OPINIÃO

Sophia e Brigitte: as deusas também ficam oitentonas (VÍDEOS)

27/03/2014 14:49 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:16 -02
Flickr/jamesjoel

O ano de 2014 marca a chegada de duas lendas do cinema ao clube das octogenárias. Sophia Loren e Brigitte Bardot, quem diria, estão a caminho de completar 80 anos. Duas das mais belas mulheres que já passaram pelo planeta, que conseguiram deixar de ser meras divas para virar mitos cinematográficos, integrando um clube seletíssimo, do qual fazem parte Greta Garbo, Elizabeth Taylor, Marilyn Monroe e não muitas mais que cinco ou seis outras. Mais ainda: cada uma, à sua maneira, ajudou na definição do que significou ser mulher a partir da segunda metade do século 20.

Sophia e Brigitte nasceram praticamente na mesma semana. A italiana veio ao mundo em 20 de setembro de 1934; oito dias depois, era a vez da francesa. As duas chegam aos 80 anos com histórias de vida e carreiras (além de aspectos físicos) muito diferentes.

Enquanto "estrelas de cinema", tiveram também significados distintos. Talvez por isso nunca tenham sido exatamente rivais. Bardot era em geral colocada como "inimiga" da ítalo-tunisiana Claudia Cardinale, igualmente linda. Na época, era BB contra CC. Já Sophia tinha como maior rival a compatriota Gina Lollobrigida (o que, visto hoje, à distância, parece uma ideia absurda - com todo respeito a Lollo e seus fãs).

La Loren e La Bardot surgiram mais ou menos na mesma época também no cinema, mas seguiram trajetórias distintas. A italiana teve infância sofrida (passou fome durante a guerra), casou-se uma vez só e fez carreira em Hollywood. A francesa nasceu em família de posses, teve uma juventude tranquila e trocou de namorados com a mesma frequência com que mudava de biquíni (ela amava tomar sol - foi a responsável, inclusive, por tornar as então vilas de pescadores Saint-Tropez e Búzios em locais frequentados pelo jet set).

Sophia nunca superou a miséria da infância e fez disso sua força. Era uma atriz de temperamento intenso na tela e fora dela, na mesma tradição inaugurada por Anna Magnani. Em seus filmes, nunca era apenas a mulher bonita e "boazuda"; suas personagens tinham uma certa altivez, uma imponência. Mesmo em Hollywood, onde teve dificuldades para manter a carreira (nunca fez sequer um filme americano verdadeiramente bom), conseguiu se colocar: foi a primeira a ganhar um Oscar por um filme falado em língua não-inglesa (Duas Mulheres) e fez inveja a muitas americanas ao atuar com astros como Charlton Heston, Gregory Peck e Cary Grant. Com Grant, teria tido um affair (e fazê-lo se interessar por uma mulher é uma façanha que talvez apenas Sophia tenha conseguido realizar). Mas ela podia ser uma pessoa difícil: teve problemas no set quando contracenou com Marlon Brando e Clark Gable (mas com estes dois, quem não teria?). Já com Marcello Mastroianni, formou um dos casais mais simpáticos e queridos do cinema - atuaram em 14 filmes juntos, de comédias como Ontem, Hoje e Amanhã a dramas como Um Dia Muito Especial.

Brigitte nunca teve problemas na juventude - e isso talvez fosse o seu problema. Virou atriz por acaso (queria ser bailarina clássica), por força do destino. Mas ela era astuta e soube se impor como nenhuma outra estrela: agia exatamente da maneira como queria e fez o cinema se curvar a ela, não o oposto.

Como objeto de estudo, aliás, Brigitte sempre foi mais fascinante - talvez mais que qualquer outra estrela de cinema. BB foi um fenômeno para além do cinematográfico: como nenhuma outra, ditou moda e comportamento. Em plenos anos 50, tinha um estilo de vida libertário e modos masculinos: namorava quem bem entendia (sua longa lista de ex inclui Serge Gainsbourg, que compôs para ela a icônica Je t'Aime, Moi Non Plus), usava calças jeans, tinha os cabelos soltos e despenteados, mas não abria mão da própria sensualidade: sabia seu poder de sedução. Ao mesmo tempo, tinha uma grande vulnerabilidade e um jeito de bebê (o apelido BB, aliás, era uma brincadeira com a sonoridade da palavra). Com seu jeito, Inaugurou uma nova etapa do que significava "ser mulher", antecipando a revolução de costumes que aconteceria a partir de meados dos anos 60. Era um ídolo popular, mesmo entre pessoas que não viam seus filmes. Curiosamente, era também um prato cheio para as mais diversas especulações intelectuais sobre temas como feminismo e estrelato - Simone de Beauvoir, Marguerite Duras e Françoise Sagan dedicaram famosos artigos a BB.

Nos anos 70, a loira cansou-se de brincar de estrela de cinema e resolveu se aposentar. Enclausurou-se em sua propriedade La Madrague, na Riviera Francesa, e só aparece em público desde então para dar declarações racistas e de extrema-direita ou para defender os animais. Não fez plásticas, e desde os anos 90 parece desconhecer a existência de cosméticos para a pele e os cabelos. Nos anos 50, Deus criou BB, e ela em seguida criou a mulher. Décadas depois, esforça-se em torná-la um monstro.

Sophia, por sua vez, envelheceu bem. Era uma setentona belíssima, até errar há alguns anos em procedimentos estéticos no rosto. Mas nada de tão grave: está em uma forma invejável para uma semioctogenária. Sempre teve uma vida mais discreta que BB, principalmente por ter se mantido casada com o produtor Carlo Ponti até a morte deste, em 2007. Mas, claro, teve seus momentos de diva trágica. Passou nove meses sobre uma cama em sua primeira gravidez sob risco de perder o bebê. E em 1982, ficou quase 20 dias na cadeia, por problemas com o fisco italiano (recentemente, ela foi inocentada em julgamento por uma outra pendenga tributária que se arrastava desde os anos 70).

Em termos de talento, Sophia estava à frente de Brigitte. Em geral, a morena era uma atriz mediana, mas quando bem dirigida, podia ser ótima. Em muitos trechos de Duas Mulheres e em todo Um Dia Muito Especial, Sophia tem expressões dignas das grandes damas da atuação. Já Brigitte costumava se dar melhor quando fazia variações de si mesma - ou seja: quase sempre. Não era muito versátil.

Mas talento dramático não é exatamente o ponto quando se fala de estrelas do porte dessas duas (se fosse, Marilyn não seria um mito - sendo que simplesmente é o maior deles). Aliás, é difícil precisar que ingredientes levam uma pessoa a ultrapassar o status de simples "diva" para virar "mito". Nada é científico nesse assunto.

A beleza, apenas, também não basta (ou mulheres deslumbrantes, como Katharine Ross e Kelly Lebrock, por exemplo, jamais teriam caído no esquecimento). A mitologia é algo muito mais complexo, que engloba, sim, talento e beleza, mas também vários outros fatores. Carisma é certamente um dos mais importantes. A história de vida da atriz também conta muito - seus dramas pessoais, seus affairs e os rumores sobre ela. E a postura da estrela diante do que a cerca também é essencial, desde como se posiciona publicamente diante de uma questão polêmica à roupa que veste em um festival badalado. Some tudo isso aos papeis que interpretou e à maneira como foi filmada (se Marlene Dietrich se tornou quem foi deve muito à forma como Von Sternberg a enquadrou em seus filmes) e, voilà: o panteão está próximo.

Sophia e Brigitte são riquíssimas em todos esses aspectos. E são criaturas cinematográficas por excelência. Olhar fotos de divulgação das duas nos anos 50 e 60 já é algo fascinante por si só. Mas quando em movimento, são simplesmente apaixonantes.

Observar Sophia Loren, com seu nariz um pouco mais longo que o das divas clássicas, suas formas curvilíneas e sua gesticulação latina, é um espetáculo e tanto. E quando ela surge em Matrimônio à Italiana marchando por um beco em Nápoles, altiva e sorridente, brincando com um garotinho, estamos diante da marcha de uma deusa - nem Monica Vitti ou Jeanne Moreau, as duas andarilhas mais elegantes do cinema, seriam capazes de um troteado parecido. Sophia tinha postura; era classuda.

Mesmo em filmes ruins ou sem muito capricho, vê-la em cena é um deleite. No desleixado Começou em Nápoles, ela tem um número de cabaré em que dança ao som de Tu Vuò Fa' l'Americano. A sequência é capenga - a coreografia é fraca e o figurino de mau gosto (um collant verde e roxo a deixa bem mais corpulenta que qualquer mulher gostaria de parecer). Mas Sophia, quando começa a cantar e dançar, ganha o público. Uma dançarina profissional, com uma coreografia sofisticada, seria certamente uma visão interessante. Mas a arte de Sophia está em sua imperfeição, em sua nonchalance napolitana e a convicção de que está fazendo o que pode - e o público que lhe agradeça por isso. E nós, é claro, agradecemos. Isso é ser uma estrela.

Brigitte também era uma mulher com movimentos extraordinariamente sedutores. Bastou ela dançar um mambo em E Deus Criou a Mulher para virar uma estrela da noite para o dia, no mundo todo. Mesmo quando atuava mal ou deixava clara suas limitações, era quase hipnótica sobre seu público. (Não houve ensaio de Duras ou de Beauvoir que soubessem explicar as razões disso). Talvez a melhor explicação tenha sido dada por Louis Malle, em seu filme-tributo à estrela, Vida Privada: "Entre aquele rosto e a câmera, alguma coisa de excepcional acontece". Aliás, o filme de Malle é um estudo meticuloso sobre o mito Bardot, menos pelo roteiro (largamente baseado na vida da loira) que pela análise dos seus gestos: como em um documentário, a câmera a observa em atos cotidianos - fumando, escovando os cabelos, sorrindo, chorando, varrendo o chão... Como se Malle quisesse compreender onde, naqueles gestos, estava a magia de Bardot (o filme é um documento muito melhor sobre a atriz que o mais famoso O Desprezo, de Godard, que, no fundo, é muito mais sobre Anna Karina, mulher do diretor na época, que sobre BB).

A crítica costuma concordar que sua melhor performance em A Verdade, mas se ela merecia um prêmio talvez fosse por Viva Maria!, comédia em que consegue um milagre: simplesmente eclipsa a colega de cena, Jeanne Moreau, outra gigante do cinema e atriz de muito mais recursos.

No cinema, como se vê, o charme muitas vezes é capaz de suplantar a técnica. Por isso é uma arte diante da qual respondemos muito mais com os corações que com o cérebro. E também por isso que todos nós amamos o cinema, assim como amamos Sophia e Brigitte.