de dar credibilidade ao Oscar (ou melhor: festa particular dos homens brancos que adoram o cinema sobre eles mesmos). Prefiro me focar em outra coisa: o filme em si. Eles falam bastante por si só, com ou sem indicações a prêmios badalados.

Baseado no romance homônimo de Patricia Highsmith (1921-1995), também conhecido como O Preço do Sal, Carol é um retrato feito com sensibilidade e precisão de um romance homossexual na época em que isso ainda era considerado transtorno psicológico e o tabu era ainda maior.

É o ápice da carreira de Haynes, que, no passado, dirigiu outros ótimos dramas com relacionamentos homossexuais em situações delicadas: Longe do Paraíso (2002) e Velvet Goldmine (1998), atualmente disponível na Netflix.

O diretor sempre foi eficiente na tarefa de extrair ótimas atuações de seu elenco, que se complementam em um jogo de atração mútua. Com Blanchett e Mara não é diferente. Ambas estão radiantes em Carol - em especial Mara, que tem se mostrado cada vez mais habilidosa em seu trabalho - e o desejo que une ambas é quase faiscante, embora Haynes sempre prefira as sutilezas para mostrar isso, com ajuda da bela trilha de Burwell.

Therese (Mara) é uma jovem atendente de loja que é tirada de sua zona de conforto no mesmo momento em que avista, pela primeira vez, a sofisticada Carol (Blanchett) andar pela loja em busca de um presente.

Carol é uma socialite perto dos 40 anos de idade cujo casamento perdeu o verniz da perfeição e está em via de terminar. Therese tem 20 e poucos anos, é jovem e tem muito a descobrir sobre si mesma, ao contrário de Carol, que tem um (conturbado) passado de relacionamentos lésbicos e extraconjugais.

Ambas têm algo a perder, mas se arriscam, apesar disso. Carol pode perder a guarda da filha; Therese pode perder a chance de se casar com homem de sua idade que é um "bom partido".

Em uma cena que diz muito sobre a condição das personagens, duas lésbicas aparecem conversando no canto escuro de uma loja de discos. Therese desvia o olhar rapidamente quando ambas reparam que ela as olhava.

A tensão de Carol - quase que uma referência aos clássicos do suspense que eram lançados naquela década, como Pacto Sinistro, de Alfred Hitchcock - mistura erotismo com os dilemas das personagens.

Uma viagem de carro que ambas fazem para finalmente ficarem sozinhas e distante de seus dilemas e do preconceito é a consolidação de uma jornada que cada uma delas faz dentro de si: autodescoberta em níveis profundos, reveladores e transformadores. E a resolução do caso segue um rumo surpreendente.

Para tanto, a fotografia de Lachman é certeira ao deixar em evidência o que demonstra ter vida ou não. Assim como não realça direção de arte e figurino como se fossem fotografias vindas direto de uma revista de design e moda dos anos de 1950. Em alguns momentos, remete a um sonho distante ou um delírio. O roteiro de Nagy, por sua vez, é simples e enxuto.

Não é sempre que temos a chance de ver um diretor do porte de Haynes, figura de estatura do cinema independente dos Estados Unidos, chegar ao momento em que suas habilidades estão tão apuradas, contando uma história com tanta destreza.

É importante que uma instituição tradicional como a Academia reconheça o que existe, mas prêmios nem sempre conseguem dizer tudo a respeito de um filme, nem sempre traduzem o potencial da obra.

E Carol é daquele tipo que merece mais que ser lembrado pelo Oscar: merece sua atenção.

A Garota Dinamarquesa estreia em 11 de fevereiro. Foi indicado ao Oscar nas categorias de melhor ator (Eddie Redmayne), atriz coadjuvante (Alicia Vikander), direção de arte (Eve Stewart e Michael Standish) e figurino (Paco Delgado).


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