OPINIÃO

Política do aqui e agora: O futuro em nossas mãos?!

De olho em um hipotético futuro tenebroso, cidadãos no Brasil e no mundo se sentem cada vez mais impotentes diante do caos.

24/05/2017 14:57 -03 | Atualizado 24/05/2017 14:59 -03
Paulo Whitaker / Reuters
Manifestantes pedem renúncia de Michel Temer em Brasília nesta quarta-feira (24).

Já reparou em quanto tempo do seu dia você perde se preocupando com o que vai acontecer no futuro ou se sentindo preso aos erros do passado? Se, como eu, você estiver perdendo muitos momentos de sua vida porque a sua mente se ocupa demais com memórias ou projeções catastróficas, saiba que não estamos sozinhos. E muitos de nós não estamos muito felizes. Pelo contrário, a apatia tomou conta de nossa dura realidade.

Não é pra menos: manchetes negativas transbordam jornais e afetam comunidades de Washington a Seul, da França e do Reino Unido ao Oriente Médio, de Pequim a Brasília, de Caracas ao Rio de Janeiro.

Corrupção, estagnação, desigualdade, desemprego, austeridade, injustiça, epidemias e pandemias, aquecimento global, poluição, genocídios, crimes de guerra, crimes ambientais, mortes de civis, crise de refugiados, terrorismo, ascensão da extrema direita, do autoritarismo e flertes com a guerra nuclear. Ufa, que golpe!

Com tanta coisa ruim acontecendo e repercutindo cada vez mais, é de se esperar que o pessimismo se alastre pelas conversas, infecte as previsões de especialistas e colonize nossos pensamentos, destruindo nossa saúde mental e expectativas de progresso.

Os dados atestam a tendência: de 2005 a 2015, segundo relatório da OMS (Organização Mundial da Saúde), o número de pessoas com depressão subiu 18,4% no mundo inteiro. Em 2020, espera-se que o transtorno seja a principal causa de afastamento do trabalho.

Em matéria de felicidade, aliás, o Brasil certamente perdeu seu lugar ao sol: de acordo com o mesmo relatório, somos, na verdade, o país da síndrome de ansiedade. Todos os dias, 18,6 milhões de brasileiros são continuamente esmagados pelos próprios pensamentos sobre coisas que nem sequer aconteceram. E estamos falando apenas dos casos diagnosticados.

Creio que está na hora de falar sobre pessimismo. É urgente. Vamos começar por reconhecê-lo em nossa relação com o mundo. Veja se identifica seus padrões de pensamento nesta definição: ser pessimista não quer dizer somente que achamos que as coisas vão mal; implica, isto sim, a crença de que tendem a continuar ruins ou mesmo piorar. E o pior: que não há nada que possamos fazer a respeito.

Ou seja: que, se formos sinceros, não há espaço para esperança alguma. Restam apenas a apatia, o desespero e a paralisia. Chegamos a essa conclusão porque a antecipação determinista do fracasso, que conquista cada vez mais trincheiras discursivas, nos imobiliza como agentes transformadores.

Quando o fracasso é certo, afinal, a sociedade se anestesia e admite sua impotência. Se prepara para o pior. E, ao ficar paralisada, permite que o pior de fato aconteça. Afinal, não existe outra opção... Certo?

Errado. Na verdade, eu argumento, a imobilidade é um dos principais fatores que nos deixam à mercê de nossos piores medos. Com a cabeça passeando pelo passado imutável ou pela projeção de fracassos futuros, não é de se espantar que o sofrimento tome conta e que não sobre tempo para olhar ao redor e contemplar as inúmeras possibilidades, no aqui e agora, de influir positivamente sobre o futuro, seja ele individual ou coletivo.

O dia de amanhã (pasmem!) reflete as consequências do conjunto das ações de hoje, inclusive as nossas. Só será resguardado, no imaginário coletivo, algum espaço para a esperança de um amanhã melhor depois que o senso da urgência em fazer diferente nos contaminar de forma a afetar nossas interações cotidianas e nossa ação coletiva.

O resultado será a constatação de que é, sim, possível, alcançar um futuro melhor a partir de pequenas ações, que, acumuladas, podem virar o barco do status quo. A mudança tem de vir do micro para o macro, de baixo para cima.

A diferença, acreditem, está nas pequenas coisas, e a percepção deste detalhe (que, para mim e para muitos amigos, veio com muita meditação e com a consciência de que o único momento em que podemos afetar nosso destino é agora) mudou completamente minha forma de ver a vida e de agir sobre ela.

O tema é particularmente relevante no campo político: nunca na história deste País uma agenda política foi tão impopular e tão intocável ao mesmo tempo. Nunca uma liderança nova, inspiradora e viável pareceu tão fora de alcance.

Quem foi aos atos da Greve Geral do dia 28 de abril sabe muito bem que o pessimismo era palpável: poucos gritos de guerra, cantados por poucas pessoas; nenhum braço levantado, nenhum coração batendo forte. Éramos o gado que, ao ser conduzido ao matadouro, ensaiou timidamente uma reação coletiva, ciente, no entanto, da morte iminente. O que faltou, meus caros, e ainda falta para mudar de fato nossa realidade tem nome: esperança.

A esperança é um fator relevante para definir nosso futuro: ela dá combustível às mudanças, enche as ruas, faz surgir ideias, lideranças e propostas. Expande o rol de ações possíveis. O medo, a frustração e o derrotismo, por outro lado, nos imobilizam, nos domesticam e nos desesperam, e o vácuo de nossa inação é preenchido por soluções esdrúxulas, fragmentação e ódio. O sonho de nossos opressores.

Por isso eu digo com firmeza: não podemos abrir mão de nossa esperança! Esperança que reconhece a dificuldade, que identifica os entraves e as forças reacionárias em seu caminho, mas que não cansa de buscar brechas para alterar a ordem das coisas. Pois a base que a sustenta é a percepção de que o mundo está mudando diante de nós e que cada ação importa para definir o sentido dessa mudança.

Em um momento decisivo como este, ela é nossa arma mais potente para contagiar a população e viabilizar a mudança no rumo de nossa história coletiva. No momento atual, há dois caminhos claros diante de nós: eleições diretas ou indiretas. Cabe apenas à sociedade o ímpeto de puxar a corda para a solução defendida por 85% da população: eleger um novo presidente para nos ajudar a atravessar as inúmeras crises utilizando-se de meios que não nos sequestrem a dignidade.

Somente se os caminhos para o diálogo, a empatia, o progresso, a sustentabilidade, a paz e a justiça social forem construídos no micro, por cada um de nós, com as ferramentas que temos em nossos respectivos "aquis e agoras", será viabilizada uma alteração decisiva do equilíbrio de forças discursivas no macro.

No momento em que a abertura de um vácuo de poder em nossa sociedade e a falta de confiança em nossas instituições ficam cada vez mais evidentes, esse equilíbrio de forças não pode deixar de acontecer, sob risco de repetirmos o trágico erro de empoderar o autoritarismo ou o populismo. Esses filhos prematuros do desespero, essas soluções defensivas, simples e equivocadas a que recorrem cada vez mais cidadãos e cidadãs por todo o mundo.

Eu mesmo estou aqui, escrevendo este texto em uma noite agradável de sábado porque tomei consciência de que a cada instante posso plantar frutos positivos em meu dia a dia, nem que se trate de um sorriso, de empatia e gentileza para com quem pensa diferente de mim.

Afinal, com cada dia nascem novas possibilidades de transformação. Posso parecer ingênuo e realmente serei se for o único a pensar assim. Mas pode ser que eu não seja.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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