OPINIÃO

Memórias da Marginalização: Uma Jaraguá Partida Desde a Destruição da Vila dos Pescadores

13/12/2016 16:05 -02 | Atualizado 13/12/2016 16:05 -02

Uma sombra pairava sobre a vila enforcando a tranquilidade de quem madrugava. Era lua minguante. Noite fria a beira mar. Alguns pescadores resguardavam o fruto da sobrevivência nos galpões. Temiam abandonar o sustento a qualquer malandro. Outros aguardavam angustiados a manhã seguinte para compensar a pesca. O mar é a riqueza, é o esmero, é o trabalho. O que aconteceria ao raiar parecia folclore, ao virar realidade transformou-se em pesadelo.

Aqueles dedos desumanos orquestravam ordens, comandos como uma sinfonia maquiavélica. Ali, naquela comoção, ouvia passos, tratores e vozes invadindo sem cerimônia aqueles casebres, ou barracos construídos com lonas, causando o sumiço daquele tradicionalismo. Uma Jaraguá partida perdendo a significação de bairro histórico. Uma ferida aberta no coração de Maceió. Mais que escombros largados a céu aberto, restam memórias de uma sociedade marginalizada pelo poder público. Atendendo aos anseios de poucos, do egoísmo, apresentando um espetáculo para ninguém aplaudir, para ninguém venerar, para ninguém se orgulhar. Dia dezoito de junho. 2015. Dia da destruição da Vila dos Pescadores.

A ordem da Prefeitura de Maceió é segregar os pescadores pela distância, é ignorar a existência desse vilarejo afastado - agora - no Trapiche da Barra. Talvez esses pequenos apartamentos impressionem alguns eleitores, mas, a cada aproximação é perceptível os defeitos aparentes. Blocos entregues sem portas, janelas ou banheiro. Quem mora nos últimos andares esqueça eletrodomésticos, a água invade em dias chuvosos. "Uma desgraça. Minha unidade, por exemplo, veio repleta de fezes pelo abandono após a construção. Precisei contratar uma faxineira para a limpeza, gerando mais gasto a minha situação precária", comenta Maria das Graças, moradora há quase 40 anos da Vila.

2016-12-10-1481409880-848466-Apartamentossemestrutura.jpg

A vila reconstruída no bairro Trapiche da Barra em Maceió. (Foto:Bruno Presado)

Em meados de 2005, uma década antes, na gestão anterior da prefeitura de Maceió, a construção do condomínio assinalava a estratégia para retirada dos pescadores: repressão policial ao narcotráfico - marginalizando o espaço - e o cadastramento de um a um na assistência social para a entrega e distribuição de apartamentos. Cada espaço de dois quartos possui o básico, como banheiro, cozinha e um pequeno lavabo. Há rachaduras formadas em paredes e, salvando exceções, alguns apartamentos vieram sem a estrutura para moradia. A herança mal-sucedida.

Poucos pescadores restaram na antiga vila gerenciando comércios na balança de peixes. Agora despedaçada, sem entulhos após a limpeza, o espaço é um grande terreno para construção do Centro Pesqueiro do Jaraguá. O projeto para revitalização é orçado ao custo de dez milhões de reais, segundo a Secretaria Municipal de Infraestrutura e Urbanização, oferecendo um mercado com 60 depósitos para o pescado, três estaleiros para fabricação de barcos, um galpão para guardar o material e ambientes sociais - como praças e lojas - a população e ao turismo.

Como promessa da Prefeitura, após a desocupação, as obras teriam inicio imediato para atender a demanda trabalhista, mas, o que encontramos no local são estruturas incompletas, alicerces sem continuidade e vigas jogadas ao relento. A primeira etapa tinha conclusão prevista para julho, onde ocorreria a transferência para as novas instalações da balança, e nada aconteceu. Toda a estrutura comercial será voltada aos pescadores, vale ressaltar, continuando sem previsões ou datas corretas.

Vozes da Vila

Os depoimentos apareciam naturalmente a cada passo, a cada olhar, a cada pergunta boba para esclarecer o que acontecia ali. Alguns moradores confabulavam sobre a estranha presença. Tentavam adivinhar qual perfil encaixava na minha figura. Seria um político procurando votos, em época eleitoral, ou um assistente social do governo? Seja qual fosse a análise, a conversa fluía entre apresentações simpáticas, memórias remotas e reclamações relacionadas ao descaso. Queriam ter voz frente à injustiça.

Na procura por Dona Enaura, antiga presidente do Instituto Vila dos Pescadores - IVP, uma senhora exaltante parecia solícita aos chamados. Observava curiosamente o movimento pela brecha da porta, esperando o momento para apresentação. Identificou-se como Creuza Maria. Não aparentava receio na presença do desconhecido, queria compartilhar algo que ninguém escutava e logo se aproximou para comentar a ausência de Enaura. Caiu em lágrimas sem algum questionamento. A saudade do marido, falecido há pouco, apertava a sensibilidade daquela mulher. Viver entre conhecidos não confortava a sua solidão.

"Nunca tivemos ajuda alguma do Estado, da Prefeitura ou qualquer político para trabalhar. Até o único ônibus, que passa no ponto, não faz rota direta pra Vila. Caminho às três horas da manhã para chegar cedo e adiantar o descasque do camarão. É cansativo, ou gastaria o pouco dinheiro com lotação. Sempre fomos unidos para conseguir o sustento. Já ganhei pão e até lâmpada dos vizinhos pra iluminar o apartamento. Vivia na penumbra, na escuridão", comenta Creuza Maria, filezeira de camarão, ao explorar a recente - e duvidosa - conquista dos moradores ao ganhar uma rota de ônibus.

2016-12-10-1481410424-3507299-IMG_2649.jpg

Creuza Maria, a filezeira de camarão. (Foto: Bruno Presado)

O filé de camarão é o sustento de Creuza Maria que, por vezes, não consegue completar as finanças para a alimentação diária. Compensava as despesas com o marido, então pescador, para sobreviver ao trabalho desvalorizado pelo próprio comerciante. Na tabela, ao serviço prestado, costuma receber a bagatela imoral de um real ao quilo de camarão descascado. Uma pechincha sem retorno diariamente, lamentado apresentando as calejadas mãos por cortes.

Quem a acompanhava diariamente partiu a outra jornada. A simplória sensibilidade florescia em lágrimas escorridas, sem cerimônia alguma, eram as saudades do marido apertando o coração machucado. Uma história que nasceu germinada na cooperação pela pesca. Após quatro entradas no Hospital Geral, para tratamento de cirrose, o falecimento doloroso - numa madrugada - encaminhou José aos braços afetuosos de Creuza. Sem filhos e sem parentes, sobrou uma solidão irreparável que a acompanha.

Entre um barraco e outro, sobrevivendo aos aspectos - da antiga Vila -, apertou os passos para construir um espaço próprio. Materiais emprestados constituíam a cabana de lona e tábuas de madeira. Era necessidade para participar do cadastro social da Prefeitura, em 2007, para receber uma habitação. Um ensaio para destruição. "Pior seria se alguém me deixasse", repetia a pescadora, sem nenhum porém, agradecendo a assistente social que a procurou para escolher o espaço.

O clima cooperativo era caloroso a desconhecidos. Ali, sentado no meio fio, a palavra formalidade perdia a significação pela natureza acolhedora de Edileine [não identificando o sobrenome, seguindo o pensamento de outros moradores, pelo receio recorrente de boicotes ou ameaças políticas]. Tão altruísta por dedicar o descanso, após a rotineira labuta, para relatar a situação vivenciada. Tentava entender a ausência de sensatez - ou consulta popular, simplesmente - no planejamento social da cidade. Uma sociedade democrática sem atender a qualquer representatividade, a minorias e sem preservação do espaço público. Uma sociedade a mercê da própria sociedade.

"Estava trabalhando no momento da desocupação e, quando fui avisada, não encontrei nenhum móvel ou eletrodoméstico que havia comprado recentemente. Tinham pessoas roubando. Levaram minha televisão, só consegui salvar a cama", lamentava a senhora Edileine, poupando alguns trocados para alcançar - novamente - a sua sonhada estrutura. O esforço é herança de família, onde aprendeu a profissão e os costumes.

Contabilizando a quantidade de depósitos, para Edileine, o projeto do Centro Pesqueiro não atenderá aos trabalhadores e, provavelmente, criará um ambiente de conflito. "Tirar o pescador da beira mar é uma piada de mau gosto. Em outros estados, as vilas foram urbanizadas para atender aos anseios", completa.

Maria, Edileine, Creuza, Enaura, José, João, Cícero e - enfim - outros retratos guardados ao carinho nesse reservatório de memórias. Retratos da injustiça social. Recortes de histórias incompreendidas e negligenciadas pelo poder público. Marginalizados pela elite alagoana. Diminuídos a meros "favelados" e, assim, ignorados pela invisibilidade inerente do termo. Gente como qualquer outra. Como eu, como você. Batalhadora e guerreira. Trabalhadores calados buscando reverberar a voz da justiça. Da verdade. Da igualdade.