OPINIÃO

Afinal, o que define uma grande atuação no cinema?

08/08/2014 15:45 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:45 -02
Reprodução

Dia desses, uma amiga americana, jornalista, quebrava a cabeça tentando elaborar um ranking com as dez maiores atuações da história do cinema. Já exausta, pediu minha opinião, e imediatamente me vieram à mente tantas performances, de atores tão diferentes e de estilos e épocas tão distintas, que, dois minutos depois, em vez de uma lista, eu quase apresentei a ela meus pêsames por ela ter uma tarefa tão complicada pela frente.

Ao pensar em "grande atuação", me vieram logo à cabeça as três maiores atrizes em atividade: Meryl Streep, Isabelle Huppert e Judi Dench. A Meryl de A Escolha de Sofia, claro, mas também as de A Mulher do Tenente Francês e Silkwood. A Isabelle de A Professora de Piano, que poderia liderar a lista, e a Judi de Notas sobre um Escândalo. Depois pensei nas grandes damas do passado: Bette Davis, em A Malvada, Katharine Hepburn, em A Mulher que Soube Amar e Longa Jornada Noite Adentro, Olivia de Havilland, em Tarde Demais.

Entre os homens, vários Jack Nicholsons (Cada Um Vive Como Quer, Chinatown, Um Estranho no Ninho), Robert De Niros (Taxi Driver, Touro Indomável, Cabo do Medo) e Al Pacinos (Um Dia de Cão, Serpico). Também muitos (quase todos) Rod Steigers e Marlon Brandos, claro, e pelo menos um Laurence Olivier (Ricardo III), outro que poderia facilmente estar no topo do ranking. Dos mais modernos, Daniel Day Lewis (Meu Pé Esquerdo) e Joaquin Phoenix (O Mestre).

Mas logo deixei o assunto de lado e fui cuidar da vida. Dias depois, a amiga me mostrou a lista dela - até interessante, por sinal. Peter O'Toole (O Leão no Inverno) e Viven Leigh (E o Vento Levou) estavam no topo. Senti-me péssimo por ter esquecido O'Toole no meu ranking (como eu pude??) e também achei estranho deixar passar batido a Scarlett de Leigh. Mas para quem havia esquecido gênios como Anna Magnani, Gérard Depardieu e Ingrid Bergman, nada de mais... Sem contar os brasileiros (mas aí, tenho uma desculpa - meio esfarrapada, mas ainda assim um álibi: a amiga era americana, então a não ser pela Marilia Pêra de Pixote ou a Fernanda Montenegro de Central do Brasil, de nada adiantaria eu mencionar gigantes como Lilian Lemmertz ou Jofre Soares: ela não os conheceria). Em comum, nossas listas traziam apenas Meryl Streep.

Mais do que eleger realmente as maiores atuações da história, esse exercício (que não leva rigorosamente a lugar nenhum) me fez pensar em uma série de questões sobre como avaliamos os atores e suas performances. Nossas escolhas dizem muito sobre valorizarmos certos tipos de atuação em detrimento de outros.

Pesquisando outras listas na internet, percebi que a tendência é dar melhores posições no ranking a atuações em filmes de língua inglesa, de dramas e de atores que são também grandes estrelas. Performances em comédias ou filmes de gênero são raras. É como se confundíssemos sofrimento na tela com competência artística: quanto mais dramática a trajetória do personagem, mais impressionados tendemos a ficar. A chance de o ator nos ganhar (e de ganhar prêmios) aumenta consideravelmente se ele passa por mudanças físicas radicais e se o personagem que interpreta existe na vida real (gostamos de observar atores se metamorfoseando em seus biografados).

Mas como definir tecnicamente o que é uma boa atuação? Desde que o teatro existe, discutem-se procedimentos e até se teoriza sobre os caminhos para os intérpretes serem bem-sucedidos. Por muito tempo, o ator mais valorizado era aquele que conseguia sentir de fato o drama do personagem, sendo como que possuído por ele. Foi Diderot, no século 18, quem inaugurou a visão da primazia da técnica sobre o sentimento: um grande ator era quem enganava o público, fazendo-o crer que sente algo, quando, no fundo, é dono do próprio corpo. Essa visão influenciou uma vertente muito forte do teatro, o britânico sobretudo.

Foi a partir dos anos 30 que a representação começou a ter contornos mais próximos de como é hoje. Lee Strasberg, inspirado por Stanilavski, defendia a fusão entre o ator e o personagem - o intérprete deveria compreender a psicologia do seu papel e se apropriar dela usando a sua própria memória afetiva; os gestos deveriam vir de uma motivação interior. No cinema, Brando capitaneou essa tendência - e revolucionou toda uma arte. Hoje em dia, os atores tendem a mesclar estilos de atuação, recorrendo mais a um ou outro método quando acha mais apropriado. Talvez por isso, já faz algum tempo que o nível das performances no cinema (ao menos o de Hollywood, nem tanto o do Brasil) é felizmente bastante bom.

Mas a escola de onde vem um ator pouco importa: o método escolhido pelo intérprete, aliás, nem sempre é perceptível pelo público. O gosto de cada um conta muito na hora de julgar uma performance. Tenho um amigo que, sem nenhuma razão em especial, não gosta de Fernanda Montenegro, e já li por aí gente que não entende por que Brando é tão badalado. Eu mesmo tenho lá opiniões das quais muitos discordam. Sou particularmente imune, por exemplo, às atuações que vêm juntas ao ganho ou perda excessiva de peso do ator; nesses casos, não só acho que ele usa a transformação corporal como uma muleta como tenho minha atenção desviada da performance em si para a alteração física. Não raro fico com pena do ator, pois sei que ele jamais voltará ao que era antes (após emagrecer para O Operário, Christian Bale perdeu para sempre o sex appeal que seu rosto tinha antes, e Renée Zellweger é capaz de morrer de inanição antes de perder um milímetro que seja das bochechas que adquiriu ao engordar para Bridget Jones).

Também tendo a rejeitar performances muito maneiristas, intensas sem necessidade, "larger than life". Acho Daniel Day-Lewis e Meryl Streep não apenas grandes atores: são os dois maiores. O que não me impede de achar a performance dele em Sangue Negro um dos casos mais extremos de "overacting" da história do cinema (Lewis é operístico quando deveria ser apenas contido); e vejo a atuação de Streep em Dama de Ferro como simplesmente um equívoco, do início ao fim (é muito pré-calculada e dolorosamente afetada). As pessoas em geral, porém, tendem a se impressionar muito com atuações assim, e o Oscar que ambos ganharam é prova disso.

Ora, a atuação não é uma ciência exata: é uma arte. E não só seu julgamento passa por gostos pessoais como também tem relação direta com o projeto estético do filme como um todo. Sir Anthony Hopkins ou dame Maggie Smith certamente seriam péssimas escolhas para os propósitos ultrarrealistas dos filmes de um Bruno Dumont, assim como os atores não-profissionais de Robert Bresson (que ele chamava de "modelos") dariam um vexame homérico se escalados para um filme de William Wyler.

Mas deixemos os casos específicos e muito experimentais e fiquemos no cinema mais convencional. Em geral, é possível considerar uma atuação como "boa" quando o ator convence o espectador daquilo que representa. Se o público chega a esquecer que está vendo uma performance, então, melhor ainda.

O grande público aprendeu com os anos a diferenciar muito bem as atuações ruins das medianas. Mas as "boas" e as "grandes" ainda confundem as pessoas. É improvável que alguém em sã consciência tenha Ben Affleck ou Kristen Stewart como modelos de boa atuação, mas há pessoas que juram que George Clooney e Anne Hathaway estão no mesmo nível de excelência de um Willem Dafoe ou uma Melissa Leo; tomam estrelato por proeminência artística (eu, pessoalmente, adoro Joan Crawford, mas sei muito bem que ela não tinha metade dos recursos dramáticos de uma Geraldine Page, atriz pela qual sempre tive total indiferença).

Clooney e Hathaway são bons atores, até acima da média, e com a vantagem de terem mais charme que 90% dos demais. Ele nos impressiona ao urrar de dor durante uma tortura em Syriana, e ela nos comove ao cantar e chorar ao mesmo tempo em Os Miseráveis. Mas quantos atores não seriam capazes de urrar de dor de forma mais ou menos semelhante em uma cena de tortura? E quantas atrizes não poderiam cantar e chorar ao mesmo tempo, de modo tão comovente quanto (e com até mais afinação)?

O que diferencia uma atuação competente de uma "grande atuação" está em algo para além da representação em si; é um "algo mais" que um ator consegue transmitir pelo seu personagem - um brilho muito próprio no olhar, um gesto surpreendente, uma maneira inusitada em dizer alguma palavra. A grandiosidade de uma atuação está na peculiaridade que o ator confere a ela; está no intérprete que faz algo que nunca foi visto antes - e talvez jamais será visto novamente. É o grito "mudo" de Rod Steiger em O Homem do Prego; são as expressões de inveja de F.Murray Abraham em Amadeus; é Gena Rowlands afastando as pessoas com os dedos em cruz em Uma Mulher sob Influência. Ou o caminhar de Giulietta Masina na mansão do galã em Noites de Cabíria; a impostação da voz de Jane Fonda nas sessões de análise de Klute; o sorriso forçado e tenso no rosto de Maximillian Schell em Julia. Essas atuações são convincentes pelo ponto de vista dramático, mas vão além: nelas, os atores fazem algo inimitável e acrescentam novas camadas à interioridade dos personagens, que muitas vezes inexistiam no roteiro original. Nesses casos, os atores são quase tão importantes para o resultado final do filme (e seu significado) como o roteirista ou o diretor.

Há ainda algumas atuações que pouco ou nada acrescentam ao que já estava no script, mas que são feitas de modo tão autêntico ou tão singular que transcendem o que um ator comum (ou meramente competente) poderia fazer. Quem poderia ter ataques de fúria tão acima do tom e "camp" como os de Faye Dunaway em Mamãezinha Querida? Ou ser tão engraçado em suas brigas com um fantasma como Whoopi Goldberg em Ghost? (Talvez só Steve Martin, mas de uma maneira também completamente própria, em O Espírito Baixou em Mim). Ou ser tão brilhantemente autoirônico como Bill Murray em Feitiço do Tempo? São também atuações extraordinárias, únicas em seu tipo e imbatíveis. Mas dificilmente irão ao top 10 de alguém, por não serem suficientemente "solenes". Ou, sendo mais direto: por preconceito. Palavra de quem reconhece essas atuações como do mais alto nível de originalidade - e (por que não?) grandeza. E de quem faz aqui seu mea culpa por nem ter passado perto de cogitá-las para seu ranking inicial das maiores da história.

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