OPINIÃO

Trinta anos sem Truffaut, o mestre da elegância no cinema

03/10/2014 14:45 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:56 -02
Getty Images
François Truffaut, film director The director in San Sebastian Film Festival (Photo by Quim Llenas/Cover/Getty Images)

Quando eu era muito pequeno, odiava ir ao cinema. É que certa vez, ainda no começo dos anos 80, a luz acabou no meio de uma sessão, e as pessoas vaiaram feito loucas; fiquei traumatizado. Só no começo da década seguinte voltei a me interessar por filmes, mas na época só tinha acesso às produções de Hollywood. Minha atividade cinéfila "mesmo" só viria já na segunda metade dos anos 90, quando descobri o cinema europeu.

Um diretor em especial me fascinava e contribuiu mais que qualquer outro no meu processo inicial de cinefilia: François Truffaut. Na época, no Rio, o circuito Estação relançava no cinema a maior parte dos filmes do cineasta francês, e foi uma sorte ter tido a chance de descobrir a maioria dos seus filmes na sala escura. Ainda hoje me lembro com muito carinho de cada sessão.

Hoje em dia, tudo de Truffaut pode ser baixado e visto na tela de um computador, mas as gerações de cinéfilos formadas pela web que me perdoem o purismo: não dá nem para comparar a experiência de ver alguns de seus filmes na tela grande e na pequena. O olhar do garoto para a câmera na última cena de Os Incompreendidos não tem a mesma força fora da sala escura, assim como as imagens da criança correndo pela mata em O Garoto Selvagem não são tão expressivas fora de um telão, e o sangue pós-coito no lençol de As Duas Inglesas e o Amor não é tão vermelho na tela pequena...

Mas não é essa a discussão que quero propor aqui - até porque o próprio Truffaut sempre defendeu o "home vídeo" como uma grande conquista para os cinéfilos (no que ele tinha toda razão, diga-se). A questão aqui é relembrar Truffaut, cuja morte completa já 30 anos no próximo dia 21. Sim, já há três décadas que um tumor cerebral levou embora (aos 52 anos) um dos diretores mais queridos do público cinéfilo. Na época, 1984, foi uma comoção - o grande Bob Fosse, que nem era amigo de Truffaut, ao saber de sua morte disse ter entrado em depressão só de pensar que, a partir daquele dia, jamais um novo filme de Truffaut seria feito; só essa ideia já era algo desesperador.

Quem conhece os filmes do francês sabe que Fosse tinha razão. Claro, muitos diretores fizeram filmes "à la Truffaut" desde então, mas Truffaut original, nunca mais.

Mas o que significa um "filme de Truffaut"? Significa antes de mais nada uma obra de alguém apaixonado por aquilo que filmava. Apaixonado pelos temas que abordava, as técnicas que empregava, os profissionais com quem trabalhava, as atrizes que dirigia. Significa um filme de um fetichista, obcecado por nucas e pernas femininas, pela forma de uma mulher se movimentar. E uma obra sobre o amor - mais precisamente sobre como amar pode ser algo doloroso, triste mesmo (os filmes de Truffaut eram extremamente melancólicos em essência). E significa um filme feito com elegância, com muito tato, sem nenhum traço de grosseria - como poucos, Truffaut respeitava seu público.

O que não o impedia de fazer filmes bastante pessoais - quase toda a obra do cineasta é perceptivelmente em "primeira pessoa". Na tela, Truffaut falava de si, e como toda grande obra muito particular (perdoem-me o clichê), seus filmes eram universais. Um exemplo perfeito disso é o chamado ciclo Antoine Doinel, conjunto de cinco filmes com o mesmo personagem, Antoine Doinel, que Truffaut mostrou ao longo de 20 anos, desde a infância, concebendo-o baseando em si mesmo. Como resultado, falando de si, fez um retrato do jovem "médio" moderno, um homem sem grandes qualidades, que luta apenas para viver sua vida sem sofrer.

Doinel era um rapaz apolítico que, ao contrário dos sonhadores de maio de 68, almejava uma vida normal, como a de todo mundo. Buscava a "normalidade", e com os anos acabou encontrando a "mediocridade"; a criança esperta e safa de "Os Incompreendidos" foi sendo domesticada pela sociedade à medida em que se tornava adulta, até virar o sujeito de vida banal de O Amor em Fuga; a "criança terrível" aburguesou-se.

De uma certa maneira, é uma trajetória muito semelhante com a do próprio Truffaut, na vida e sobretudo na arte, o que lhe valeu muitas críticas a partir de meados dos anos 60. Truffaut surgiu como marginal - teve uma infância pobre, praticou pequenos delitos enquanto criança e foi até preso. Encontrou no cinema uma ponte de acesso ao mundo "normal". Começou como crítico de cinema (apadrinhado pelo teórico André Bazin) e foi uma voz "outsider" e vigorosa em seus textos - o que ele dizia nos anos 50 hoje é visto como regra, mas na época era altamente ousado. No fim daquela década, estreou como diretor - um diretor "à margem". Foi um dos pais da Nouvelle Vague e fez alguns dos filmes mais frescos e novos de sua época, sem os vícios e tiques dos diretores do que ele chamava "cinema de qualidade" - os filmes acadêmicos e sem imaginação praticados na França até então.

Seus três primeiros longas, Os Incompreendidos, Atirem no Pianista e Jules e Jim, transpiravam novidade por todos os poros - a câmera era fluida, os personagens não eram heroicos, os filmes eram vivos. Mas como Antoine Doinel, o Truffaut cineasta foi se tornando cada vez menos ousado e se "rendeu" ao mesmo tipo de cinema que ele abominava em seus tempos de crítico. Virou um diretor de filmes convencionais - foi por isso, aliás, que seu amigo e colega de Nouvelle Vague Jean-Luc Godard rompeu com ele (os dois já não se falavam havia mais de dez anos quando Truffaut morreu).

E quem vê o curta Les Mistons, um de seus primeiros trabalhos, e O Último Metrô, um de seus derradeiros, mal reconhece que são obras do mesmo diretor. Ok, é mentira: os dois são Truffaut até a medula, mas o primeiro é um Truffaut cheio de originalidade e energia, enquanto o segundo um Truffaut preguiçoso, quase desmaiado, tentando repetir o que já tinha conseguido anos antes com A Noite Americana - que, por sua vez, já era um filme problemático por si só (embora inquestionavelmente belo, transbordando amor genuíno ao cinema).

Dos cinco diretores que compunham o "núcleo duro" da Nouvelle Vague, Truffaut é sem dúvida o que melhor furou a blindagem da cinefilia e se tornou um caso raro de diretor de marca conhecida mesmo fora dos meios mais especializados em cinema. Mas pagou o preço disso: entre os especialistas e críticos, os outros quatro nouvelle-vaguistas, Godard, Eric Rohmer, Claude Chabrol e Jacques Rivette, são hoje muito mais badalados e estudados que ele. Os estudiosos preferem exaltar o Truffaut crítico e ensaísta, e ele foi realmente muito importante nessa área - foi uma das vozes mais atuantes na defesa do diretor enquanto "autor" de um filme, quando era corrente atrelar a noção de "autoria" ao roteirista ou ao produtor. Para muitos, sua obra-prima, entre filmes e textos, é um livro: "Hitchcock/Truffaut", em que entrevista longamente o mestre do suspense (é mesmo uma obra extraordinária, mas isso é uma enorme crueldade com o Truffaut artista).

Os ultraespecialistas não perdem muito tempo debatendo seus filmes, assim como é relativamente raro "perderem tempo" com nomes como Federico Fellini ou Ingmar Bergman. É claro que as obras desses cineastas já foram exaustivamente esmiuçadas no passado, mas essa rejeição entre os críticos se explica muito mais por Truffaut, Fellini e Bergman terem ultrapassado os limites da especialização e se tornado grifes conhecidas pelo público de fora dela: desprezá-los é uma espécie de autoproteção - bem tola, por sinal - por parte desses estudiosos. (Se algum dia Maurice Pialat ou Philippe Garrel também se tornarem queridinhos do público, certamente também cairão de moda; é patético, mas é assim que caminha a alta intelectualidade.)

Mas mesmo achando o Truffaut cineasta de certa forma injustiçado pelos críticos, preciso fazer aqui uma confissão: por mais que ele tenha sido um dos catalisadores da minha cinefilia, foi com o tempo deixando de ser um dos meus diretores favoritos para se tornar apenas um cineasta por quem tenho admiração e respeito. Talvez por tanto ver e rever seus filmes, cheguei a uma espécie de saturação. Ou é possível que tenha me sentido incomodado demais pela visão dele do cinema, muito "apaixonada" pro meu gosto. Por mais que eu ame o cinema, sempre preferi a vida; Truffaut, ao contrário, gostava mais dos filmes. Qualquer filme. (A Noite Americana é a prova acabada disso). Isso é muito bonito, mas traz em si algo de meio doentio, talvez desumano. De repente, comecei a achar seu cinema algo pouco saudável; me afastei de Truffaut.

Passei quase uma década sem ver nada dele, mas resolvi nos últimos meses retomá-lo. Para minha decepção, achei De Repente, num Domingo, que era um dos meus favoritos, uma bobagem (ainda charmosa, mas sobretudo uma bobagem), e me diverti só de leve com Atirem no Pianista; na revisão, me pareceu quase primitivo. Por outro lado, tive o mesmo e imenso prazer de quando vi pela primeira vez Um Só Pecado, Beijos Proibidos e Domicílio Conjugal. Não tenho ideia de como Fahrenheit 451 sairia em uma revisão, mas receio que continuarei desprezando A Sereia do Mississippi e O Quarto Verde tanto como da primeira vez. Mas já me preparo para mais uma vez chorar ao ouvir os acordes de Georges Delerue em A Noite Americana e rir da extraordinária Bernadette Lafont em Uma Jovem Tão Bela como Eu. E O Garoto Selvagem deve continuar, ao meu ver, sua obra-prima. Mas só vendo para saber ao certo.

Aos poucos, quero rever a obra completa de Truffaut - até porque revisitar seu cinema, para mim, será revisitar o período de minha formação cinéfila. Será entrar em contato com emoções muito enraizadas, uma experiência forte e certamente poética, independente do quanto meu gosto pessoal tenha mudado com o tempo. Jamais haverá novos filmes de Truffaut, precisamos nos contentar com os que foram feitos. Mas o que foi feito - e que teremos para sempre - já não é nada mau.

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