OPINIÃO

O outro e o silêncio

O debate público precisa ter como eixo central o exercício de olhar o mundo e as próprias ações pela ótica alheia.

16/08/2017 18:58 -03 | Atualizado 27/08/2017 23:38 -03
Pekic via Getty Images
"Aos 12 anos, fui retirado à força do armário por um coleguinha de classe por quem eu tinha uma queda. Perdi quase todos os amigos."

A política identitária (como o embate entre LGBTs e setores evangélicos ou entre coxinhas e mortadelas) deveria ser exercitada como uma discussão pluralista. Deveria buscar acordos implícitos de boa convivência entre grupos sociais que, ultimamente, parecem ter entrado em guerra.

Se o debate público tivesse como eixo central o exercício de olhar o mundo e as próprias ações pela ótica alheia, criaria-se o potencial de inspirar um momento social de compaixão, compreensão e mudança de atitudes e valores.

Toda opressão identitária é um ciclo vicioso de microrrelações de poder, tão comuns que transparecem no macro e são naturalizadas. Um ciclo que pode, ainda assim, ser rompido pelo exercício de se enxergar através dos olhos do outro. Para isso, tem que ouvir. Ouvir mesmo - e se colocar no lugar.

Aprendi isso quando, aos 12 anos, fui retirado à força do armário por um coleguinha de classe por quem eu tinha uma queda. Depois que ele contou para todos da escola, perdi quase todos amigos de uma hora para outra. De muitos, sobraram só os cochichos e risadas. E as cadeiras vazias ao meu lado.

Não consigo descrever o terremoto de sensações que me tomou quando a diretoria da minha escola pública estadual, em Valinhos (SP), organizou uma palestra sobre sexualidade. A priori, acreditei que fosse sobre sexo seguro.

Estava enganado: um casal de pastores passou duas horas explicando por que a prática homossexual era imoral aos olhos de Deus. "Se você tem uma chave, tem que colocar na fechadura", disseram. Todos os olhos miravam para mim.

Sempre apelidado de tomate ou pimentão por conta da minha timidez. Estava roxo. Levantei a mão para questionar o palestrante sobre seus conhecimentos biológicos. Estava trêmulo, mas o covarde ali não fui eu. A voz não me foi dada. Enquanto isso, dizia a professora, sem levantar a mão, que "aquilo ali é uma modinha, né".

O pior de tudo é que muitos de meus colegas vieram falar comigo depois, convictos de que o pastor tinha razão.

Eu tinha 13 anos.

Aquele dia me marca até hoje. Nos meses que se seguiram, fui incansável: dia após dia, tive conversas e mais conversas com colegas que, por sua formação religiosa ou moral, tinham se afastado de mim. Olhei nos olhos de cada um e perguntei: por que eu sou errado aos olhos de Deus?

Confrontei cada um com argumentos, mas sem calar o que tinham a dizer.

Quando mudei de escola, um ano mais tarde, muitos colegas se despediram com lágrimas nos olhos. Até cantaram uma música pra mim na minha última aula. Hoje em dia, muitos apoiam a causa LGBT.

O "outro". Esse ser de quem todo mundo fala mas que ninguém quer ouvir. Deixa de infantilidade. Conversa com teu irmão, pô. Já dizia o ditado... Estamos todos no mesmo barco. E ele está afundando.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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